MURMÚRIOS DO CEIRA
UMA FLOR E UM BEIJO
A ternura de uma criança tem sabor a mel. no coração do velhinho. C.B.S.
MURMÚRIOS DO CEIRA
UMA FLOR E UM BEIJO
A ternura de uma criança tem sabor a mel. no coração do velhinho. C.B.S.
MURMÚRIOS DO CEIRA
TRADIÇÕES DA BEIRA
A Terceira Idade é um livro de ensinamentos que a mocidade deveria ler, cuidar e ter de perto. C.B.S.

MURMÚRIOS DO CEIRA
O MEU PRIMEIRO DIA DE AULAS
O bom professor também precisa do bom aluno. C.B.S.
Já lá vão algumas décadas que numa manhã radiosa de sol, em que o calendário indicava 7 de Outubro, preparava-me para dar entrada na Escola Primária. Acompanhou-me a nossa serviçal Alzira que Deus lá tem; uma jovem de 21 anos que me viu chorar desde que saí de casa, até à porta da Escola. Lembro-me que lhe disse:
Fica comigo… Mas ela tinha de regressar a casa para os trabalhos domésticos e do campo, que a minha mãe, antes de ir para a loja, já lhe havia destinado. (Eu sou a mais pequena que está de escuro na pontinha do lado direito.)
Coitada, por ter de ir servir cedo, não teve acesso às letras e não chegou a aprender a ler. Não atingiu esse grau mínimo de instrução, porque, entretanto, casou e eu não tive tempo de lhe curar a “doença” do analfabetismo…
A senhora Professora, como nós a tratávamos, era nesse tempo a D. Anália Tomé, que me recebeu assim:
-Dá cá um beijo e senta-te ali na carteira, ao lado da “Lila” Candeias. Mas porque estás triste, Clarisse?
- Porque não gosto daqui, senhora professora – respondi.
A Escola, onde funciona agora a Junta de Freguesia, era dividida em duas partes, independentes. Numa sala estavam as meninas e na outra os rapazes que tinham por mestre o Sr. Professor Serafim Marques Gomes de Araújo. Penso que alguém ainda se lembrará deles, pois enquanto brincávamos no intervalo, eles passeavam à volta do Edifício Escolar, em amena conversa.
Havia na Escola umas “orelhas de burro” cor-de-rosa, para castigo das menos atentas às aulas. Parece que estou a ver as meninas com elas enfiadas na cabeça em cima de um estrado, com modos tristes de enfado…
Muitas vezes a senhora obrigava-as a irem colocarem-se com elas à porta da sala dos rapazes para eles se rirem… Nunca me lembro de tê-las na minha cabeça, com certeza, por ser bem comportadinha de fazer por estudar muito, de madrugada para que ficassem os estudos melhor gravados na memória. Gostava muito de História e aritmética. Foi por isso que, no dia do meu exame, brilhei no quadro a fazer os quebrados e complexos.
Existia ainda a palmatória de “cinco olhos” que um dia desapareceu….
Porem, também não me recordo de alguma vez, a sentir na minha mão e custou-me um dia, já na 4ª classe, a mando da senhora Professora ter de dar algumas leves… reguadas a todas as meninas por não saberem a tabuada que eu tinha toda encaixada na cabeça. ´
E que a nossa mestra era muito briosa e arreliava-se bastante se as suas alunas não correspondiam ao seu esforço de ensinar, chegando a dar-nos aulas particulares.
Em casa, tinha a minha mãe, que sabia ajudar nas lições, e ai de mim e do meu irmão que não aprendêssemos também as regras da boa educação. Era já um rapazinho adolescente, o meu irmão, e o nosso pai prendi-o com uma linha fina, por detrás do balcão da nossa loja de comércio, na qual se vendia de tudo, desde os carros de linhas aos bicos de arado… Para , de manhã, o acordar, um copinho de água pelas costas abaixo… Era este o despertador que o nosso pai usava… À noite, não havia autorização de rua para ninguém.
Mas volto a referir-me aos estudos. Hoje, com o desregramento dos costumes entre a nova juventude, quer creiam quer não, os comportamentos alteraram-se e o respeito devido deixou de funcionar. A promiscuidade e a confusão indistinta que se verifica hoje nas Escolas e recreios, também contribuem para a desordenação do sistema.
Ouço dizer e leio nos jornais, que cada vez há mais insucesso escolar e os professores não conseguem pôr os alunos a estudar com atenção, e são por vezes desrespeitados e até agredidos por eles. Por outro lado, há também professores novos que não se mostram muito exigentes na missão de leccionar. Há meses num concurso de dinheiro, apreciei uma concorrente atrapalhada, porque frequentava um curso superior e não conhecia o cognome do nosso rei D. Sebastião. Outro, que até acertava bem em cultura geral, mas não sabia qual a última das três pessoas da Santíssima Trindade… nem nunca ouvira falar no Espírito Santo. Que atraso de cultura religiosa!
Em casa não há tempo e, raramente, ambiente adequado para explicações de toda a ordem e troca de um diálogo são, mas era ali, obviamente, que se deveria começar a formar a mente das crianças e dos adolescentes que precisam de afectos, mas não podem mimar-se em demasia, concedendo-lhes liberdade ilimitada e dinheiro a mais nos bolsos. Há zonas tão vulneráveis e susceptíveis a críticas, que o professor é um herói a conseguir o objectivo de dominar os seus alunos que trazem da rua novos fenómenos que têm de enfrentar e saber combater com rigor e afecto. Todos os professores deveriam saber algo de psicologia. A fim de simultaneamente analisarem também problemas psicológicos do estado de saúde mental dos seus discípulos e, por fim, tratarem das suas faculdades morais e intelectuais, como sejam a ciência da alma, que é pura de essência e, tantas vezes, uma luz brilhante a extinguir-se num corpo por acabar de se formar…
A insegurança nas Escolas e, até, a criminalidade avança a olhos vistos. Por este andar, quem quererá ser professor ou professora amanhã? Estou a lembrar-me do caso impressionante ocorrido na Alemanha no mês de Abril de 2002 em que um estudante expulso matou cruelmente catorze professores, dois alunos, um polícia e por fim suicidou-se!
Duma família sã, cuidadosa e modelar, fazendo elo inquebrantável com a Escola, (pais e professores) é que surgirão pessoas íntegras e cultas no futuro. O Lar é a primeira Escola da Vida que deve ser regida e exemplificada, desde a meninice até à juventude.
A inteligência, a bondade e a nobreza da alma poderão cedo começar a cultivar-se, e porque não, aulas de Educação Social a novos pais? Se podem tirar horas de serão para se verem telenovelas, quanto mais útil não seria aproveitar-se esse tempo para uma hora de estudo e reflexão do espírito?!
Não nascemos para génios, mas poderemos transcender dos limites do quotidiano, afim de estarmos aptos a auscultar a tendência dos infantes e a firma-los em alicerces de bases sólidas para um melhor futuro deles e de toda a Humanidade. Uns vão… e tantos cá ficam sem saberem o caminho recto que hão-de trilhar…
Eis um caso interessante: ouvi dizer que em certo lar, a televisão fecha-se todos os dias um bocadinho para diálogo de família e falar de Deus. Que bonito!
Não gostei de entrar na Escola Primária, e depois vim a gostar muito. Tanto que fiquei mais um ano a ajudar a senhora Professora, mas sem ganhar nada… O meu pai queria que eu não esquecesse o que tinha aprendido. É verdade, que tinha em Coimbra o meu padrinho a dar aulas num Colégio de família, mas era só de rapazes e nesse tempo era muito difícil voar alto…
Já agora, gostaria de deixar aqui gravado, no meu modesto livro, a história e o nome de um Homem que admiro muito, pela sua tenacidade, forte vocação para as letras e se chama: JOÃO ALVES SIMÕES:
Nascido em Ponte do Sótão, freguesia de Góis, em 15 de Junho de 1940, saiu da terra aos onze anos de idade, levando por bagagem, a sua distinta quarta classe, para ir empregar-se como aprendiz numa retrosaria,
Torna à terra em 1962 e inicia aqui em Góis e Arganil os seus estudos liceais. Em 1963 regressa ao mar, embarcando no navio tanque “Fogo”.
Em Janeiro de 1964 volta ao Colégio de Arganil e chamam-no de Lisboa para cumprir o serviço militar. Colocado em Elvas, vai, daqui, fazer o exame do 5º (Secção de letras) na Figueira da Foz. Como Sargento M. esteve também em Mafra, Tavira e por fim Lamego, de onde saiu para ir servir o Ultramar. Entretanto, vai estudando, Promovido a furriel Miliciano em 1965 desembarca
Em 1967 regressa à Metrópole, passa à disponibilidade e é nomeado Ajudante Oficial na Alfândega do Porto, onde reside e permanece nesta actividade até 1983.
Em 1971 casou em Coimbra com Maria Regina Aguiar e em 1973, após ter concluído o exame do 7º ano, é admitido na Faculdade de Letras do Porto, que frequenta até 1978, como aluno voluntário/trabalhador, a Licenciatura em História, que termina em 1978, com boa classificação, permitindo-lhe continuar na Universidade, os estudos de Pós – Graduação e Mestrado. Desde essa data até 1995 é professor provisório e efectivo
De
Continuando a sua carreira de Professor efectivo, foi-lhe concedido, em 19 de Março de 2002, o direito à aposentação e passa à situação de Professor Jubilado.
Em 12 de Julho de 2002, o seu trabalho de tese, -“Os Expostos da Roda de Góis (1784 –
Tive neste dia, o gosto de felicitar sua mãe, que certamente chorou de alegria e comoção, vendo o seu filho, que lutou sozinho, nos píncaros da lua!...
Jovens da nossa terra, – e não só – coloquem aqui os vossos olhos… inspirem-se e trilhem por estes caminhos árduos, é verdade, mas muito gratos e dignificantes. Isto é, apenas, um resumo… de uma carreira brilhante, de um GRANDE EXEMPLO a seguir.
Também eu gostaria de ter seguido os meus estudos, como já disse, mas faltaram-me as “asas”… e aos meus pais os meios necessários para voar…
AMOR SEM FRONTEIRAS
Olhos vendados para o mundo, abrir-se-ão no Céu, diante de um sol diamantino, feito por Deus. C.B.S.
ENLEVOS DE AMOR

Nos subúrbios duma pequena vila beiroa, habitava na bonita vivenda “Margarida”o senhor José Martins Gouveia, de 75 anos de idade, acompanhado apenas da sua antiga empregada Elvira que, por ser muito dedicada ao seu amo, nunca o quis deixar só.
Quando, há cerca de 15 anos, a D. Margarida Gouveia faleceu, esta, pressentindo o seu fim, pediu à Elvira, (que nunca se quis casar) que tomasse conta do seu marido que ficava quase só no mundo, pois o único filho do casal havia falecido muito jovem, num desastre de viação.
Logo após a perda da esposa, o senhor Gouveia, que fora um conceituado lavrador, resolveu vender todas as propriedades e ficar apenas com a casa e quintal à volta. A Elvira, que tinha menos 15 anos do que ele, também aprovou a ideia – dizendo:
- O quintal chega para nós. Olhe senhor Gouveia, em morrendo o “tio Zé Carlos”, não há ninguém quem cuide do quintal e do jardim.
- Dizes bem, Elvira, foi a melhor coisa que fiz. Trabalhei tanto para juntar alguns haveres e não
Tenho a quem os deixe, ou melhor, quem os mereça.
- Tem os seus sobrinhos, que não vão deixar de aceitar a herança…
Sim, logo aparecem para tratar do funeral e habilitarem-se como herdeiros… Eu sei. Mas olha, Elvira, a família não existe só para sucessão de bens, mas mormente também para apoio, arrimo solidário na doença e convívio fraterno etc. etc. Infelizmente nada disso acontece comigo; bem sabes.
- É verdade, senhor Gouveia. Mas é assim a vida moderna. Hoje nem os próprios filhos pensam em acompanhar devidamente os pais na sua velhice. Arrumam com eles para os Lares e que lá se amanhem…
Quando vou à vila gosto de visitar a minha prima Noémia que está no Lar e bem vejo a lamúria e tristeza de muitos, que é de fazer chorar as pedras!
Estas duas pessoas vivivam e estimavam-se como irmãos. Ele sempre a respeitou, até porque sabia que a Elvira era uma mulher honesta e crente. Viviam como Deus com os Anjos. Um amparo mútuo, Amigo e sério, de fazer inveja aos verdadeiros santos. Anos antes o senhor Gouveia ainda pensou em casar com ela, por causa das línguas do mundo e até para deixar parte da sua pensão de reforma. Só que ela logo lhe disse e de maneira muito expedita e desinteressada:
- Pense melhor, senhor Gouveia. Qualquer de nós já não está em idade de bodas… nem proclamas de banhos na Igreja. Distraia-se com os versos, que eu cuido da casa e deixe falar quem fala. A reforma também não é lá grande coisa… O mais importante é que cumpramos com os nossos deveres de Cristãos autênticos.
O leitor ainda não sabe, mas O Senhor Gouveia era poeta. Nunca quis manifestar bem a sua inclinação, mas é evidente que, desde novo, ocupou os seus tempos livres a fazer versos. Fez mesmo algumas letras para marchas e ranchos folclóricos da vila e tinha até um certo dedo para a música. Lia muita prosa, mas gostava mais de poesia. Sempre que ia á vila nunca se esquecia de trazer um bom livro clássico para ler, e a Elvira, com vontade de se ilustrar, lia também.
Tinha ele uma gaveta cheia de produções suas, algumas que havia dedicado à sua finada esposa e ao filho João, que Deus lá tinha.
Ainda hoje a poesia é o seu passatempo favorito, gostando de transmitir para o papel os estados sentimentais da sua alma. A Elvira sabe pouco de poesia, mas gosta de o ouvir declamar os poemas que ele faz com muito gosto e inspiração.
Há dias saiu-se a Elvira, com esta:
- Por que é que o senhor Gouveia não reúne todos os seus versos num livro? Tem poemas tão bonitos que as pessoas gostavam de ver. Aquele soneto. “O CANTAR DA ÀRVORE”, que escreveu há dias, ficou um espanto! Chamam-lhe, às vezes, “poeta popular” porque mal conhecem os seus escritos, apenas sabendo de alguns que faz de improviso. Não publica nada.
- Escuta, Elvira: Eu até gosto que me chamem “poeta popular”. Significa que canto para o povo e de maneira que o povo me entenda, percebes? Não vou importar-me com isso, até por que já vi rotular de “poetas populares” grandes e muitos distintos poetas portugueses, nomeadamente António Aleixo a quem alguns dos famosos não lhes chegam às barbas…
- Santa ignorância chama-se isso, porque “poetas populares”, ou lá o que é, atribuem-se às vezes, de forma humilhante e hostil àqueles que fazem uns versos poucos inspirados, sem métrica nem nada, o que não é o caso do senhor Gouveia, Bagagem de conhecimentos tem muita, mas falta-lhe nome, o que é, por vezes, bem difícil de conseguir, Mas repare, senhor Gouveia, há quem arranje um nome bem sonante, fazendo poesias que ninguém compreende. Por exemplo: eu não entendo aonde se encontra a arte e o interesse destes versos que, como diz o autor, estão fora do seu ritmo:
Há mais de meia hora
Que estou sentado à secretária
Com o único intuito
De olhar para ela.
(Estes versos estão fora do meu ritmo.
Eu também estou fora dó meu ritmo).
Tinteiro grande à frente.
Canetas com aparos novos à frente.
Mais para cá papel muito limpo.
Ao lado esquerdo um volume da “Enciclopédia Britânica”.
Ao lado direito –
Ah, ao lado direito!
A faca de papel com que ontem
Não tive paciência para abrir completamente
O livro que me interessava e não lerei.
Quem pudesse sintonizar isto!
- Não entendes, mas entende quem os escreveu, talvez só para si… Tens razão ninguém ousaria chamar “poeta popular” a Fernando Pessoa, autor do referido texto, que não tem nada de especial e nem de poético. Aqui, que ele não nos ouve, também não me agrada este género de poemas. Sim, mas ele tem coisas um bocadinho melhores. A “Mensagem” é uma obra muito conhecida e, até, há quem julgue Fernando Pessoa, o melhor poeta de todos os tempos.
- Talvez, senhor Gouveia, mas eu gosto mais dos seus poemas, que são transparentes como a +agua cristalina dos ribeiros. Lembram mesmo as poesias que dantes vinham nos livros de leitura, feitas por grandes mestres.
-, Grato, Elvira, pelo teu amável elogio, Daqui a pouco percebes mais do que eu. Estou admirado, já falas em métrica e tudo…
- Sim, já sei que as quadras populares têm de ter sete sílabas, senão ficam coxas e não soam bem ao ouvido.
A vida ia decorrendo calma, até que algum tempo depois, Deus chamou o senhor Gouveia à sua presença, comparecendo imediatamente na casa os três sobrinhos. Ao abrirem o cofre encontraram uma linda caixa prateada, que abriram logo, pensando talvez, tratar-se de alguma colecção de jóias. Mas não. Eram preciosamente versos que ele mais gostava e havia guardado ali, com muito carinho.
Um dos sobrinhos, decepcionado, quando viu do que se tratava, passou a caixa para a mão da Elvira, dizendo de modo aborrecido:
- São as cantilenas do meu tio. Atire com elas para o lixo…
A Elvira, em vez de jogar fora a caixinha, foi guardá-la na sua mala, como saudosa relíquia do seu amo e até chorou de comoção, por ver a falta de apreço que tinham por coisas que o tio estimava tanto.
Dias depois, e já com calma, a Elvira tornou a abrir a caixa dos versos e deu lá com um envelope lacrado, que4 continha no exterior o seu nome. Surpreendida, abri-o e logo encontrou duas folhas de papel escritas, sendo uma em verso e outra
Fiz testamento Notarial
Seguidamente e comovidíssima a Elvira leu a folha em verso, reparando que era um soneto ao qual ele pôs o título:
Quando eu morrer, Elvira, o que escrevi
E guardei nesta caixa de segredos,
Versos arrumadinhos, por meus dedos,
Não tendo a quem os dar… São para ti.
São memórias dos anos que vivi,
Meus Enlevos de Amor, dos dias ledos,
Tantos que fiz à sombra de arvoredos.
Lembrando a esposa e filho que perdi.
Guarda-os, Elvira, bem no teu poder;
Não tenho mais a quem os oferecer,
Nem que deite, por eles, um olhar!...
Um dia seguirás este caminho.
Mas antes, minha “irmã”, põe de mansinho
Todos os meus poemas a voar!
Muito sensibilizada, a Elvira, com as lágrimas nos olhos, decidiu não revelar a ninguém o que a caixa continha de misterioso… Foi depois ao cofre, mas não encontrou a cópia do testamento. Deduziu que os sobrinhos a sacaram com o fim de se habilitarem como herdeiros universais… Sim, eles ainda pensaram nisso, mas de nada valeu, porque outra cópia autenticada estava nas mãos de um Advogado, que logo legitimou o assunto nos serviços Notariais e Finanças.
A Elvira, ao ler toda a poesia do seu amo, decidiu tornar público o importante espólio poético do senhor Gouveia. Em sua saudosa memória, mandou editar um livro de poemas, quase todos sonetos, ao qual pôs o título “ENLEVOS DE AMOR”, exactamente o nome que ele dera ao soneto que lhe dedicou.
O nome de JOSÉ MARTINS GOUVEIA iria ficar na História das Letras Portuguesas, graças à Elvira, que foi muito louvada por este honroso gesto. E o livro agradou de tal maneira ao público que a obra de mil exemplares, em três meses, se esgotou. Uma considerada Editora tratou depois de uma 2ª Edição.
Eis uma simples história, que poderá talvez, ter algo de realidade.
MURMÚRIOS DO CEIRA
O ZÉ PEQUENO

Chamavam-lhe o Zé Pequeno, mas o seu verdadeiro nome era José Francisco da Silva Fernandes
E morava na aldeia de Folgoselha, pertencente a um concelho da Beira Alta.
Sendo o mais novo de três irmãos e de estatura baixa, viveu sempre numa terra pouco povoada, com difíceis meios de comunicação rodoviária e sem uma Escola de Instrução Primária. Os seus irmãos, cedo abalaram para Lisboa e lá aprenderam o que a sua terra Natal não lhes pôde oferecer: - Instrução!
Os pais eram modestos agricultores, porquanto o filho mais novo ficou para ampará-los e ajudá-los na lida do campo. Mas o pequeno era fraco.
Tinham muitos animais, de que o Zé gostava imenso. Destes fazia parte um rebanho de cabras e ovelhas que todos os dias o Zé Pequeno levava a pastar para o monte. Era um zagal muito alegre e divertido, e ainda com uma certa habilidade para fazer flautas e assobios. Muitas das vezes quando tocava e cantava, o gado, junto dele, até pulava, como que a fazer ensaios de dança!...
Chegado aos vinte anos o Zé Pequeno foi às sortes, mas ficou livre do serviço militar por ser um pouco raquítico, baixo e um nada corcunda. No entanto. Ninguém diria que era um rapaz muito inteligente e com vontade de saber e fazer tudo.
Chegou a namorar, com muito entusiasmo, uma moça sua vizinha, que um dia saiu da aldeia e foi servir para o Porto e por lá ficou, casando e esquecendo o pastor apaixonado, que morria de amores por ela.
Durante muitos anos, ninguém mais o ouviu cantar e tocar na sua flauta, pelo que até o rebanho estranhou a tristeza do pastor e os garotos lhe perguntavam:
- Zé Pequeno, porque não toca na sua flauta?
- Porque não me apetece, – dizia-lhes com voz magoada e triste.
Mais tarde, e após a morte dos seus pais, ficou sem ninguém. Uma tia materna veio ainda viver algum tempo com êle, mas também chegou o dia de partir para a Eternidade, de maneira que o Zé Pequeno teve de ficar só e desamparado, apenas com os animais que tratava e estimava como irmãos. Tinha também um cãozinho que o acompanhava sempre. Alguns familiares, que viviam lá por Lisboa, nem dele se lembravam já… Pobre Zé Pequeno!
Aos cinquenta e cinco anos continuava a pastorear no campo e por lá ficava a tarde toda, levando uma merenda que, muitas vezes, repartia com as mansas ovelhas e cabras. Em dada altura, e porque os cabritinhos a saltar o faziam sorrir, começou novamente a ser uma pessoa alegre e bem disposta. Entretinha-se a fazer flautas e assobios para os miúdos da aldeia, que não o deixavam em paz.
Entre o rapazio da terra, havia um chamado Armando, de quem o Zé Pequeno muito gostava e atraí-o para que lhe fizesse companhia, O Armandito, de nove anos, frequentava a Escola Primária que nesse tempo já havia com professora da cidade. Hoje manifesta-se um contraste flagrante: as velhas Escolas das aldeias vão encerrando por falta de alunos… Por isso, a Natureza, vestida de verde-escuro, chora com pena e os passarinhos entoam elegias, voando de ramo em ramo!
Todas as tardes o Armando, que já frequentava a 3ª classe, pedia aos pais e ia estudar para junto do Zé Pequeno, guiando o rebanho agora para o cimo da encosta, porque as terras do vale estavam lavradas.
O pequeno Armando sentava-se numa lousa e com outra a servir de mesa, ali fazia os seus deveres, olhando de vez em quando para os cabritinhos aos saltos e para o seu amigo, entretido a arranjar flautas com um canivete. Este, dizia-lhe assim:
- Tenho muita pena de não saber ler para te dar umas lições e ajudar-te a fazer os trabalhos. Olha, empresta-me o teu livro de leitura. Pelo menos vou vendo as figuras, enquanto o canivete e as mãos descansam um pouco.
Num certo dia, e passado algum tempo, o Armando vira-se para ele e diz-lhe com ar muito sério:
- Quer que eu o ensine a ler, Sr. José Fernandes?
- Ai, se tu fosses capaz disso, dava-te aquela borreguinha preta que anda acolá em baixo a brincar… – respondeu o bom homem – todo entusiasmado.
- Vamos a isso, então! Amanhã trago-lhe o meu livro de leitura da primeira classe, que está ainda em muito bom estado, uma lousa pequena que lá tenho em casa, e ainda papel e um lápis para começar a aprender a lição… Mas isto tem de ser muito em segredo, está bem?
- Sim, Armando… Todos os dias os dois companheiros se escondiam, cada vez mais, por detrás das moitas e pinheiros, para que não fossem vistos por alguém do povoado e nem sonhassem o que se estava a passar lá no monte.
O Armando andava satisfeito com o seu aluno, que já conhecia as letras todas do alfabeto. Ao iniciar a tarefa de juntá-las, foi um sucesso enorme! No espaço de dois meses, pôs o Zé Pequeno a ler e a escrever regularmente.
Daí a um tempo – disse-lhe o Armando:
- Agora vou ensiná-lo a fazer algarismos e a contar até mil.
- A contar não me ensinas tu, Armando. Sei contar até um milhão e fazer contas de cabeça…
- Óptimo! Assim custa menos a aprender e vossemecê, com tanta força de vontade, em breve saberá resolver uma conta e problemas com um lápis.
E assim foi, realmente. O pior é que os pais do Armando começaram a notar que ele se demorava agora mais a fazer os deveres… Mas, como a senhora Professora lhes disse que ele ia muito bem nos estudos, não lhe ralharam muito..
Numa tarde, o Armando falou assim ao Zé Pequeno:
- Já sabe o bastante para andar como eu na terceira classe. Se quiser pode depois continuar os estudos para fazer a 4ª classe no Curso de Adultos, que é muito mais fácil.
- Que bom! Nesse dia faremos uma patuscada e levas a ovelhinha preta, que te prometi.
O Zé Pequeno tinha já cinquenta e seis anos e vivia agora muito mais feliz, lendo o jornal da vila e andando a par de todos os acontecimentos, graças ao Armando que fez dele um discípulo muito querido e aplicado.
No ano seguinte, prestes a chegar o tempo das férias, o Armando, que andava também radiante com o progresso do seu aluno – disse na Escola à senhora Professora:
- O senhor José Fernandes quer fazer o exame no Curso dos Adultos.
Muito admirada, a professora – perguntou:
- Mas olha, lá. O Sr. José Fernandes não é analfabeto?
- Era, mas já não é, minha senhora! Sabe? Ele é muito inteligente, e como tinha grande força de vontade em aprender, do pouco que eu sabia, fui-lhe e3nsinando, e agora penso que já sabe o suficiente para a prova do exame.
- Bravo, Armando! Amanhã traz-me cá o teu amigo, que eu quero examiná-lo, afim de inteirar-me dos seus conhecimentos.
Ao outro dia, o Zé Pequeno “fez-se grande”, vestiu a sua melhor roupa e foi com o Armando às Escola, na parte da tarde.
Primeiro fez um ditado, que foi magnífico e sem erros, maravilhando a senhora Professora. Depois, perante o seu desembaraço na quadro a fazer as contas e problemas, a senhora Dona Graça Maria surpreendeu-se com o que ele já sabia de toda a matéria e explicou, então, que ia propô-lo sem medo para muito em breve efectuar a prova da 4ª classe. Naquele momento, ela não se conteve e beijou com muito carinho o Armando, que foi também elogiado, naturalmente, por todos os que o conheciam.
Até o Sr. Inspector veio propositadamente assistir ao brilhante exame, trazendo para o Armando uma lembrança e uma linda medalha de prata, por ter sido capaz de fazer com que o Sr. José Fernandes não fosse mais analfabeto e vivesse na sua terra, com maior satisfação.
Os pais do Armando eram relativamente pobres, mas o Sr. Inspector prometeu ajudá-los para que o filho pudesse continuar os estudos e, quem sabe, vir a ser um bom Professor do Ensino Básico ou até Secundário.
O Sr. João Antunes e a senhora Maria do Rosário não cabiam em si de contentes, por verem o filho tão enaltecido e transformado em herói na sua terra… e exclamavam:
- Louvado seja Deus pela graça e imensa alegria que nos deu, por vermos o Zé Pequeno munido da carta de exame e o nosso Armando condecorado com uma linda medalha de prata!
Daí a alguns dias, houve quem visse o Armando, radiante de felicidade, levando a sua borreguinha preta, nas costas, que o Zé Pequeno lhe tinha oferecido de recompensa e cantarolava assim:
Borreguinha preta
MURMÚRIOS DO CEIRA
A ÚLTIMA CARTA DA MÃE
Cuidar dos seus pais, é estar já a cuidar de si. C.B.S.
Há muitos anos que a “tia” Rita Manuela não recebia notícias do Canadá. No entanto, escrevia várias vezes por ano ao seu único filho que ali vivia sem se lembrar da mãe que o dera à luz e o havia criado até aos dezoito anos, à custa de muitas canseiras e sacrifícios.
A “tia” Rita Manuela era solteira e tivera aquele filho de um mariola qualquer que a seduziu e faltou à promessa de casamento, Todavia, nunca mais deu que falar na sua terra, trabalhando com muita honestidade, ao dia fora, para se sustentar e sustentar o seu filhinho, que era todo o seu enlevo!
Um menino belo e, por acaso, muito parecido com o pai que casou depois em Lisboa e não teve filho algum da mulher que escolheu para sua esposa. Desgostoso, ainda tentou, por “portas travessas”, obter permissão da Rita para que lhe desse a criança, o que ela recusou terminantemente…
O Carlos Manuel fez na vila o exame da 4ª classe com distinção; tinha até uma letra muito perfeita.
Durante uns dez anos ainda escreveu regularmente. Depois casou, vieram os filhos e o rapaz começou a esquecer-se da sua terra e nunca mais escreveu à desolada mãe…
Constava na aldeia do Carvalhal que a fortuna lhe sorrira e que ainda era vivo naquelas paragens. Estas informações eram também confirmadas pelas cartas que seguiam com remetente e não voltavam devolvidas.
A “tia” Rita Manuela, que tinha agora 72 anos, tornou-se muito doente, valendo-lhe a prestimosa caridade dos vizinhos e a pequena pensão de reforma que recebia da Segurança Social; muito lúcida e inteligente, mandava ainda cartas interessantes ao seu filho, escritas por sua mão. Já um bocadinho trémula…
É uma destas cartas, a última infelizmente, que transcrevemos aqui, com muita ternura e sentimento.
“Meu querido e saudoso filho
Não sei se te recordas de mim! Eu sou a tua mãe, a “tia” Rita Manuela que há mais de vinte anos te escreve várias cartas por ano, sem que tenha a alegria de receber uma simples letra tua.
Como deves saber, é sempre pelo Natal, pelo Ano Novo, pela Páscoa e pelo dia dos teus anos que te mando missivas, todas elas recheadas de Saudades. Tenho já 72 anos, feitos no dia de S. Brás e penso não completar mais nenhum. Tu, se Deus quiser, irás fazer cinquenta no dia de S. Miguel Arcanjo.
Guardo bem na lembrança esse dia memorável do teu nascimento. Os meus pais tinham-me posto fora de casa e recolheu-me a avó Alzira, que era uma santa criatura e nos dedicava um grande afecto.
Criei-te sem vergonha do mundo, mas com muitas dificuldades. Fominha não passaste, graças a Deus e às boas almas que nos ajudaram. Se chorei lágrimas de dor para que medrasses como os outros meninos, ainda hoje não me importaria de passar pelos mesmos trabalhos para ter a felicidade de estar junto de ti, outros dezoito anos. Tu és pai também! Pelo amor que dedicas aos teus filhos, poderás medir o sentimento de afecto que te consagro, não obstante estar separado de ti há trinta e dois anos! Deus queira que jamais notes a falta da estima deles. Seria muito penoso para ti.
Vou recordar uma cantiga que ouvia muito na minha mocidade e merece a reflexão do espírito:
Pode um filho estar ausente/ Que a mãe, na sua afeição/ A toda a hora o pressente/ Dentro do seu coração.
Vivo modestamente, mas consola-me saber que não passas as mesmas privações. Ainda ontem fui ao médico e vi-me atrapalhada, porque o dinheiro não chegava para comprar os remédios na farmácia. Os medicamentos em Portugal sobem todos os dias e ninguém se compadece… Mas não te comovas! Eu fico alegre em saber que vives numa terra progressiva do Canadá e não numa aldeia deserta de Portugal, onde até as pedras choram a desgraça dos velhotes como eu!...
O Zé da Filomena, que veio daí o ano passado, disse-me que estás gordo e bonito! Todos os dias te responso ao Santo Antoninho para que te proteja. Como gostava de te ver, Carlos Manuel! Que Saudades, meu Deus, que Saudades! E os meus netinhos como vão? Ouvi dizer que o mais velho já casou e tem uma menina encantadora! Como deves estar contente, vendo a família a multiplicar-se.
Apesar da lonjura que nos separa, sinto uma enorme alegria também quando comunico contigo por este meio que possuo para te manifestar o meu grande amor de mãe!
Esta, será de todas, a carta mais triste e sentimental que te escrevo, porque pressinto seja a última, meu filho! Noto agora muita falta de forças e o médico engelhou bastante o nariz ontem na consulta, E que ando eu cá a fazer neste vale de lágrimas? Perdoa, se te entristeço, mas o mundo já me não dá uma réstia de esperança!
Sabes? O tio Jorge faleceu o mês passado com uma doença terrível! Que Deus o tenha a seu lado. Foi sempre muito nosso amigo. Ainda tenho aquele banco que ele te ensinou a fazer com muita paciência. Lembras-te?
Ao despedir-me, quem sabe se para sempre, envio mil beijinhos ternos para os meus netos, um abraço à tua esposa que não cheguei a conhecer. Para ti, meu rico filho, vai um especial chi-coração, igual aos que me deste e eu te dei na tua infância querida. Que Deus te cubra de bênçãos.
Adeus, meu Amor! Tua mãe, muito amiga
No dia de Páscoa, muitas foram as pessoas que viram estacionar um bonito e luxuoso automóvel, verde-escuro, junto à casa da “tia” Rita Manuela e um senhor de meia idade a bater à porta…
Um moço que passava – perguntou: -O Senhor queria alguma coisa? A “tia” Rita Manuela enterrou-se ontem. Sobre a sua campa estão ainda as rosas frescas. Toda a gente do Carvalhal teve muita pena dela. Era uma santa!
O cavalheiro, depois de agradecer a informação, retirou-se tristemente e as pessoas na rua se4guiram-no com olhar curioso, reparando que ele se dirigia para o cemitério do povoado.
Era ele, o Carlos Manuel que saíra da aldeia há mais de trinta anos. Já não conhecia ninguém, e também, naquele momento de desânimo, não quis dar-se a conhecer…
Pelas flores, ainda lindas, logo descobriu a sepultura de sua mãe! O Carlos Manuel vinha para a abraçar neste Domingo de Páscoa, mas já não chegou a tempo…
Alguém encostado ao portão do cemitério, ouviu pronunciar-lhe estas frases, num tom bastante magoado:
- Perdoa-me, minha mãe! Perdoa-me, minha mãe!
……………………….
Tu, que és filho ou filha, aproveita, como Deus manda, todas as horas da vida, para honrar, acarinhar e amparar na velhice os teus progenitores. Antes que seja tarde demais, manifesta-lhes sempre a devida gratidão, reflectindo nestas palavras da Bíblia:
“Honra os teus pais de todo o teu coração. Não esqueças os gemidos da tua mãe. Lembra-te que não terias nascido sem eles. E como lhes pagarás o que por ti fizeram? Ecle.7 – 27.28.”
A adversidade tem o efeito de desenvolver talentos, os quais, em circunstâncias prósperas,
A “tia” Aurora, uma senhora viúva e doente do coração, de cinquenta e cinco anos de idade, morava nos arrabaldes duma vila Alentejana, com quatro netos pequenos.
Ficara adoentada e nervosa desde que o marido lhe morrera num desastre de viação e depois que a sua única filha – a Zulmira foi abandonada pelo marido, um bebedola refinado que lhe deixou ao encargo seis filhos menores para criar.
Também ela, um tanto desapurada no arranjo da casa e demonstrando um certo desprendimento pela família, logo deu a filha mais velha – a Celeste, a um casal que a levou para França.
A Zulmira trabalhava numa fábrica de confecções que, por deficiente orientação, foi levada à falência, tendo por isso ficado desempregada.
Numa tarde a “tia” Aurora ao chegar a casa, vinda do médico, ouviu da sua neta – Rosa Maria – esta triste história:
- A minha mãe abalou com o Lúcio e a Ana Rita. Veio aqui um homem de barbas, com automóvel e levou-os. Ficámos a chorar, mas a minha mãe disse que voltaria um dia para nos levar também.
Mas não aconteceu assim. No dia seguinte apareceu à porta de casa, choramingando, a Ana Rita que só tinha dois aninhos.
Depreendeu-se que o marmanjo do homem, com quem a Zulmira fugira, não quis a menina mais nova e vieram depois colocá-la ali para ser recolhida pela avó, que logo a acarinhou com beijos.
Decorridos são três anos desde que a Zulmira saiu de casa e lhe deixou ao seu cuidado estes quatro netos: Rosa Maria, João, Márcia e Ana Rita, agora com 12, 10, 7, e 5 anos de idade.
A “tia” Aurora, a braços com eles todos, chorava a sua desdita e quase os mandava ir pedir. Para sobrevivência da família, havia apenas a sua pensão de reforma de trinta mil escudos mensais e um pequeno subsídio que lhe dava a Assistente Social para os menores.
Hoje, o problema das crianças está mais suavizado com as Creches e Cantinas Escolares que abundam, graças a Deus, por essas terra além. Mas nesse tempo difícil, era assim o viver de muitas famílias.
Um chefe de uma Companhia de Circo pedira a Rosa, a troco de uma quantia atraente, mas a avó não aceitou a proposta, nem a menina queria separar-se dos manos e da avó. Preferia passar fome e andar mal vestida. A Rosa Maria, que até aprendia bem, concluindo o ensino primário, parou de estudar e disse à avó:
- Vou ver se arranjo um trabalhito qualquer para ajudar à despesa da casa. E quem sabe se, mais tarde, poderei continuar os estudos…
- És ainda muito pequena para isso.
- Já trago uma coisa na ideia… – respondeu a esperta menina.
Enquanto a avó saía às compras, a Rosa abeirava-se duma casa vizinha, onde morava um casal já idoso, com quem a menina gostava de conversar a uma janela baixinha e até aviar alguns recados. A troco disso, a senhora dava-lhe sempre dois pãezinhos que ela levava para casa, partia em bocadinhos e repartia com os manos.
Um dia a avó veio dar com eles a comerem os bocadinhos de pão, e até os seus olhos se regalaram de ver aquela cena de ternura e de alegria. A Rosa – esclareceu assim, a avó:
- Há muito tempo que todos nós comemos bocadinhos de pão, que me dá a vizinha D. Adosinda. É lá, minha avó, que eu penso ir empregar-me, Eles têm mulher-a-dias, mas precisam de mais alguém que os acarinhe e os anime na sua solidão. Fui eu mesma que me ofereci para isso. Um casal de velhinhos que precisam de conforto e de uma companhia que os ajude a levar a Cruz da sua vida. Sabe, têm um filho só que está no estrangeiro, mas, segundo percebi, muito raramente os vem visitar.
- Estou admirada e também muito orgulhosa de ti, minha neta! Fazes-me falta, por seres a mais velha, mas se esse é o teu desejo, não me oponho que vás auxiliar esses senhores, que devem ser boas pessoas. Além disso, fica muito perto.
- Até pudemos, minha avó, falar de uma janela para a outra…E bons senhores também lhe garanto que são.
Daí a um tempo já a Rosa Maria estava empregada na casa vizinha e logo aprendeu a cozinhar e a tratar das limpezas dó lar.
Os senhores eram ambos professores aposentados e muito distintos. No princípio estava com eles durante o dia, e à noite vinha dormir com a avó. Quase sempre trazia restos de comida boa, que os manos comiam que se consolavam. Agora, muito mais que pão em bocadinhos…
Uma noite, Rosa chegou a casa muito feliz e disse à avó:
- Os senhores gostam muito de mim e já decidiram que me vão ensinar de tudo o que sabem.
- E como fazes o serviço?
- Nas horas livres. Pensam também não despedir a mulher-a-dias. Ontem já estive a aprender os verbos
Após quatro anos naquela casa, a Rosa Maria já não parecia a mesma, expressando-se até muito melhor. Pena foi que, nesse espaço de tempo, falecesse o Dr. Amândio, marido da D. Adosinda. Deste modo, a Rosa passou a viver com a senhora, dormindo no mesmo quarto.
O filho, que vivia nos Estados Unidos, vindo a Portugal, reparando quanto a Rosa Maria era solícita e carinhosa para com a sua mãe – disse-lhe:
- Estou muito rico, minha mãe. Se gosta da Rosa, como parece, pode doar-lhe tudo o que entender. Percebi já que lhe é muito dedicada. Proceda, sim, como seja sua filha também.
Desta maneira, aquela linda vivenda cor-de-rosa, com jardim à frente, logo foi transferida para o nome de Rosa Maria. Igualmente ficou como primeira titular dos muitos milhares de contos que tinham nos Bancos.
Habituando-se a chamar madrinha à D. Adosinda, cada vez mais se estimavam. É que a Rosa aprendera com ela a meditar na Sagrada Escritura, o que facilitou muito o exercício das virtudes Cristãs, dizendo, mesmo: não me interessa o mundo mundano. Nem parecia moça deste tempo; sempre recolhida em casa a fazer boa companhia à madrinha, que chegou a não poder andar e estar acamada, até que depois o senhor a chamou para o Céu.
Rosa, que lhe servira de Enfermeira, tinha nesta altura 22 anos. O João foi para a América do Norte e empregou-se bem nas Empresas do filho da D. Adosinda, mandando cartas muito bonitas às irmãs e à avó.
A Márcia e a Ana Rita, protegidas de Rosa, andavam a estudar e já tinham escolhido o futuro. A Márcia queria ser professora e a Ana Rita, Assistente Social. Esta, após a morte da Senhora D. Adosinda, passou a viver com a Rosa Maria, porquanto a Márcia ficou com a avó na casa antiga, que a Rosa comprou e mandou reconstruir para elas.
A Rosa Maria encantava pela sua simpatia e nunca havia namorado, apesar de algumas visitas da casa repararem nela e de ter recebido várias propostas. Até um jovem advogado, que tratava dos assuntos da madrinha, lhe havia feito uma séria declaração, que ela não aceitou.
Agora, com 23 anos, feitos pelo S. Brás, acabou por anuir às insistências do Dr. Bruno José e casaram na capelinha de S. José.
Efectivamente, naquela enorme casa, precisava-se de um homem capaz de gerir os muitos haveres, com os quais a Rosa se via embaraçada, apesar de muito saber e evidenciar uma rara inteligência.
Numa tarde, calma de Outono, andava a Rosa Maria a regar o jardim, quando viu encostada ao portão uma mulher, muito mal vestida e de rosto triste, a chamar:
- Menina! Menina! Pedia-lhe o favor de chegar aqui!
A Rosa, abeirando-se do portão, estremeceu ao ver aquela mulher que lhe lembrava traços de “alguém” que já conhecera…
Ela fez-lhe então, esta pergunta:
- Não morava aqui defronte uma senhora viúva de nome Aurora, que tinha uns netos com ela? A casa já não é a mesma, pois não possuía aquela linda varanda voltada para a rua, mas penso que era ali, não era, menina?
- Sim, e por acaso é ainda viva, embora já velhinha e desfeita de desgostos. Teve só uma filha que abalou de casa, deixando-a com quatro netos pequenos, que criou com grandes dificuldades. Hoje, graças a Deus, estão bem, mas ela todos os dias chora a filha desaparecida há catorze anos, sem nunca mais ter dado sinais de vida…
- Ai, menina, estou a tremer toda! Eu trago-lhe notícias dela, que é minha amiga e chama-se Zulmira. A menina pode vir lá comigo, para ouvir um pouco da sua história?
- Sim, vou! – Respondeu a Rosa Maria que, tendo a chave da casa da avó, logo foi abrir a porta e – chamou assim:
- Minha avó, tem aqui uma visita…
Certamente o leitor já se apercebeu que aquela mulher desgrenhada, mal vestida e marcada por uma vida errante, era a Zulmira, filha da “tia” Aurora e mãe da Rosa Maria.
Esta, quando deparou com a mãe velhinha e lavada em lágrimas, não se conteve e ajoelhou-se a seus pés, – volvendo, comovida:
- Perdoe-me, minha mãe – que sou uma desgraçada que volta arrependida ao lar materno! A mãe não sabia de mim, e eu também nada sei da Celeste, nem do Lúcio que levei para a Suiça. Tenho passado uma vida árdua, saudosa e cheia de privações. A sorte não me sorriu de maneira alguma. Foi o castigo da minha imprevidência.
-És, realmente, a minha Zulmira? Deixa-me ver-te bem… Quase não acredito! Todos os dias pedia a Deus, que não me levasse do mundo sem te rever!
A Rosa Maria, surpreendida e diante daquela mulher, quase irreconhecível, que a tinha dado à luz – volveu, beijando-a:
- É então a minha mãe?! Também me pareceu… Como deve ter sofrido! A partir de hoje vai ter uma vida melhor, junto de nós.
Nesse momento, aparece na sala uma graciosa rapariga – a Márcia que chegava da Escola e ficou surpreendida com a estranha visita….
- É a nossa mãe que voltou – disse a Rosa à irmã, que logo a abraçou com muito carinho e emoção.
No Domingo seguinte, organizou-se naquela casa um bom jantar, comemorando o regresso da filha e mãe ao lar da família. A Ana Rita, que estava fora a estudar, foi mandada vir para assistir à função e ao alegre convívio, tendo o Dr. Bruno José estado também presente.
A Rosa Maria vestiu a mãe de roupa nova, dos pés à cabeça. Parecia já outra sentada à mesa, enlevada a olhar para as filhas e muito, especialmente, para a Ana Rita, que deixou tão pequenina e a via agora com dezasseis anos, tão risonhos! Tudo isto, graças à sua Rosa que tinha um coração de ouro, repleto de Amor e de excepcionais virtudes.
A “tia” Aurora contou à filha que o João estava nos Estados Unidos, muito bem, esperando-se que viesse, dentro em breve, fazer-lhes uma visita.
Resta dizer, que o Dr. Bruno José prometeu à sogra que iria diligenciar meios através das Embaixadas Estrangeiras, afim de ver se poderiam descobrir os paradeiros da Celeste e do Lúcio, pois havia, agora, só esta contrariedade na família.
Rosa Maria, uma alma sensível e querida que contribuiu para o bem-estar de todos, ainda não esqueceu a vida difícil e penosa que teve em criança, as privações que passou e aqueles bocadinhos de pão que trazia da D. Adosinda para mitigar a fome dos irmãos,
Pela sua generosidade e comportamento de jovem exemplar, bem merecia as bênçãos de Deus e ser feliz.
Todo o mèdico que conforta um doente, cumpre bem o seu mister.C.B.S.

Teresa Margarida e Aninhas
Numa e graciosa vila denominada: “Vale de Estrela”, enquadrada nas plagas transmontanas, vivia há muitos anos um gentil casal que tinha uma filha de nome: Teresa Margarida. Antes do seu nascimento, haviam tido uma outra filha que Deus levou para o Céu, mal começou a dar os primeiros passos, pelo que veio esta amenizar um pouco as saudades da Rosinha, que lembrava mesmo um terno botão de rosa.
A Teresinha como era carinhosamente tratada e era agora o ai Jesus da casa, mais parecia um Anjo do Céu, que um ser para este mundo criado! O pai – Alberto Soares – um médico conceituado e a mãe – D. Maria da Soledade – uma senhora muito prendada que havia sido educada num Colégio de freiras.
Desde pequenina que começou a notar-se na Teresinha uma certa inclinação mística e uma bondade sublime, que mais parecia sobrenatural! Os pais professavam e praticavam a religião Católica e por isso, ainda cedo, a menina faria a sua primeira comunhão solene.
Nesse dia de manhã – disse a sua mãe:
- É hoje um dia muito feliz para mim, não só porque vou receber Jesus no meu coração, mas também porque a mãezinha anuiu ao meu pedido de vestir duas meninas pobres que não tinham um fatinho branco para levarem na festa. Estou ansiosa para ver a Rita e a Maria Adelaide vestidas como eu.
- Sim, irão vestidas rigorosamente a teu gosto. É verdade, ainda te não disse que comprei para elas um livro de missa e um terço branco igual ao teu. Após as cerimónias quero que tirem uma fotografia todas três.
- Obrigada, mãezinha, por me dar tanta alegria! Desculpe, mas ainda quero pedir-lhe outra coisa… Sei que a Rita e a Adelaide não têm em casa almoço de festa, com arroz doce. Por essa razão, se os paizinhos não se importassem, elas seriam minhas convidadas na mesa.
- Tontinha! Por que havíamos de nos importar? Nós o que mais desejamos é ver-te feliz e contente e, evidentemente, também gostamos de as mimosear… neste dia inesquecível da vossa primeira comunhão.
Na hora da refeição, em que já estavam todos sentados à mesa e andava a criada – Maria – a servi-los, alguém bateu à porta a chamar o Sr. Doutor com urgência para ir ver uma doente fora.
Naquele momento, ouviu-se a voz da esposa – dizer:
- Não, Alberto, Almoça primeiro e depois vais. Hoje, é um dia muito especial e temos de estar reunidos.
A Teresinha que ouviu a conversa e ouviu a decisão da mãe – logo volveu:
- Desculpe, mãezinha, mas o pai tem de ir já. Está alguém a precisar da sua ajuda, e quem sabe se o caso é de vida ou de morte?!
- Vá, paizinho, cumprir o seu dever de médico.
- Vou, sim, filha. O teu pedido é uma ordem.
O Dr. Alberto foi então tirar o carro da garagem e convidou o empregado para o acompanhar a casa da doente. Quem veio chamá-lo, foi um vizinho lá da aldeia, que depois os guiou até à modesta casa, situada nos píncaros duma será, onde o vento era agreste e soprava forte naquela hora..
Chagados lá, o médico entrou e, em vez de uma, encontrou duas doentes naquela moradia humilde, na qual tudo significava miséria! A senhora tivera uma crise cardíaca, consequência de um desgosto profundo que lhe dera a sua neta Rosália, uma moça bonita, de dezassete anos, que ela criou de pequenina e lhe confessou – estar com dores para dar à luz uma criança…
O Dr. Alberto Soares, logo percebeu o que se estava a passar e uma vizinha acabou de lhe contar a triste odisseia. Órfã e abandonada pelo namorado, vivia agora momentos difíceis, por ter acreditado num cabeça leve qualquer, que ali aparecera e a seduziu com frases de vil enganador…
à senhora Amélia tendo já oitenta e dois anos e estando quase cega, não resistiu à desagradável surpresa de saber a neta, moça solteira a quem muito queria, com dores de parto!... Embora ainda com vida, quando o médico chegou, nada havia a fazer, porque o seu coração enfraquecia a cada momento e assim expirou. O Dr. Alberto Soares – disse, então, para a vizinha – Preparem as coisas, que a senhora, infelizmente, já não é deste mundo. Vou levar a rapariga ao Hospital, para que seja socorrida e a criança possa nascer sem problemas.
Quando regressou a casa, o Doutor explicou à esposa o drama sucedido e que havia já nascido uma menina, ao qual a D. Soledade deu logo solução de maneira terna e determinada.
- Temos de proteger essa moça que ficou sem família e como notaste, desamparada. Enquanto não tiver uma situação estável, poderá vir cá para casa. À criança se dará também um jeito. Vai ser uma alegria para a nossa Teresa Margarida.
Os senhores tinham uma empregada, mas resolveram ficar também com a Rosália e ainda com a criança, à qual foi dado o nome de Ana Luísa. Teresinha foi a madrinha e andava radiante por ter em casa uma boneca a sério, chamando-lhe Aninhas,
Aos onze anos a Teresa Margarida foi internada num Colégio do Porto, indo o pai aos fins-de-semana buscá-la para passar estes dias com eles. Estava ela sempre ansiosa para vir brincar com a Aninhas e cantar já no grupo coral da Igreja.
Nas férias do Natal aproveitava sempre para visitar os velhinhos e os doentes da terra e levar-lhes uns docinhos que a sua mãe sabia fazer. Era ela que armava o Presépio na sala com luzes de todas as cores! Aninhas gostava de vê-la arrumar as figurinhas e dizia: Jesus é muito lindo, não é?
- Pois é. E, como vês, nasceu pobre num curralinho de animais… para nos mostrar que não devemos ter vaidade – dizia-lhe ela, com o fim de a ir doutrinando.
Já com dezassete anos, uma jovem lindíssima e simpática, Teresa Margarida gostava de dar sugestões de humildade a sua mãe e falava-lhe assim:
- A mãezinha tem tantos vestidos lindos, por que não dá alguns? E por que não vende as jóias? Isso daria para matar a fome a muitas crianças que, no mundo das guerras, vivem mal. Eu nunca hei-de usar jóias caras. O Senhor não deve gostar que andemos enfeitados com valores que faltam aos infelizes da Terra. Na Etiópia, no Sudão, na Somália, em Angola e noutros países, dizem que há imensas pessoas a morrerem de fome!
D. Maria da Soledade era uma senhora bondosa, mas, como esposa de um médico, gostava de trajar bem, passear e assistir a festas mundanas. Sua filha não era da mesma opinião nem gostava que lhe comprassem muita roupa. E lembrava a obrigação de sermos simples como foi a mãe de Jesus, que vestia com modéstia e não usava atavios nem pinturas. Teresinha achava estranho haver tanta “devoção” para com a Virgem de Fátima, que disse aos Pastorinhos em 1917 que Jesus estava muito ofendido com as modas imorais, e entrar-se hoje na Basílica ou mesmo no Recinto sagrado, de qualquer modo e sem respeito pelos avisos do Céu.
E é certo; quando em 13 de Maio do ano 2000, João Paulo II veio a Fátima beatificar os dois Pastorinhos: Jacinta e Francisco Marto, ele aludiu, num certo momento: “criancinhas, reparem como vestiam os Pastorinhos de Fátima!” E ainda mais: - frequentem a “Escola dos Pastorinhos!... Frases que se devem guardar na memória e seguir.
Teresinha, que não acompanhava as modas, lembrava frequentemente a sua mãe o que Jesus disse aos Apóstolos:
- “Não vos preocupeis com o que haveis de comer ou de vestir. Reparai nos lírios do campo, como crescem! Não trabalham nem fiam. Pois digo-vos: nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como eles. Vosso Pai sabe das vossas necessidades; procurai antes o Seu Reino.”
- Tens razão, minha filha, – dizia-lhe a mãe; tenho de começar a privar-me de algumas coisas a favor das Instituições de Solidariedade e de quem mais precisa.
- Fico contente, por a mãezinha estar de acordo comigo.
Havia já algum tempo que a menina não se sentia bem de saúde. Não queria entristecer a mãe, mas um dia teve de lhe dizer:
- Sabe, mãezinha, ando a sentir-me cansada, mas não se assuste, pois não há-de ser nada de importância.
- Cansada? Uma jovem como tu és?! Quando chegar o teu pai do Consultório vou dizer-lhe que precisas de ser examinada por um especialista, afim de tratar-se das análises necessárias. Realmente, andas muito pálida e perdeste o apetite – volveu a mãe – já muito inquieta.
O Dr. Alberto, depois de ouvir a esposa falar dos seus receios sobre o mal-estar da filha, pensou imediatamente levá-la a Lisboa, onde tinha bons médicos amigos, que a observariam com todo o cuidado.
Teresa Margarida ficou então numa Clínica uns dias, acompanhados da mãe, até que completou os exames precisos. À vista dos resultados, os pais ficaram muito apreensivos e tristes, porque o diagnóstico era reservado… Perante tão graves sintomas, um especialista, amigo, aconselhou os pais a levarem-na a Inglaterra. Talvez lá pudessem tratá-la com melhores terapêuticas.
A jovem tinha muita paciência e com ela procurava, a todo o momento, sossegar os pais.
- Nada me dói, paizinhos; e não vejo motivos para tanta preocupação, mas, se acham bem, vamos a Inglaterra.
E não demoraram muito a decidirem-se. Na semana próxima trataram dos passaportes e abalaram com ela. Um especialista, recomendado, já os aguardava num Hospital de Londres.
Cerca de três meses estiveram ali com a Teresinha, que recuperou bastante e parecia até melhor.
Vinda para Vale de Estrela, começo a fazer a vida normal, prosseguindo os estudos no Porto. Todavia.. notava-se que já não possuía a mesma alegria e vivacidade. Infelizmente, daí a meio ano, surgiram os mesmos sintomas e com eles mais internamentos, transfusões de sangue, etc. Deste modo, as esperanças de cura iam-se desvanecendo da mente daqueles amargurados pais, que tanto queriam à sua querida filha. Faziam-se promessas e o quarto dela estava repleto de imagens e santinhos. Todos os dias de manhã os passarinhos vinham saudá-la com maviosos cânticos na sua janela, aonde o sol também entrava para a beijar… Um dia falou assim a sua mãe:
- Quem sabe, mãezinha, se Deus me quer lá junto Dele… Se for verdade, não quero que fiquem tristes, mas antes conformados por Ele me escolher para me ter a seu lado. Tenho já dezoito anos e meio, uma idade bonita para cantar ao Senhor e louvá-lo no Céu, com toda a força da minha alma.
- Tu, ainda não vais para o Céu, mas se fosse essa vontade do Senhor, teríamos de pedir-lhe que nos ajudasse a minorar as saudades.
- Se isto acontecer, quero recomendar à mãezinha que continue a servir os mais tristes, sem deixar de visitar os doentes e os mais idosos que deixo por aí a penarem… Que pense muito em Deus e na Nossa Senhora e sempre seja uma alma simples, reparando nas pombas e nos lírios do campo que só usam uma roupa que Deus lhes vestiu. Leia com atenção as cartas de S. Tiago e de S. Paulo que muito nos ensinam. Cuide da Aninhas como sua filha e minha irmã e ensine-lhe os caminhos do Senhor, para que não escorregue na ribança da perdição… O mundo está cheio de ilusões e precipícios… Lá do Céu, se puder, mandarei para a Terra, como Santa Teresinha de Lisieux, “uma chuva de rosas!” Dê-me agora um beijinho, minha mãe, e anime o meu pai, que sinto andar aos ais pela casa toda.
D. Maria da Soledade beijou a filha, com os olhos rasos de água e sem coragem para articular uma só palavra…
Como já não saía do quarto, Teresinha chamou uma vez ali o pai, a sós, para lhe transmitir alguns avisos e confidências:
- O paizinho é uma pessoa amorosa e digna que seguiu a carreira médica por vocação inata, eu sei. Mas queria pedir-lhe que continuasse a servir os doentes, com muito carinho e solicitude.
Sempre que possa, visitá-los em casa, especialmente os méis velhinhos. E agora, recordo-lhe estes pensamentos de um grande médico e filantropo Dr. Fernando Bissaya Barreto, que deixou uma obra extraordinária na região de Coimbra e que o meu pai conhece perfeitamente:
“Só será bom médico aquele que for capaz de sofrer com o seu doente, viver a sua doença, conhecer o seu corpo, compreender a alma. O contrário não é medicina, é… veterinária e da má.”
Muito pesaroso, sei pai beijou-a – proferindo:
O Dr. Bissaya Barreto era um Distinto médico e um Homem de coração grande! Conheci-o pessoalmente e fez o favor de ser meu Amigo.
Eu sei, Teresinha, que os doentes são nossos irmãos e filhos do mesmo Deus. Está descansada que, enquanto eu tiver saúde, cumprirei a minha missão de médico, com dignidade e sentido humano.
- Obrigada, Paizinho! Espero vê-lo no Céu!
Passado um mês – dia de Nossa Senhora da Conceição – à tardinha, Teresa Margarida, a ficar-se como um passarinho, - disse aos pais que via à portado quarto dois Anjos vestidos de branco a sorrirem para ela!...
Foi comovente a cena da despedida, com todos de casa à sua volta, fazendo um esforço grande para não chorarem naquela hora pungente e solene
No dia seguinte, ninguém ficou em casa naquela terra! Novos e idosos fizeram questão de acompanhar a jovem menina à sua última morada. As crianças, com raminhos de flores brancas na mão, muito compenetradas no seu papel, lembravam filas de Anjos a pedirem a Deus que recebesse, com muita ternura, esta “Rosa” de Vale de Estrela.
O sino da Torre de Vale de Estrela não dobrou de tristeza. Teresinha havia pedido – antes – que ele repicasse de alegria; e assim aconteceu, O povo, sim, chorou imenso a partida da sua “menina” tão pura e meiga, que deixou Saudades em todos que a conheceram e que com ela conviveram.
Os seus pais ficaram, naturalmente, muito desolados! E também Aninhas desde aí ninguém mais a viu sorrir. Ia sempre com a D. Sociedade e a mãe levar flores das mais lindas à Capelinha jazigo, que abrigava o corpo de Teresinha, ao lado de um Crucifixo e de uma linda fotografia dela, sorridente.
O Dr. Alberto Soares e a D. Maria da Soledade eram pessoas virtuosas, mas, aceitando com fé a perda da sua menina, fizeram-se ainda melhores. Na sua mesa-de-cabeceira, lá estava sempre a Sagrada Escritura, a servir-lhes de conforto e a fazer-lhes cumprir os últimos e caros anseios da Teresinha. E assim sucedeu. Enquanto andaram no mundo, foram eles testemunhos vivos da Palavra santa do Evangelho, firmando os passos na terna lembrança de sua filha e nos sagrados caminhos de Jesus.
Mas, nas horas mais saudosas, o pai não se continha! Suspirando muito – dizia comovido: estudei para médico e não pude salvar a minha filha!
Ana Luísa fez-se uma amorosa rapariga, que os pais de Teresinha protegeram como filha, e tentaram incutir-lhe as virtudes que coroaram em vida a terna fronte de Teresa Margarida! Foi como deixasse cá o retrato da sua alma! Por todas estas bênçãos divinas, deveria ela sentir-e feliz no Céu.
O povo daquela terra, comparando Teresinha à Sãozinha de Alenquer, já lhe pede graças e chama-lhe agora: - “Estrela do Vale”!
CIRCO MARIA ALICE
Muito vale quem sabe mandar. C.B.S.



O caso passou-se há anos numa vila Beiroa, no seio de uma família rural que possuía um pequeno comércio, Família esta, constituída por um casal de meia idade, Margarida e João, uma filha jovem de nome Maria Francisca e um filho moço também, chamado Victor Manuel. Porque viuvou cedo, morava com eles o Sr. António Bento, pai da senhora Margarida e ainda uma sobrinha desta a Maria Alice que ficara órfão de mãe e o pai se havia ausentado para parte incerta. Constava que fora para o Brasil e não mais se lembrou da filha que deixou, ainda pequena, com os tios.
A casa onde residiam estava distanciada da loja cerca de trezentos metros e sempre que era preciso ir lá buscar alguma coisa, a Maria Alice logo se prontificava a ir executar esta tarefa. Chegada lá, não se continha sem ir à seira dos figos secos e deliciar-se com uma mão cheia deles.
Num certo Domingo, em que chegou a casa com um garrafão de vinho, a prima e o avô notaram que ela deixou cair alguns figos no chão. Receando dar nas vistas, não quis baixar-se para os tomar.
Então, como andava descalça, disfarçou apanhando-os com os dedos dos pés, e um a um os ia colocando no bolso do avental…
A Prima Maria Francisca viu e calou-se… mas o avô não se conteve sem dizer Ó rapariga, tu eras boa para trabalhar numa Companhia de Circo. Tens uma habilidade espantosa para colher figos do chão. Com os dedos dos pés… Coitada, ficou vermelha como um tição… Mas a prima, que era confidente e amiga – logo atalhou:
- O avô não deixa passar nada em falso… mas fique sabendo que, talvez ela vá seguir essa profissão. Tem muito jeito para representar e os artistas do Circo, que estão no Parque do Castelo a trabalhar, já lhe fizeram um proposta nesse sentido.
- É verdade, Maria Alice, o que está a contar a tua prima? Tu tem juízo e não te metas com palhaços… Tens que me respeitar, porque eu estou a fazer as vezes do teu pai, que nem sabemos dele – volveu o avô, já muito arreliado.
- É certo, meu avô, os donos da Companhia, sabendo que eu canto bem, já me perguntaram se eu queria ir lá empregar-me, dizendo que me pagariam conforme eu merecesse… Apesar de gostar muito de teatro, não penso, por enquanto, nesse modo de vida. Também não sei fazer comédias e tenho medo de cair do trapézio… de princípio seria só para vender os bilhetes e cantar.
- Não queremos que andes a falar com palhaços, está bem? Lembra-te, que tens só dezasseis anos e que és ainda muito nova para saberes o que melhor te convém – recomendou o avô, novamente.
Entretanto, apareceram os tios que também a repreenderam, por ela andar a dar confiança a essa gente do Circo, que são saltimbancos e andam de terra em terra como os ciganos.
Dias depois, a Companhia abalou daquela vila para outra localidade, mas o jovem comediante teimava em escrever à Maria Alice, até que, daí a um ano a convenceu a fugir de casa dos tios, que ficaram muito desgostosos; participaram à polícia e foram em busca do seu rasto, Ela apareceu-lhes, mas recusou-se a regressar a casa, alegando que todos a tratavam muito bem. Perceberam os tios e ela confirmou que gostava do rapaz do Circo, tendo por amiga uma sua irmã, admirável trapezista da Companhia. Nem a prima foi capaz de a convencer a voltar e conformava assim os pais:
- Todos temos de cumprir a nossa sina e a dela será esta. Quem sabe? Poderá, mesmo, vir a ter sorte na vida. Ela tem já dezassete anos e meio e é muito inteligente, como sempre disse a nossa professora primária. Acho bem que venha a casar-se, fazendo um casamento religioso e bonito, tal como eu aspiro também. Para nosso descanso, ela confidenciou-me que o matrimónio deveria efectuar-se daqui a uns meses.
Mas os pais e o avô, é que não podiam levar à paciência que a sobrinha e a neta se envolvesse com gente de teatro e mais com palhaços de Circo.
A Maria Alice, possuidora de um bondoso coração e de uma inteligência invulgar, era uma bonita rapariga de cabelo às ondas, muito jeitosa e tinha uma voz maravilhosa! Decorava os textos com muita facilidade e sabia cativar e encantar o público.
Após dois anos a trabalhar ali, a Companhia tomou o nome de “Circo Maria Alice” e sempre de “vento em popa”… É que a moça deu muita alma ao Circo e veio a casar com o filho do proprietário da Companhia: - o Carlos Alberto que ela amava desde o primeiro momento que se viram, tendo ele cumprido com a sua promessa de dar-lhe o nome de esposo.
Nesta altura, tinham já muitos animais domesticados e amestrados, porquanto o Circo tornou-se mais interessante e famoso, chegando esta informação ao conhecimento da família, que também vivia agora bastante melhor economicamente e desejava ver a Maria Alice, sem ser só nos jornais… Sim, porque era já falada no País inteiro e até no estrangeiro.
Viviam bem, por que o senhor António Bento aconselhou a filha a abrirem um buraco na cozinha velha, onde estava uma mó de um moinho, dizendo muitas vezes:
- Vocês não acreditam, mas debaixo desta pedra redonda está uma panela de libras de ouro. Abram um buraco, mas não digam nada a ninguém… Quando os franceses por aqui passaram, muitas pessoas esconderam o ouro no chão da casa e nos quintais. É que eles pilhavam tudo, sem respeito por ninguém e nem pelos templos sagrados.
Tanto insistiu o senhor António Bento, batendo com a bengala na dita pedra, que eles resolveram de noite, abrir o buraco, aceitando a ideia luminosa do velhote. E, na verdade, lá estava a “mina de ouro”!
Foi um delírio naquela ocasião… com a família toda a levantarem a grande panela das libras a brilharem douradas! De um momento para o outro, ficaram ricos. O filho desenvolveu o negócio e à filha surgiram bons pretendentes para casar, mas ela, ao contrário da prima, não era namoradeira.
Num belo dia, um casal elegantemente vestido, bateu à porta daquela nova moradia. Era a Maria Alice e o Carlos Alberto, seu marido, o tal artista bonito, alto e moreno, que a entusiasmou a sair de casa dos tios e se apaixonara também, quando do primeiro encontro. Estavam radiantes e felizes e foi graças a ela, que o Circo progrediu muito. A Maria Alice vinha um pouco acanhada, mas, como foi bem recebida por toda a família, abraçou-os com muita alegria, dizendo, então, para o seu avô, sorrindo:
- Vê, como a sua neta, que tão cedo aprendeu a fazer truques… colhendo os figos com os dedos dos pés, se tornou uma artista e fadista de fama? Sabe? Agora ando a aprender ilusionismo. O meu marido é um craque nessa arte e quer que eu aprenda também.
- É certo, Maria Alice! Sempre te considerei uma moça de muita agilidade. Saíste è tua avó que Deus lá tem e era uma mulher muito esperta. Acho-te até muito parecida com ela, Estou contente por te ver bem acomodada na vida.
- O avô ainda foi mais habilidoso do que eu, que adivinhou – como bruxo – que eu dava para artista e acertou em cheio, onde estava a panela das libras… – lembrou a neta.
- Sim, tive um palpite bom, mas cheguei a andar descontente por não quererem acreditar-me. E queres saber, Maria Alice, eu havia sonhado que existia na casa um tesouro.
A prima Maria Francisca – perguntou-lhe, baixinho. – És feliz, Maria Alice?
- Muito. O Carlos Alberto não pode ser mais meu amigo. Deus queira que venhas a ter a mesma sorte no Amor – volveu a prima.
O tio João, também, não se ficou sem dizer:
- Deste-nos grande arrelia, “minha marota”, mas, graças a Deus, tudo acabou
- E há-de ver se Deus quiser – disse o Carlos Alberto, que convidou a família para irem confraternizar todos num bom Restaurante. A Maria Alice tinha já carta de condução, mas quem guiava agora o lindo e bom automóvel que trouxeram, era o Carlos Alberto,
Depois desta conversa, eis que chega a tia Margarida com doze moedas lindas e exclama em voz alta:
- Toma, Maria Alice, e vende-as para comprar algumas jóias; sei que não precisas, mas quero que fiques com uma recordação do avô, que foi o autor da nossa felicidade!