3.9.09

                                                                                                                           IV

 

                                     Pe. Horácio.JPG                                                           

 

                                   Pe. HORÁCIO NOGUEIRA

 

 

Já se passaram bastantes anos em que ouvia falar no Sr. Padre Horácio. Lembro-me até de o ver passar na rua todo jovem e airoso, vestido de preto. Filho dos saudosos Goienses Augusto Nogueira e Albertina Melão, tive mesmo a feliz oportunidade de ler, uma vez, o seu livro: "Há Vida na Charneca", e conheci também uma letra interessante que fez em tempos para uma marcha do S. João, do Terreirinho - Góis, local exacto onde nasceu. Seu primo José Alves Barata, já saudoso, em boa ora me deu a conhecer alguns dos seus belos poemas e também preciosos dados biográficos, que deixo aqui transcritos.

 

"Poeta nascido em Góis em 16.07.1925, escreveu "Estrela da Planície" (poemas, 1955);  ´"Há Vida na Charneca" 8Narrativas Alentejanas. 1956; "Cabo Verde" (Poemas Comemorativos do 5º Centenário, 1960); "Natal em S. Tomé" (Novela, 1962); A Vida recomeça Hoje" (Novelas, 1962); etc.

 

Vivendo muitos anos em Angola, primeiramente como secretário do Bispo de Malange, depois sob os auspícios duma Missão Americana, onde atravessou os horrores da guerra, em prol dos infelizes, tudo fez para lhes minorar o sofrimento. Dedicou o seu último trabalho às suas Bodas de Ouro sacerdotais, comemoradas em Fátima, publicando em Dezembro de 1998 o livro "Bodas de Ouro em Natal - Poesia e Memória", no qual se recorda toda a sua caminhada desde a infância, seminário e actividade sacerdotal e missionária até aos dias de hoje.

Colhi ainda algumas informações através da sua tia Palmira Melão Barros, que gentilmente me deu a conhecer mais uns lindos poemas do seu querido sobrinho.

Com efeito, são deste excelente Poeta, Pe. Horácio Nogueira, os interessantes poemas que transcrevo aqui, como singela homenagem:

 

 

O SOL ESTAVA ASSIM...

  

(O Bispo de Malange D. Salessu, contou-me um dia o que peço licença para divulgar)

 

Na aldeia, vendo os anos passar

E não sabendo o dia em que nascera

(O calendário, então, inda não era

Conhecido no meio das florestas),

E depois, na cidade, vendo as festas

De tanto Aniversário, quer também

fazer anos... Vai ter com sua mãe;

Lembra-se, mãe, do dia em que eu nasci?"

"Como posso esquecer?" r a mãe sorri,

Olhando o Céu; depois, levanta o braço,

Marca um pontinho nesse imenso espaço,

A meia altura, e diz, virada a leste:

 

"Filho, lembro-me bem, quando nasceste,

 

O Sol estava assim!"

E a mãe radiante,

Revive no silêncio aquele instante

Supremo e belo em que o dera à luz.

Esta mãe africana assim traduz;

Refere o nascimento à luz solar,

O dia não precisa mencionar.

Também de Cristo o dia se perdeu?

O importante é saber que Ele nasceu!

 

 

Cessar-fogo

 

É tempo de cessar-fogo!

A guerra tem de acabar!

Não pode manter-se um jogo

Que impõe morrer ou matar.

 

A guerra – jogo macabro –

Não tem justificação;

Traz angústia, descalabro,

Miséria, destruição.

 

Querra entre irmãos é vergonha

Que fica por muitos anos.

Quem tem armas - que as deponha!

Em vez de guerra - outros planos

 

Há processos racionais

Para atacar o problema.

Matar – é fácil demais.

“Não à guerra!” - seja o lema.

 

Cessar-fogo. Dar o braço.

Desarmar os corações!

Mesmo assim, muito estilhaço

Vai atingir gerações.

 

 Um poema interessante e quadras muito conceituosas que, infelizmente, estão ainda actuais.

 

Ultimamente o Sr. Padre Horácio tem residido em Lisboa e numa das suas últimas visitas a Góis em 30 - 5 -99 deu-me o grato prazer da sua visita. Teve de identificar-se porque eu já não o conhecia, apesar de um aspecto jovem... Em Janeiro do ano 2000 enviou-me de Malange um gentil cartão de Boas Festas, com dois encantadores, dos quais vou reproduzir aqui cinco quadras que escreveu sobre o




 ÚLTIMO NATAL DO MILÉNIO

 

Ano 2000! Que significa isto?

MILÉNIO! Que interessa tal assunto?

Respondo eu próprio àquilo que pergunto:

Só pode ser Natal de Jesus Cristo.

 

A Seu respeito o Apóstolo escreveu

Raras palavras que talvez remontem

A tempos antiquíssimos: É de Ontem,

De Hoje e de Sempre. "Eterno Jubileu!

 

E lembro o que o salmista diz num verso:

"Perante Deus, mil anos são um dia".

Assim, o dia de hoje principia

E mais de mil anos passam no universo.

 

Se, para Deus. Milénios são instantes

E a soma dos instantes milhões de anos,

Natal perpétuo existe nos Seus planos,

Talvez porque nos fez itinerantes...

 

Peregrinos errantes do Além!

Nesse Natal eterno bem presença

Quero chegar humildemente e, sem detença,

Pede licença e diz “Venho por bem!”

 

Pe. Horácio Nogueira, um Poeta Goiense de letras Maiúsculas a merecer lembrar-se com o devido relevo e respeito.

 

 ooooooooooooooooooooooooooooo

 

                                                                V

 

                               Paulo Ilharco.JPG

  

                                               PAULO ILHARCO

 

Com muito apreço tenho vindo a acompanhar o estro do distinto Poeta Paulo Ilharco  de raiz  Goiense que, em minha opinião, pode, perfeitamente, ombrear como os melhores Poetas Portugueses da actualidade.

 

Modela com arte e conceito toda a sua poesia, desde a quadra popular ao soneto clássico, como evidenciam os seus versos, inspirados, tantas vezes, em sentimentos de melancolia.

 

Nascido em 26 de Maio de 1961, filho do saudoso Dr. Jorge Ilharco e de D. Zulmira Ferreira Fias Nogueira, concluiu muito jovem o curso superior de Línguas e Literaturas Modernas, exercendo hoje a actividade de Professor de Português e Inglês.

Tem quatro livros de poemas publicados, sendo: “Sonetos Imperfeitos””Chão Sagrado” “Paranóia” e Transgressão”, respectivamente nas datas 1991 – 1992 – 1935 e 1997.  

  

Estou a escrever esta pequena biografia no meu livro “Góis e Seus Poetas” em 21.1.99, dia em que recebemos deste nosso amigo uma lembrança lindamente encaixilhada, ouse: um gentil soneto que vou dar a conhecer aos leitores:

 

 

                     NA TAL DATA  

 

 

25 de Junho ou de Dezembro?

Ao certo não sei bem quando é Natal?!

É no Inverno ou no V´rão – já nem me lembro,

Se calha numa data especial!

 

Pode ser até mesmo lá pra Setembro,

Durante a desfolhadas na quintal.

Quem sabe em Maio, Abril, Julho ou Novembro,

Hallove en, Réveilon ou Carnaval?

 

Talvez em dia – Sempre ou dia Nunca,

Num Palácio ou até numa espelunca,

Cuja porta da rua não tem trinco.

 

Ou, então nesse Dia, apenas só,

Em que um velho de barbas, num trenó,

Desce ao mundo em Dezembro, 25!

 

Um soneto com muita profundidade para quem puder e souber tirar-lhe as devidas conclusões.

 

Não resisto ao desejo de incluir agora nesta edição um soneto de que gostei muito também e Paulo Ilharco, me dedicou após o falecimento da minha saudosa e querida mãe: então é assim:

 

           ASAS IMORTAIS

 

Ao saber que partiu a tua mãe,

Coloquei a questão se fosse a minha?

Como tu perderia o maior Bem,

Uma santa, uma fada, uma rainha.

 

Choraria tais lágrimas também,

Que inundaria a estrela mais vizinha.

Tentaria chegar aos Céus, Além,

Nas asas imortais duma andorinha.

 

Gritaria a S. Pedro: “Quero entrar!”,

P´ra que pudesse, apenas, demonstrar

Tamanha indignação, incontrolável.

 

Pois se até quando morre um passarinho

Nos chora o coração devagarinho,

Quanto mais uma Mãe… - imperdoável!!!

 

                                               18.3.1998

 

Cá fica como homenagem a sua mãe, D. Mirinha, a todas as mães e ainda como preito da minha admiração pelo ilustre Amigo Paulo Ilharco, que, com estes dois belos sonetos, contribuiu para alindar mais o meu livro “Góis e Seus Poetas”. Bem-haja.

 

(Actualizando, Paulo Ilharco publico mais “E NU SENTE” em 2002 – “Ideias… …E DEI-AS” em 2004 e “Asas” em 2009. Um abraço por me os ter oferecido todos, esperando pelo 8º logo que possível.)

C.B.S.

 

 oooooooooooooooooooooooooooooo

 

                                                      VI

 

 

                             Anselmo.JPG

 

 

                       ANSELMO DOS SANTOS FERREIRA

 

Evocado merece também ser ANSELMO DOS SANTOS FERREIRA, falecido em Soure em 7 de Janeiro de 1986, com 83 anos de idade. Foi professor primário, sendo natural de Alvares e filho do antigo prof. Manuel dos Santos Ferreira que nascera em 1878 no Cadafaz e por quem passaram muitas e muitas gerações de alunos, também em Alvares.

 

   Anselmo dos Santos Ferreira, conhecido por “Elmanso Beirão” exerceu as suas funções com a competência que lhe foi publicamente reconhecida em várias localidades do País, entre as quais P   Pombeiro da Beira e, por fim, Granja do Ulmeiro, onde esteve mais de 25 anos e onde, ficou por sua manifesta e expressa vontade, ficou também sepultado. Poeta de invulgar sensibilidade, foi autor do interessante fascículo “Sol Poente” que durante 40 anos distribuiu, com regularidade, pelos seus inúmeros amigos (entre os quais teve a gentileza de me incluir, focando sempre motivos da nossa bela região de onde era natural.

 

   Na sua última carta de 26 de Dezembro de 1985 que dele recebi (e ainda assinou), dizia-a me, textualmente. “Sem forças para mais, aceite as minhas respeitosas saudações e creia-me na sincera Amizade que sempre lhe dedicou o conterrâneo e colega da verdadeira arte poética. Sempre ao seu dispor, muito grato. Anselmo dos Santos Ferreira,

 

   Muito mais poderia ter dito sobre este poeta de Góis. Contudo, vou apenas transcrever um seu curioso trabalho.

 

 

  Tinteiro e Pena.JPG         Alselmo 2.JPG

 

 

Aqui deixamos, pois, impresso o seu "Tinteiro e Pena" das suas memórias que,muitas vezes ilustrava com sugestivos desenhos.

 

ooooooooooooooooooooooooooo

 

                                                                VII

 

                            ANTÓNIO RODRIGUES DIAS

 

                             A. R. Dias, entre portas.JPG

 

No meio de 2 grandes Poetas portugueses, Francisco dos Santos já saudoso e Aníbal Nobre.

 

 

Também não posso deixar de recordar um saudoso Amigo, também Goiense de gema, que foi António Rodrigues Dias, falecido em Góis em 18 -5 -1994, com 97 anos de idade.

  

   António Rodrigues Dias que residiu, repartidamente, cerca de 60 anos no Brasil, era uma pessoa simples, mas culta a quem deverá chamar-se também Poeta. Autor de um livro em prosa, muito interessante: “Recordações dos Tempos Idos”, que publicou no Brasil em 1966, aonde recorda os seus tempos de pastor e as brincadeiras da sua meninice, passadas no Rio Ceira, em Góis, já, então, o delírio dos garotos da terra.

 

    Em 1971 publica mais um livrinho a que deu o título “Sonetos: “Prosa e Verso”. Não muito rigoroso na metrificação dos poemas, mas a sua prosa é brilhante, E porque falei em António Francisco Barata vou aqui deixar transcrito um pequeno trecho em prosa que António R. Dias neste seu livro de prosa e verso e ainda um poema, a si dedicado com o título: A CRIANÇA SONHADORA QUE EU FUI.”

 

   .”António Francisco Barata nasceu em Góis em 1836 e morrer em 1910.

   

   Tendo vivido quase toda sua vida em Évora, lá escreveu a maioria das suas obras, entre elas.”Manuelinho de Évora;” “Vidas dos Arcebispos;” “Estudos Linguísticos”; “Um Duelo nas Sombras;” e muitas outras. Dotado de uma vasta e variada erudição, António Francisco Barata merece a nossa homenagem pela quantidade de trabalhos literários, históricos e linguísticos deixados,

    Este nosso erudito conterrâneo honra não só Góis, mas toda a lusíada Nação. Já que às letras prestou grande subsídio, principalmente na arte de bem escrever,”

 

 

  A CRIANÇA SONHADORA QUE EU FUI

 

Eu queria em criança viajar..,

Conhecer Novos mundos que lia

Nos volumes de geografia;

E que eram terras de encantar!

 

Quando em pequeno de Góis parti,

Para o mundo com que sonhava…

Quantas…quantas ilusões levava!

Da Pátria, saudades senti…

 

E a ser zagal, outra vez voltei…

Recordações da terra… matava,

Mas de novo, com o Brasil sonhei!

 

E à grande Nação, eu voltava!

Com o afago que lhe dediquei,

Segunda Pátria se tornava!   

 

António Rodrigues Dias, pelo muito que quis à sua terra e pelo que escreveu sobre ela, bem merece ecocarmos o preito que lhe é devido.

 

C.B.S.    

 

ooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo

 

                                   VIII

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 JOSÉ ALVES BARATA                                        

 

  

Um apaixonado também pela poesia. Tinha coleccionados no seu Computador, milhares de pensamentos e Biografias de Poetas, Poesias, etc.

 

    Filho de Miguel Barata Claro e de Maria Baptista Claro, nasceu em Góis em 28.11.1918, tendo, quando muito jovem, emigrado para junto dos seus pais que viviam no Brasil, Na cidade de S. Paulo, trabalhando de dia e estudando de noite, tirou o curso de Contabilidade na Faculdade de Comércio de D. Pedro II, na qual ficou a leccionar até abrir a sua própria Escola de ensino Primário r admissão aos Liceus com o nome de Externato São Paulo que manteve até regressar a Portugal e a Góis, onde fez parte da Filarmónica local.

    Com 20 anos vai para Lisboa matriculando-se na Escola Comercial Rodrigues Sampaio e no Instituto Comercial de Lisboa. No qual frequentou a curso Preparatório para Ciências E. e Financeiras. Na Capital fez ainda parte de um conjunto Troupe-Jazz.

    Aos 67 anos tirou o curso de História da Arte, com predominância da pintura e ais 78 iniciou conhecimentos em informática, de que muito gostava

     Publicou em 1996 dois livros. Um de Adágios Sabedoria Popular e outro de Poesias. É deste último que deixo aqui registado algumas quadras de fé e um soneto de Amor.

 

            SER CRISTÃO

 

Ser Cristão é ter bondade,

Ter moral, ser caridoso;

Amar sempre a Humanidade,

Ser leal e bom esposo.

 

Não desejar o alheio,

Respeitar os mais idosos;

Amar a Deus, sem receio

Dos ateus insultuosos.

 

Acarinhar as crianças,

Guiá-las no bom caminho;

Incutir-lhes esperanças,

Forjar-lhes um bom destino.

 

Não roubar e não matar,

Ser bondoso e esmoler;

A outrem não cobiçar

Os seus bens e a mulher.

 

Não usar de hipocrisia

E fingindo o que não é;

Não praticar heresia,

Nas leis de Cristo ter fé.

 

                            

 

             O ESPINHO

 

A pura rosa branca do teu peito,

O seu perfume exala alvissareiro,

O que com tal magia e tal jeito,

Mantém inebriado o meu craveiro.

 

O carvão puro e branco, aqui nascido,

Crescei para atingir essa janela,

Em busca desse sonho prometido

Por tão imaculada rosa bela.

 

Levando seu perfume contrastante,

Espera conseguir um novo odor…

Como preito de homenagem dum amante.

 

Depõe aos pés da bela o seu amor!...

É só, então, consegue num instante

Saber que da beleza só vem dor!

  

Com estas quadras, simples, mas contagiantes de conceito moral e o soneto “Espinho”, recordei o poeta José Alves Barata, um bom Amigo, também, que nos últimos tempos de vida se correspondia comigo e me mandava, sempre que podia “do seu viveiro”… bonitos e sentenciosos pensamentos. Pena foi que começasse a sentir a saúde abalada r tivesse de partir para o Céu em 8 de Março de 1999. Numa das suas últimas cartas ele me dizia, ainda com alguma esperança: - Mudei-me para Odivelas para ficar mais próximo da família, pois a minha doença está a ficar já muito trabalhosa para a minha mulher, e como preciso dela até ao ano 2000, tenho que a ir poupando. Povoava-lhe o espírito o sonho de poder atingir o novo milénio. Infelizmente não pôde ser.

 

   José Alves Barata, um goiense profundamente culto e multifacetado em artes. Deste modo referiu também o jornal “ALMOUROL” em jeito de homenagem: “Passou à Eternidade este nosso distinto colaborador, homem de sete ofícios ao longo de uma vida rica de vivências. Caminheiro das paridas do mundo, conhecedor dos “Brasis” e de outras paragens, sempre na ânsia de vencer na vida e de aprofundar conhecimentos com as experiências de outras culturas.

 

  Que do outro lado do mundo e perante Deus possa interceder pela nossa Pátria e por nós que o recordamos sempre com muita Saudade.                              

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