11.9.09

 

MURMÚRIOS DO CEIRA

 

xxv

 

EXCURSÃO AO ALGARVE

 

O povo simples, não aceita modas. C.B.S.

 

 

 

 

 

Era um Domingo de verão. O tio João Afonso, que estivera na taberna do Lobato, chegou a casa pela tardinha, muito entusiasmado, chamando pela sua mulher:

- Ó Bernardina! Ó Bernardina!

- O que é queres, homem? Se é a ceia, tens ainda de esperar um pouco, Estou a fazer escoado de bacalhau e tudo leva o seu tempo.

- Não, mulher, não isso. Queria-te contar que falei, agora, com o “Zé”Câmara, e disse-lhe que marcasse dois lugares para irmos também numa excursão ao Algarve.

- E quanto custa a viagem, João? – Olha “ca” gente não “semos” ricos.

- São só cinquenta euros pelos dois bilhetes, Um “home” que anda todo o ano a mourejar, de sol a sol, também tem direito a gozar, ao menos, dois dias de férias por ano. O meu irmão vai também e leva a família toda.

Dia 14 de Agosto, um sábado, iremos de abalada, se Deus quiser. Estou morto para ir ver as praias lá de baixo. O “Toino” da Ana foi lá o ano passado e vinha abismado com o que lá apreciou e viu. O sol clarinho! O Céu muito azul! As águas quentinhas e muita gente na praia, só com uma tanguinha na frente e por traz só uma guita… Vais ver como gostas, ó Bernardina!

- Olha, João, antes queria ir para as Termas, por causa do meu reumático – que me anda a atacar bastante. Mas vamos, também não gosto de ser desmancha-prazeres. O pior é ter de arranjar o farnel para levarmos e não pode ser fraco, que parece mal.

-Mata-se o borrego castanho e leva-se assado no forno. Tinha tenção de vendê-lo, mas a gente também tem boca, como os mais, para o comer. Com ele no cesto, um pão-de-ló e filhós, já não se faz má figura.

- Chegou o dia aprazado. Manhã cedo, lá estava o casal na estrada nova à espera que chegasse a camioneta que os levaria ao Algarve. Foi um convívio alegre e divertido até lá chegarem. A senhora Bernardina gostou muito de ver o Alentejo, com as casinhas brancas e mais para o sul os pinheiros mansos à beira das estradas. Para quem nunca tinha passado de Coimbra, tudo aquilo lhe parecia um novo mundo.

Ao chegarem, ao fim da tarde, à bonita cidade de Vila Real de Santo António, já não houve tempo de irem até à praia, porque a noite veio. Deram uma volta pela cidade a verem as montras e regressaram à camioneta, na qual tiveram de pernoitar. As pensões ali são caríssimas e o dinheiro dos camponeses, não dá para, ao menos uma vez por ano, fazerem figura de ricos….

Que desconforto! Pela manhã sentiram o corpo todo dorido da incómoda posição e muito pouco dormiram. É assim a vida de quem mais se esforça e trabalha. Os que menos produzem e nada fazem pelo engrandecimento da Nação, são muitas vezes os que comem os afamados mariscos e dormem regalados nos Hotéis mais estrelados…

Após saborearem uma pequena bucha e de beberem uma pinga pelo garrafão, seguiram na camioneta para Monte Gordo, uma das melhores praias do Algarve, que era o alvo do passeio. A Senhora Bernardina foi a única do grupo que não quis molhar os pés e sentou-se na areia fina a ver e a apreciar aquele movimento todo dos banhistas…

Daí a algum tempo, veio sentar-se junto dela uma rechonchuda moça de biquini e cigarro na boca, que lhe perguntou:

- De onde é a senhora?

-Sou duma freguesia do distrito da Guarda, e o lugar onde moro chama-se “Terra do Respeto”, – disse-lhe a senhora Bernardina, com modos de enfado…

- Nunca ouvi falar em tal sítio, minha senhora!

- Não deve ter ouvido, não, menina. Cá por estas bandas devem dar outros nomes às coisas, como: “Terras sem Vergonha” e outros semelhantes a estes. Está a rir-se?... Olhe, que é verdade o que lhe digo. Eu bem disse ao meu homem que me levasse antes para as Termas.

Lá, ao menos, sempre havia mais um bocadinho de “respeto”…

- Isto aqui é a praia de Monte Gordo e faz bem à saúde, tomarmos banhos de sol, não sabia?

Que a menina é gorda, já eu vi. E aproveito para lhe dizer que tenho ouvido comentar no meu rádio que o sol em demasia e em certas horas, do dia, faz muito mal à pele e pode provocar cancro. Também não sabe isto?

- Por acaso sei. Mas é muito mais bonita a cor morena!

- Olhe, menina, se trabalhasse no campo de manhã à noite, como eu, fazia-se trigueirinha e bonita como diz. A vida campestre na aldeia é bastante mais saudável do que a da cidade. Sobre a terrível droga do tabaco, também os médicos não se cansam de avisar que não fumem, mas todos fazem ouvidos de mercador… É uma pena vermos meninas tão novinhas a engolirem fumo a toda a hora. Graças a Deus arranjei um homem que não tem esse vício, porque, de contrário, não lhe suportava o cheiro…Felizmente não é fumador nem bêbado.

Neste momento, chega um rapaz e senta-se no colo da rapariga a fazer-lhe cócegas e a fumar também do fumo dela… A senhora Bernardina, que já estava farta de praia, virou-lhes imediatamente o assento… e chamou o seu João que andava lá mais abaixo, de calça arregaçada, a brincar com as ondas.

- Vamos embora, homem, – Isto aqui é uma pouca-vergonha! São piores que os nossos bichos, que também fazem festinhas, mas dentro do curral!...

O marido, um tanto envergonhado, – respondeu-lhe assim, num tom baixo:

- Ó mulher, tu não te faças saloia, que parece mal, Bem basta vires de saia comprida e nem molhares os pés. Isto é o que se usa agora. Se nós viemos de tão longe para aqui, gastando o nosso dinheiro na excursão, foi para nos divertirmos e vermos o que por lá não se enxerga… Eu já disse ao compadre Alfredo que voltamos cá para o ano.

- Pois volta. Eu é que não ponho mais, aqui, os pés. Tu, se quiseres, vens para cá e eu vou com a vizinha Caetana para as Termas.

Entretanto, o jovem casal saiu dali, talvez por tanto ouvir censuras e foram deitar-se ao pé duma barraca, lá mais para longe.

Logo após, chegou o grupo da excursão e o compadre Alfredo entabulou conversa com eles, nestes termos:

- Vamos embora, gente, que o sol já vai alto e são horas de irmos comer alguma coisa.

- O meu homem não tem fome nenhuma e, por sua vontade, ficava aqui toda a noite a ver o “teatro”… - volveu a senhora Bernardina – um tanto mal disposta.

- Mas que teatro? – Perguntou o”Zé” Pascoal, enquanto o sr. João Afonso lhe mostrava um sorriso maroto, - replicando depois:

- A minha mulher é parva. Pensa que estamos no tempo das nossas avós, Aliás, também elas se divertiam, só que não era em público. Isso é verdade.

A viagem de regresso decorreu bastante animada. O vinho já fervia na cabeça dos homens, que cantavam alto ao som de um harmónio. A excursão até casa foi agora efectuada com mais alegria e camaradagem.

A senhora Bernardina, depois na aldeia, não se cansava de contar às vizinhas como tinha decorrido o dia na praia.

-O meu João está ansioso para voltar ao teatro… e ver as moças todas ao léu… Se vocês vissem, até se benziam com a mãe esquerda… Dantes eu ouvia dizer que era proibido andarem assim as mulheres quase como as mães as deram à luz e os homens de tronco nu. Agora, é tronco e membros, e sei lá mais o quê… Eu não me afirmei bem…

O marido, que estava dentro de casa e ouviu a conversa toda, veio à janela e falou assim à mulher:

- Não sejas tão serrana – ó Bernardina!... És mesmo uma simplória! Tu não vês, mulher, que estamos integrados na Europa e temos de fazer como eles fazem, se não pregam-nos uma multa?!... No estrangeiro ainda é mais bonito! Tu nem sabes que há mundo, ó Bernardina!

 

 

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