23.10.09

 

 

 

                                                    MURMÚRIOS DO CEIRA

 

                                                  VII

 

                                   AMOR SEM FRONTEIRAS

                                         

     Olhos vendados para o mundo, abrir-se-ão no Céu, diante de um sol diamantino, feito por Deus. C.B.S.

                                        

                             

 

 

 
Maria Clara estudava em Aveiro, estando hospedada em casa de um casal amigo de seus pais, abastados agricultores, a viverem numa aldeia do concelho de Águeda. Percebendo a mãe, a D. Carolina, que ela tinha uma certa inclinação para os estudos, um dia comentou – com o marido:
- A pequena é inteligente e, como já notei, tem vocação para os estudos. O irmão, que está seguindo a carreira de Advogado no Porto, não vai querer ser agricultor, e não será ela, provavelmente, que irá administrar as nossas terras, que são diversas.
A senhora Albertina, de 48 anos, irmã do senhor Américo dos Santos (esposo da D. Carolina), que vivia com eles, – atalhou – um pouco aborrecida:
- Então, quem vai cuidar das propriedades que os nossos pais nos deixaram? – Respondam-me, por favor!
A D. Carolina – opinou:
- Enquanto pudermos cuidaremos nós das quintas e das casas. Depois, quando o Henrique tiver o seu curso de Direito, encarregar-se-á ele da sua administração. Nota-se que é enérgico, e já tem umas luzes da actividade agrícola, pelo que não estou muito preocupada com isso. A Maria Clara ainda não decidiu o seu futuro, apesar de sempre me dizer que gostaria de ser Enfermeira. Não sei… O futuro a Deus pertence…
- Uma Enfermeira na família, até dá jeito, Carolina – atalhou o marido – aplaudindo a ideia com todo o entusiasmo. Mais tarde, na velhice, custa menos estar doente, com uma dedicada enfermeira ao nosso lado, não acham? 
Pensavam eles no melhor para os seus filhos, mas a senhora Albertina preocupava-se muito com a conservação das quintas e bens que tinha herdado dos seus antepassados, e – tornava a dizer:
- Pois é. Mas eu é que me não convenço muito. Parte das nossas fazendas já estão de pousio com silvas, e por este andar seguem as restantes. Tudo custou muito aos nossos avós… Mas pronto! Temos de acompanhar o desenrolar dos tempos, no entanto, vermos tudo ao Deus dará, é bastante desagradável.
Como já se referiu, a Maria Clara estava em Aveiro, vindo só a casa no tempo das férias. Ali tomou conhecimento e amizade com uma colega que, como ela, frequentava o Secundário. Chamava-se Alexandra e tencionava formar-se em medicina. Entre ambas reinava, desde há tempos, uma certa estima, mas eis que chegou o momento e a curiosidade de saberem quem eram as famílias, de parte a parte, como e com quem viviam.
Alexandra, depois de estar inteirada da vida familiar da Maria Clara, numa certa tarde em que foram as duas passear até ao Parque, começou a desfiar o “novelo”… e falou assim:
- A minha vida familiar é um tanto complicada e triste, Maria Clara! Meus pais faleceram num desastre de viação, tinha eu 3 anos e o meu irmão 5. Por acaso, não viajávamos nesse dia com eles, mas esta fatalidade marcou-nos para sempre. Quem conduzia o carro dos meus pais, nesse dia fatídico, era um tio nosso, ainda solteiro, que residia no Canadá e estava cá de férias. Também ele perdeu a vida, após dois meses em coma no Hospital, em Coimbra. Constou-se que foi uma avaria nos travões que não obedeceram ao afrouxamento do carro despistado. A minha avó paterna, doente cardíaca, perante tão grande desgosto, pouco tempo sobreviveu aos filhos.
Foi uma pena! Os meus pais tinham um relacionamento afectivo, espectacular! Casados, havia apenas seis anos, viviam ainda uma autêntica lua-de-mel e os filhos eram, naquele momento, o motivo principal da sua felicidade.
É verdade que o Castelo dos seus sonhos começou a ruir, apenas se soube que o meu irmão nascera cego! E foi terrível, Alexandra!
Os meus pais consultaram então, os melhores especialistas de Espanha e Inglaterra; foram aos Estados Unidos com ele, e não conseguiram uma luzinha de esperança.
- Estou deveras impressionada com a tua história, minha amiga! O teu irmão deve sentir-se muito triste e desencorajado.
- Não muito, Maria Clara. Aprendeu Braille com uma facilidade espantosa! Vocacionado para as letras e para a música, escreveu já um romance para cegos, que agradou imenso e tirou o curso do Conservatório, Toca piano maravilhosamente, gosta de poesia, compõe músicas e até canta muitíssimo bem! Tem imensos poemas na gaveta para o livro que pensa publicar, e este não é para cegos.
- Então, como?
-- Ainda bem que estamos na era dos Computadores, aos quais o meu irmão está a adaptar-se de maneira excelente, tencionando ainda tirar um curso superior. Eu tento ajudá-lo, mas se visses como ele maneja aquela máquina?! Tem uma memória incrível! Depois, tudo lhe sai perfeito.
- Gostaria de conhecer o teu irmão. Quando é que podes apresentar-mo?
- Muito breve, se quiseres. Vais ficar admiradíssima!
- Mas ainda não me contaste, Alexandra, quem vos acabou de criar e com quem vivem?...
- Após aquela tragédia, ficámos com a minha avó materna, a minha tia Idalina, irmã de minha mãe, que é a minha madrinha, e a nossa empregada – Rosa.
Há cerca de cinco anos, a minha avó, com muita pena nossa, não resistindo a uma doença incurável, faleceu. Ficámos então com a minha madrinha e a Rosa que nunca quiseram mudar de situação, por nos terem muita amizade. Ambas diziam:
- Casarmos, para quê, se temos aqui em casa a quem nos dediquemos e tanto precisam de nós? Além do mais, só se vêem pessoas descasadas e maltratadas…
E é com estas duas almas, muito queridas, que nós vivemos em paz e, graças a Deus, sem dificuldades económicas, pois os meus avós maternos viveram sempre de maneira desafogada e tinham, apenas, duas filhas: a minha mãe e a minha madrinha Idalina. Do lado do meu pai, que eraEngenheiro Civil, também herdámos já, de minha avó, uma boa moradia que temos arrendada e ainda uma pequena quinta em S. Pedro do Sul. Meu avô paterno, dali natural, era Tesoureiro da Fazenda Pública. Agora, aposentado e viúvo, vive com uma antiga empregada. Homem muito estudioso, não se cansa de comprar todo o género de livros. Tem uma biblioteca incomensurável!
 
Vivemos um pouco distanciados, mas temos com o nosso avô um relacionamento muito amigo! Costuma vir cá passar pelo Natal e pela Páscoa, e nós deslocamo-nos lá, sempre que nos é possível. Se visses a alegria dele… quando vê os netos em sua casa! É espectacular o nosso avô! Nós também fazemos por cumprir o dever de sermos amigos dele. Nunca lá vamos sem que lhe levemos um bolinho para ele adoçar a boca…
- Ainda não deixei de pensar no teu irmão. Como se chama ele?
- Augusto Manuel, ou seja: tem os nomes dos nossos dois avós.
- Os dotes do teu irmão, fazem-me lembrar um pouco a norte Americana: Helena Keler, escritora e doutrinadora, nascida em 1880 que, ficando cega e surda aos dezanove meses de idade, se licenciou, com 24 anos, em Filosofia. Uma grande mulher de coragem e de amor ao próximo, que deixou diversas obras traduzidas em muitas línguas! São bastantes conhecidas estas frases suas: “A vista e o ouvido não são os únicos meios pelos quais as nossas sensações se despertam. Por mim, sinto-me impregnada de ambiências… Por toda a parte se encontram maravilhas, mesmo nas trevas e no silêncio.”
- Também já li referências dessa mulher notável que sabia ler nos lábios das pessoas com quem falava. Que extraordinário instinto e saber! Se não estou em erro, Helena Keler este em Lisboa em 1956, presidindo a uma Conferência.
- O sol está a pôr-se, Maria Clara; temos de separar-nos. Lá em casa podem estar em cuidado e o meu irmão precisar de mim. Sou como a sua bengala…
- Fazes bem, Alexandra. Como sabes, eu resido aqui perto e, se não te importas, um dia destes bato-te ao ferrolho…
E não demorou muito a concretizar o seu desejo, Num Domingo, depois do almoço, lá estava ela a tocar a campainha da porta… Apareceu a Rosa que sabendo-a amiga da menina Alexandra, logo a mandou entrar para a sala.
Imediatamente a Maria Clara surgiu para cumprimentarem-se num caloroso abraço e referiu:
- Sentamo-nos; mas que bom ter-te aqui! Tens sabido dos teus pais? Como estão eles?
- Graças a Deus, bem. O meu pai esteve cá ontem. Trouxe-me um bolo que trago para repartir convosco e saudades da minha mãe. Também não tardam as férias da Páscoa para ir lá comer as amêndoas… É interessante! Tal como sabes, nestas terras ainda se mantém a alegre tradição de vir o Snr. Prior a casa lembrar a Santa Ressurreição de Cristo, com palavras de Boas-festas e Aleluias, que as famílias retribuem com agradecimentos e um pequeno “folar” colocado sobre a mesa. Os acompanhantes apresentam a Cruz, que todos beijam respeitosamente, e espargem água benta pela casa; tudo isto ao som das campainhas.
- Eu sei, Maria Clara! E é pena que este convívio interessante esteja a ficar em desuso. Aliás, por aqui e em muitas terras do norte ainda se pratica a tradição da Páscoa, em que muitas pessoas, desejando receber o senhor, juncam as frentes da porta das casas com flores e rosmaninho. Crianças, jovens e adultos, percorrem neste dia as vivendas de parentes e Amigos para estarem presentes na chegada ali da visita Pascal e confraternizarem um pouco.
- Vou ter saudades tuas, mas quinze dias passam depressa. O meu irmão está no escritório. Vamos ter com ele, que quero apresentar-to.
O escritório era um enorme compartimento da casa, com largas janelas envidraçadas que davam para o quintal, estantes com livros até ao tecto, poltronas, duas secretárias e algumas plantas. De volta com o Computador, levantou-se apenas ouviu a irmã dizer:
- Dás licença, Augusto Manuel, que te apresente a minha amiga, Maria Clara?
- Com muito gosto! Ora viva, Maria Clara! A minha irmã já me havia falado em si, com muita admiração!
- Olá, Augusto! – Muito prazer em conhece-lo também. Mas que bonito rapaz! Sabe?! Imaginava-o baixinho e gordo, e deparo-o alto e bastante elegante, – volveu Maria Clara – num tom de graça, sorrindo…
- O destino assim o quis. Deu-me certos atributos e negou-me outros mais preciosos. Infelizmente não posso vê-la, mas a minha irmã já me apresentou o seu encantador retrato!... Da voz, já fiz juízo, É deveras cativante!,,,
- Muito obrigada. Em troca do elogia, vamos ser muito amigos.
Após o primeiro contacto, Maria Clara, fixando o seu olhar terno naquele rapaz moreno, esbelto, de óculos escuros, logo se sentiu atraída por algo que não sabia explicar e muito a impressionou…
Alexandra aproveitou para lhe mostrar alguns trabalhos interessantes do irmão, que a deixaram pasmada; isto, enquanto a Rosa e a madrinha preparavam, na cozinha, um lanche para todos.
- Estou encantada com tudo e convosco, mas tenho de ir – disse Maria Clara. Ah, mas hei-de voltar mais vezes. O Augusto Manuel ainda há-de ensinar-me a trabalhar com o Computador.
- Volte sempre que deseje, que nos dará muita alegria, – volveu o Augusto Manuel.
E assim aconteceu. As visitas àquela casa tornaram-se assíduas e o Augusto Manuel sentia-se feliz por, em vez de uma, ter agora duas secretárias. Curiosamente, a Maria Clara ainda se mostrava mais solícita e atenta ao que ele escrevia; naturalmente, num veemente desejo de lhe agradar e aprender a manejar o Computador para o auxiliar naquilo que pudesse.
 
Chegou o tempo da férias da Páscoa e com elas o dia da despedida. Maria Clara, com as malas preparadas, deu um salto a casa dos amigos, afim de lhes dizer Adeus.
Chamou à porta e quem veio atender foi o Augusto Manuel que, nessa hora, se encontrava só em casa. Alexandra e a madrinha haviam ido ao dentista e a Rosa fora também fazer umas pequenas compras.
- Venho despedir-me, Augusto! Daqui a duas horas o combóio parte para Águeda. Quando regressar acabaremos de pôr os poemas em ordem.
- Mas entre, Maria Clara, e espere um bocadinho, que elas não devem demorar.
- Só disponho de meia hora para a despedida.
A jovem entrou para o escritório e ainda lhe ditou um soneto para o livro publicar muito brevemente; e foi ela, mesmo, que escolheu o título: “Ensaios Poéticos”.
- Quando chegar a casa – dizia a Maria Clara – vou ouvir os “sinos de Mafra”. As notas não são especiais, e, então, terei de contar à minha mãe os sonhos meus, que me trazem a mente em devaneio….
- Em devaneio? Não entendo!
- Depois lhe conto quando regressar de férias – se é que ainda não descobriu o que me vai na alma…
Augusto Manuel disfarçou bem a sua comoção de alegria e nada disse, porque de maneira nenhuma queria dar-lhe a conhecer os seus sentimentos, que via agora a cruzarem-se nos dela…
- Tenho pena, mas vou-me embora. Apresente a todas as minhas despedidas. Talvez logo à noite ligue cá para casa.
- Bem-haja por tudo, Maria Clara, e recomende-nos também a seus pais e tia.
Um beijo sentido e respeitoso selou a despedida daquelas duas almas gémeas que iniciavam uma estrada paralela e quem sabe com alguns precipícios pelo caminho…
 
Já na sua linda aldeia, onde era muito querida, Maria Clara foi saudada por muitos conterrâneos, tendo a sua família ficado radiante e a completar-se a felicidade, quando chegasse do Poro o Henrique que estava prestes a ter o seu curso de Direito, na mão.
Com as férias quase a terminarem, Maria Clara não queria partir sem contar a sua mãe certa efervescência de afecto que trazia dentro de si. Aproveitando uma ausência do pai e do irmão, teve de desvendar algo do mistério…
- Sabe, mãe, a minha amiga tem um irmão, com 22 anos, que é uma sumidade de inteligência, também simpática e bondoso. Um rapaz muito gentil!
- Vê o que andas a fazer… Tu, não te prendas com ninguém, Maria Clara, sem completares o teu curso. Bem sabes que o teu pai não é de modas…
- O meu curso vai razoavelmente bem e penso terminá-lo daqui a dois anos. Até lá decidi não dar-vos motivo algum que mereça o vosso reparo, mas com certeza, terão de aliar-se também à minha tendência de aspirar a um futuro risonho e à de quem precisa igualmente de felicidade…
Sua mãe, não percebendo o que ela queria dizer com isto, – apenas disse:
- Tem juízo minha filha, e porta-te sempre bem.
Maria Clara perante os sérios avisos de sua mãe, já não teve coragem de adiantar mais nada. O tempo ajudaria a desbravar o “terreno”… esperando que Deus que manda dar a mão a todos apoiasse a sua causa.
Conforme havia prometido a sua mãe, iria ser mais aplicada nos estudos, fazer por sossegar melhor a cabeça, para dali a dois anos conseguir terminar o seu curso com boa classificação, dar essa grande alegria aos seus pais e contar-lhes o resto da historia…
Em Aveiro, as visitas ao Augusto Manuel e à Alexandra, eram agora menos frequentes, até porque ela estudava em Coimbra; também eles tinham de estudar, Mas, mas nas tardes de Domingo, lá estava ela para trocarem impressões e sentarem-se num banco do jardim e à sombra de um caramanchão que ali havia no bonito quintal. Quase sempre o Augusto ordenava à irmã para lhe colher das mais lindas rosas para ela levar, cujo perfume, – dizia vir do jardim de Deus!
Com efeito, a Amizade entre eles cada vez mais se consolidava. A Alexandra, que andava um pouco desconfiada, um dia avisou o irmão, deste modo:
- Vê, como te portas com a Maria Clara!... Repara, que é a minha melhor amiga.
- E a minha também – volveu ele – um bocadinho triste.
- Está bem – mas os pais dela podem não receber a notícia do vosso relacionamento afectivo com agrado.
- Olha, Alexandra. Conheço, infelizmente, as minhas limitações e, como já lhe disse a ela, não poderemos ser mais que grandes amigos. Tenho pena, mas vou ver se consigo persuadi-la a deixar de vir a nossa casa, pelo menos, por algum tempo.
E assim, num dia em que a Alexandra foi preparar o lanche, Augusto Manuel aproveitou aqueles momentos para dizer à sua amiga:
- Tenho receio que os seus pais se desgostem muito, apenas saibam o grau de Amizade gerada entre nós, e que possa também prejudicar os seus estudos. Não acharia bem que interrompêssemos, por um tempo ou até ao final do curso, os nossos contactos? Que lhe parece?
- Os meus estudos vão bem, graças a Deus, – respondeu ela – de maneira sentida e inquieta – mas vou aceitar o seu alvitre, não com receio dos meus pais, mas por si, que não deve sentir a mesma estima por mim.
- Não queria magoá-la, mas…
Entretanto, chegou a Alexandra e suspenderam o diálogo. Após o lanche, Maria Clara despediu-se triste dos amigos com um “até qualquer dia”, que a Alexandra achou um bocadinho estranho e seco…
A partir daqui, os relacionamentos, entre eles, alteraram-se consideravelmente. Apenas os cumprimentos de cortesia por escrito nos dias diferençados. Sempre que se encontravam na rua, as duas amigas falavam com entusiasmo, quase sempre sobre os estudos e sem que a Maria Clara se esquecesse de perguntar pelo Augusto Manuel, que trazia ainda no coração. Também ele não se esqueceu de lhe mandar o seu novo livro de poemas, com uma cativante dedicatória que muito a sensibilizou. E, como já disse, fora ela mesmo que escolhera o título.
 
São agora decorridos dois anos; e a Maria Clara terminou o seu curso de Enfermeira com elevada classificação. Por este motivo, os seus pais fizeram questão de querer organizar um jantar de amigos, com o fim de comemorarem o feliz acontecimento.
Maria Clara, que nunca olvidara os bons Amigos Augusto Manuel e Alexandra, disse a sua mãe que não apoiaria esta iniciativa e nem se realizaria festa alguma, se os seus pais não autorizassem que mandasse um convite para o jantar ao Augusto Manuel e à Alexandra, que foram sempre os seus melhores amigos.
Sua mãe tratou de convencer o marido que respondeu assim:
- Se bem me lembro – disseste-me uma vez que esse rapaz era cego de nascença. Não sei como a rapariga inclinou para aquele conhecimento, mas autorizo que venham todos, desde que daí não surja nenhum inconveniente.
Maria Clara, logo que teve luz verde do pai, não mandou convite nenhum; meteu-se no comboio e foi ela mesmo, pessoalmente a Aveiro convidar aqueles bons amigos, sem, o que não se faria a festa.
Recebida, como sempre, com muito carinho e muita alegria naquela casa e após ter explicado a razão que ali a levou, – disse-lhe a Alexandra, sorridente:
- Foste mais esperta do que nós, que ainda não concluímos os nossos cursos, mas também falta pouco. Desejamos-te muitas felicidades e desculpa, Maria Clara, mas não vamos à tua terra.
- E eu não saio daqui, sem que me dêem uma resposta afirmativa, a não ser que me ponham na rua … Como dizia o saudoso jornalista Fernando Pessa: E esta, hein? Vá, sério, digam: posso contar convosco? Relativamente ao meio de se deslocarem até lá, eu mobilizo o meu irmão para vir buscar-vos, mais a tia Idalina e a Rosa.
Embora os irmãos não estivessem nada entusiasmados a saírem de Aveiro, mas à vista de tanta insistência, deliberaram fazer-lhes a vontade. Contudo, a tia e a Rosa ficariam a guardar a casa.
Chegando o dia aprazado, o Henrique e a irmã apareceram cedo para os conduzir a S. Miguel, local onde seria realizado o convívio. Maria Clara fez as apresentações e determinou sentar os amigos à mesa junto dela e ao lado da sua família.
Um famoso conjunto musical abrilhantou a festa, que decorreu bastante animada, tendo a Alexandra dançado o tempo todo com o Henrique, irmão da Maria Clara. Esta, que não quis dançar, aproveitou para ter uma conversa amena com o Augusto Manuel para saber dos seus progressos literários e o curso de Informática que havia decidido tirar. Informou-a ele, também, de um livro de pensamentos, de sua autoria, que andava com desejo de publicar. Maria Clara, que tinha uma certa predilecção por provérbios, – logo atalhou:
- Tem graça! Também gosto de pensamentos e já fiz alguns. Veja se lhe agradam estes dois: “Para que possa produzir efeito, a Amizade cultiva-se como uma for” – “A Poesia é o reflexo do Céu a tocar nas coisas belas da terra”!
- Gosto muito. São lindíssimos! Parabéns pela profundidade de conceito que encerram - respondeu ele.
Maria Clara tinha prevenido os pais para que não tivessem nenhuma conversa indiscreta com o Augusto Manuel, sobre a sua cegueira. Os deficientes não gostam, naturalmente, que lhe avivem os seus complexos, – esclareceu ela.
Perto da meia-noite e feitas as despedidas, voltou o Henrique e a irmã trazê-los a Aveiro, que agradeceram muito a hospitalidade e as atenções, de que se viram rodeados.
O Henrique que parecia ter ficado encantado com a amável e distinta presença de Alexandra, de regresso encetou assim um diálogo com a sua irmã:
- Alexandra é uma rapariga muito simpática. Gostei dela e da sua maneira de ser. Penso até em escrever-lhe, que dizes?
- Sim uma vez que não estás ainda comprometido com ninguém, acho óptimo que te antecipes a outros que possam surgir, Tanto ela como o irmão são pessoas da minha estima particular que eu considero muito. A Alexandra, muitas vezes, dizia-me que não se casaria, preferindo ficar solteira e acompanhar o irmão, mas talvez já mudasse de opinião. Pareceu-me entusiasmada quando dançava contigo. Não lhe falaste em nada?
- Apenas lhe perguntei se lhe poderia escrever e pedi-lhe o seu endereço, que me deu de muito boa vontade. O irmão pareceu-me também uma pessoa interessante e culta. Que infelicidade ter nascido sem o sentido da visão!
- A nós faz-nos mais impressão, mas ele que se mentalizou do seu estado, sente-se realizado com uma vida multifacetada que criou e vive relativamente feliz. Quem sabe se ainda não virá a casar?!
- Casar! Com quem?
- E se fosse comigo… Condenarias?
- Ai mana, aí já anda algo que me sobreleva… Tu és maior e vacinada para saberes o que melhor te convém. Notei, efectivamente, que ele é uma pessoa de princípios e atraente, mas pensa na mágoa que isso causaria aos nossos pais, ao terem conhecimento que te ligavas a um cego! Poderá ser que, com o tempo, eles se conformem, e eu mesmo. Também não quero entristecer-te muito.
- Ainda terás de me ajudar a esta demanda… Henrique! Quem sabe? O tempo decretará o destino. Por enquanto, são apenas confidências de irmã para irmão… Ainda bem que chegamos. Já está a vir-me o sono, e tu tens de levantar-te cedo para saíres para o Porto.
No dia seguinte a vida voltou ao ritmo normal. O Henrique abalou e a Maria Clara ficou a aguardar uma resposta do Sub-Região de Saúde de Aveiro, onde esperava a vir prestar serviços.
 
E assim aconteceu. Passados dois meses já a Maria Clara exercia as suas funções com muito zelo e competência no Hospital daquela cidade e reataram-se os contactos, não constantes, mas normais com os amigos. Maria Clara pensava comprar casa própria, mas enquanto isso não se concretizava, continuaria na casa dos amigos de seus pais. E dava jeito, porque havia lá uma senhora doente e idosa que precisava de cuidados de enfermagem e a quem a Maria Clara dedicava estremo carinho. Uma Enfermeira amorosa a inspirar muita simpatia e admiração em todos que a conheciam de perto!...
- Num Domingo, em que foram almoçar fora, comendo perfeitamente à mesa, ninguém diria que o Augusto Manuel era cego. Alexandra, distanciando-se um pouco dele, confidenciou à amiga:
- O teu irmão escreveu-me…
- Ai, sim? Fico contente com a notícia. Não é por ser meu irmão, mas ele é muito bom rapaz e tem um futuro promissor. Agora meteu-se também na política. Há-de ir longe com a sua tendência para fazer discursos. E se arranjássemos tudo… entre amigos, seria o ideal, não achas?
- Não sei. Mas vou responder-lhe num destes dias. Será que os teus pais me verão e ao meu irmão, com bons olhos?
- Os meus pais gostaram de vós e terão de aceitar as preferências dos filhos. Eles respeitam muito o meu irmão, por ser mais velho, homem e já Advogado, ditando leis… Estou confiante que há-de conseguir mentalizá-los, no sentido de se associarem à nossa felicidade e ao nosso destino, marcado por Deus.
Deixa lá, Alexandra, que o meu irmão encarregar-se – à de encaminhar as coisas. Os meus pais são pessoas simples da aldeia, compreensivos e pouco ambiciosos. Considero isto uma fronteira que temos de ultrapassar ou, antes, uma pequena aresta fácil de limar. E se necessário falo com o meu padrinho que é muito lá de casa e bastante meu amigo. Anda, vamos para a mesa, que o Augusto Manuel há-de pensar que o abandonámos.
Sem novidade de maior, as coisas iam correndo normalmente, até que Alexandra, após ter terminado o seu curso em psicologia clínica em Coimbra, aceitou a proposta de Henrique para irem trocando ideias, mas dizendo-lhe sempre que não gostaria de sair de Aveiro, terra muito bonita e a quem chamam: Veneza de Portugal.
No ano seguinte e pela Páscoa, o Henrique que veio passar uns dias na terra e lá se juntou com a irmã, decidiu ter uma conversa séria com os pais, sobre o futuro da irmã e também do seu.
E foi numa hora em que a mãe estando só e tratava de confeccionar o jantar, que ele iniciou o diálogo com ele:
Então, mãe, os pais já se conformaram com a previsão do casamento da Maria Clara, com o Augusto Manuel?
- Ai, filho, eu já não me importa, porque vejo a tua irmã sempre triste e sem gosto nenhum pela vida. Mas o teu pai é que está muito renitente, Tenho-lhe feito ver certas coisas e ele não aceita os meus conselhos. Diz-me sempre que eu sou parva e não quero o bem da filha. Tens de ser tu a ver se consegues demovê-lo a admitir, e à boa monte, que ela realize o seu sonho. O rapaz até parece digno, porque afirma não querer casar com ela, sem que nós abençoemos a união.
- O Pai, sabendo que ela tem já 24 anos, um curso que tirou com distinção, e, até hoje, um comportamento irrepreensível, deverá pensar também que ela merece ser feliz. Tal como já vos disse, penso casar com a irmã dele, caso ela não se enfade com as vossas esquisitices… Ando com muito receio.
- Eu volto a falar ao teu pai, mas tens de dar uma ajuda, sei que ele te respeita muito.
Vendo o caso neste pé, e desejando alegrar a irmã, o Henrique no dia seguinte convidou o pai para um pequeno passeio de automóvel, com o fim de persuadi-lo a condescender aos anseios da filha, - exclamando no fim do “sermão”…
- Amanhã vou a Aveiro levar a Maria Clara, e o pai vai connosco para combinar-se o enlace. Estou ansioso para ver lá em casa mais alegria e os netos, correndo atrás de si, a chamarem-lhe avô…
- Dizes bem, Henrique! Esta vida é dois dias. Temos que sabê-los viver. Amanhã vamos a Aveiro.
Ainda nessa noite o Sr. Américo contou à D. Carolina a conversação havida entre eles. Como o Henrique tinha de ir lá levar a Maria Clara, o pai aproveitaria e para ir também e passariam todos pela casa do Augusto Manuel e da Alexandra.
- Se quiseres podes ir connosco – disse-lhe o marido.
- Não, homem, deslinda tu as coisas, que eu tenho cá que fazer… Além disso, sinto-me um bocadinho comprometida, também.
Tal como haviam, projectado, no outro dia de manhã seguiram todos três com destino à cidade de Aveiro. A Maria Clara não sabia de nada e ficou surpreendida ao ver o carro parar em frente da casa dos seus amigos.
Neste preciso momento ia a sair a Alexandra, que ficou também admirada de ver ali àquela hora o Henrique, a irmã e o pai, tendo aquele explicado, após os cumprimentos:
- Viemos trazer a minha irmã, aproveitando para te ver e despedir-me de ti, sendo que tenho de partir amanhã para o Porto.
- Entrem para conversarmos um pouco. Eu ia a sair, mas vou mais logo. A Maria Clara vai estar caladinha… para fazermos uma surpresa ao meu irmão. Está bem?
Conduzidos ao escritório, onde o Augusto Manuel já trabalhava, a Alexandra referiu:
- Temos aqui visitas! Pára com isso, que é o Henrique e o pai. Imediatamente o Augusto Manuel se voltou para os cumprimentar, com um sorriso nos lábios, sem se esquecer de perguntar por D. Carolina, D. Albertina e Maria Clara.
- Estão todas bem, obrigado. Mas não tem falado com a minha filha? – Interrogou o Sr. Américo.
- Não muito – respondeu o Augusto – um pouco a medo…
- Ah, mas vão começar a falar mais, É por isso que estou aqui hoje. E cumprimentem-se, quea Maria Clara está presente, desejando dar-lhe um carinhoso abraço. E pode ela, quando quiser, marcar a data do casamento. Como está munida de carta de condução, a sua prenda será um automóvel.
- Bem-haja, Sr. Américo, pela feliz comunicação que nos deu – disse o Augusto Manuel, abraçando com muito entusiasmo o futuro sobre e a sua amada.
- Não tem nada que agradecer. Que Deus vos faça felizes.
Depois de irem ver o quintal, e com todos à porta, o Henrique convidou a Alexandra e o irmão para irem ao Café, que havia em frente, tomar uma bebida à saúde dos futuros noivos: Maria Clara e Augusto Manuel.
Maria Clara, muito satisfeita e reconhecida ao pai, disse que ficava ali mais uns instantes. Depois iria a pé, já directa para o Hospital. Ao despedir-se de Alexandra e do Augusto Manuel, – volveu sorrindo:
- Vêem como tudo terminou em bem? O que é preciso é esperar-se com calma. O meu pai, no fundo, é bom. Temos é que andar-lhe ao jeito. No Domingo, de tarde, apareço por aqui. Há agora muito que falar…
Alexandra lembrou já:
- A nossa casa é enorme. De princípio ficam a morar connosco.
Américo dos Santos saiu dali com a consciência em paz e boas impressões daquela família. Com que ia, muito em breve, entrelaçar-se.
Afinal, a deficiência do rapaz até pouco se notava. Lá em casa e em conversa com a D. Carolina, explicava:
- Aquilo é gente fina, mulher e com boa formação Católica. Reparei nisso… A casa é um assombro, fazendo parte um grande quintal cheio de árvores de fruto e jardim. Sempre muito amáveis, fizeram questão de me mostrar tudo. O Augusto Manuel caminhava à minha frente como um “sargento”… Se visses, tem lá um escritório que manda ventarolas, com poltronas e tudo! Sentado ali, até parecia um Ministro! Olha, se eu não levo a roupa do Domingo?!
- O que me interessa agora, é que eles se compreendam bem – atalhou a D. Carolina, também satisfeita com o que acabava de ouvir, mas receosa porque as uniões actuais não são firmes como dantes.
Mas vivia nela uma certa esperança, porque a sua filha iria fazer um casamento alicerçado por um grande Amor, entre duas famílias de princípios cristãos. Virtudes imprescindíveis para que Deus abençoasse o matrimónio, tornando-o feliz e para sempre.
Daí a três meses já se falava nos preparativos do matrimónio, que a Maria Clara marcou para o dia dos anos do seu noivo.
Entre eles sempre existiram maneiras de delicadeza, pelo que estava a ser difícil o tratamento menos cerimonioso. Mas tinham que mudar, e foi o Augusto Manuel que tomou essa iniciativa, expressando-se com um terno sorriso, numa tarde em que estavam os dois sentados num banco do jardim:
- Mas porque não marcaste o dia mais feliz da nossa vida, para a data do teu aniversário, Maria Clara?
Porque gosto mais que seja no dia dos teus anos – 12 de Maio. É a um Domingo e tempo em que o nosso quintal estará mais florido e perfumado, meu amor! Depois, sempre que surja esse dia, em nossa casa há festa redobrada, percebes?
- Bem hajas, minha querida, por esta gentilíssima homenagem que quiseste prestar-me. Com tanta felicidade, até me esqueço que te não vejo, Ah, mas sinto-te dentro de mim e fixo-te bem com os olhos da alma…
- Deixa-me ver as tuas mãos, Augusto Manuel. Com elas modela o meu rosto e passa os dedos pelos meus cabelos…
- É oval o teu rosto lindo, não é Maria Clara? E os cabelos são longos e ondulados! Não são?
- Acertaste! Mas agora tens que adivinhar a cor deles?!...
- Talvez castanho claro, como os de Nossa Senhora!
- És bruxo ou a Alexandra te contou?
- Sou bruxo para te encantar!...
- Ora escuta: não ouves os passarinhos a cantar, Augusto Manuel?
- Ouço, sim, Maria Clara. Estão em alegre chilreio, como que a querem ouvir também um beijinho nosso…
Maria Clara, tomando a iniciativa de beijá-lo na testa, os passarinhos chilrearam muito mais!
- Vês, como era isso que eles queriam? – Volveu – muito contente, o Augusto Manuel.
E era verdade. Naquele local de sonho, cheio de árvores, até os passarinhos se associavam à doce alegria, saltando e cantando na ramada, perante aquele par enamorado de felicidade.
Aproximando-se o dia do matrimónio, a Maria Clara lembrou para que fosse realizado na Capelinha de Santo António da sua aldeia e o mais simples possível, convidando apenas a família mais próxima, os padrinhos e alguns amigos íntimos. Não receberia muitas prendas, mas eles comprariam o que fosse necessário. Por enquanto ficariam a viver ali e até que a Maria Clara possuísse a nova moradia, que pensava em adquirir.
 
No dia do casamento, o Henrique ficando na mesa ao lado de Alexandra, deu è namorada algumas boas notícias:
- No próximo ano, Alexandra, conforme solicitei, vou ser transferido para os Serviços Notariais de Aveiro. Ficas contente?
- Claro, que fico. Sempre te disse que não gostaria de sair da minha terra Natal, onde tenho casa, a família também e a minha carreira iniciada.
- Quis dar-te a boa nova em primeira-mão, pois os meus pais ainda não sabem. Quando eu lhe disser, vão ficar muito satisfeitos, por terem os filhos aqui perto. Ando também a pensar em comprar uma moradia nova para vivermos. Já escolhi um sítio bonito, mas, por enquanto, é segredo… A minha irmã traz igualmente vontade de adquirir uma, mas acho que devem ficar depois com a vossa, que é muito boa e está bem situada. O teu irmão está ali habituado e poderá custar-lhe mudar de ambiente.
- Com tantas e tão boas notícias, recebidas hoje, é que não esperava, Henrique…
- Mas falta ainda o melhor, que irá surgir logo após estar em Aveiro e termos a casa nova!
- Já sei o que é… - A nossa feliz união – abençoada por Deus!
- Adivinhaste, Alexandra!
Passados dez meses nascia de Maria Clara, um lindo e robusto rapaz que veio completar a alegria do lar e da família toda. Os avós, Carolina e Américo deliraram de satisfação e logo disseram que queriam mais netos. A criança era sã e deveras encantadora! Alexandra foi quem escolheu o nome. Iria chamar-se Pe3dro Manuel. Maria Clara e o Augusto Manuel escolheram os padrinhos que seriam, naturalmente, a Alexandra e o Henrique, que ficam loucos de contentamento e começaram a dar-lhe prendinhas de ouro.
Lá em casa, incluindo a Rosa e a tia Idalina, todos queriam andar com ele ao colo! Parecia o menino nas mãos das bruxas… Até o pai, que ambicionava muito que o primeiro filho fosse um rapaz, não se cansava de pedir:
- Maria Clara deixa-me pegar-lhe um bocadinho!
- Vá toma-o lá, mas senta-te – dizia-lhe ela.
- Assim, ele chora; vês, Maria Clara?
- Mas não se pode habituar a que andemos sempre com ele de um lado para o outro. Ele é muito fino… só quer que o balancem…
- É esperto como o pai, porque segundo me disse a Rosa, também eu, quando era assim pequenino, exigia o colinho. E se não me faziam a vontade, rabujava muito
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14.10.09

 

 

MURMÚRIOS DO CEIRA

 

VIII

 

ENLEVOS DE AMOR

 

 

Um bom livro educa e civiliza qualquer pessoa. C.B.S.

 

 

 

 

Nos subúrbios duma pequena vila beiroa, habitava na bonita vivenda “Margarida”o senhor José Martins Gouveia, de 75 anos de idade, acompanhado apenas da sua antiga empregada Elvira que, por ser muito dedicada ao seu amo, nunca o quis deixar só.

Quando, há cerca de 15 anos, a D. Margarida Gouveia faleceu, esta, pressentindo o seu fim, pediu à Elvira, (que nunca se quis casar) que tomasse conta do seu marido que ficava quase só no mundo, pois o único filho do casal havia falecido muito jovem, num desastre de viação.

Logo após a perda da esposa, o senhor Gouveia, que fora um conceituado lavrador, resolveu vender todas as propriedades e ficar apenas com a casa e quintal à volta. A Elvira, que tinha menos 15 anos do que ele, também aprovou a ideia – dizendo:

- O quintal chega para nós. Olhe senhor Gouveia, em morrendo o “tio Zé Carlos”, não há ninguém quem cuide do quintal e do jardim.

- Dizes bem, Elvira, foi a melhor coisa que fiz. Trabalhei tanto para juntar alguns haveres e não

Tenho a quem os deixe, ou melhor, quem os mereça.

- Tem os seus sobrinhos, que não vão deixar de aceitar a herança…

Sim, logo aparecem para tratar do funeral e habilitarem-se como herdeiros… Eu sei. Mas olha, Elvira, a família não existe só para sucessão de bens, mas mormente também para apoio, arrimo solidário na doença e convívio fraterno etc. etc. Infelizmente nada disso acontece comigo; bem sabes.

- É verdade, senhor Gouveia. Mas é assim a vida moderna. Hoje nem os próprios filhos pensam em acompanhar devidamente os pais na sua velhice. Arrumam com eles para os Lares e que lá se amanhem…

Quando vou à vila gosto de visitar a minha prima Noémia que está no Lar e bem vejo a lamúria e tristeza de muitos, que é de fazer chorar as pedras!

Estas duas pessoas vivivam e estimavam-se como irmãos. Ele sempre a respeitou, até porque sabia que a Elvira era uma mulher honesta e crente. Viviam como Deus com os Anjos. Um amparo mútuo, Amigo e sério, de fazer inveja aos verdadeiros santos. Anos antes o senhor Gouveia ainda pensou em casar com ela, por causa das línguas do mundo e até para deixar parte da sua pensão de reforma. Só que ela logo lhe disse e de maneira muito expedita e desinteressada:

- Pense melhor, senhor Gouveia. Qualquer de nós já não está em idade de bodas… nem proclamas de banhos na Igreja. Distraia-se com os versos, que eu cuido da casa e deixe falar quem fala. A reforma também não é lá grande coisa… O mais importante é que cumpramos com os nossos deveres de Cristãos autênticos.

O leitor ainda não sabe, mas O Senhor Gouveia era poeta. Nunca quis manifestar bem a sua inclinação, mas é evidente que, desde novo, ocupou os seus tempos livres a fazer versos. Fez mesmo algumas letras para marchas e ranchos folclóricos da vila e tinha até um certo dedo para a música. Lia muita prosa, mas gostava mais de poesia. Sempre que ia á vila nunca se esquecia de trazer um bom livro clássico para ler, e a Elvira, com vontade de se ilustrar, lia também.

Tinha ele uma gaveta cheia de produções suas, algumas que havia dedicado à sua finada esposa e ao filho João, que Deus lá tinha.

Ainda hoje a poesia é o seu passatempo favorito, gostando de transmitir para o papel os estados sentimentais da sua alma. A Elvira sabe pouco de poesia, mas gosta de o ouvir declamar os poemas que ele faz com muito gosto e inspiração.

Há dias saiu-se a Elvira, com esta:

- Por que é que o senhor Gouveia não reúne todos os seus versos num livro? Tem poemas tão bonitos que as pessoas gostavam de ver. Aquele soneto. “O CANTAR DA ÀRVORE”, que escreveu há dias, ficou um espanto! Chamam-lhe, às vezes, “poeta popular” porque mal conhecem os seus escritos, apenas sabendo de alguns que faz de improviso. Não publica nada.

- Escuta, Elvira: Eu até gosto que me chamem “poeta popular”. Significa que canto para o povo e de maneira que o povo me entenda, percebes? Não vou importar-me com isso, até por que já vi rotular de “poetas populares” grandes e muitos distintos poetas portugueses, nomeadamente António Aleixo a quem alguns dos famosos não lhes chegam às barbas…

- Santa ignorância chama-se isso, porque “poetas populares”, ou lá o que é, atribuem-se às vezes, de forma humilhante e hostil àqueles que fazem uns versos poucos inspirados, sem métrica nem nada, o que não é o caso do senhor Gouveia, Bagagem de conhecimentos tem muita, mas falta-lhe nome, o que é, por vezes, bem difícil de conseguir, Mas repare, senhor Gouveia, há quem arranje um nome bem sonante, fazendo poesias que ninguém compreende. Por exemplo: eu não entendo aonde se encontra a arte e o interesse destes versos que, como diz o autor, estão fora do seu ritmo:

Há mais de meia hora

Que estou sentado à secretária

Com o único intuito

De olhar para ela.

(Estes versos estão fora do meu ritmo.

Eu também estou fora dó meu ritmo).

Tinteiro grande à frente.

Canetas com aparos novos à frente.

Mais para cá papel muito limpo.

Ao lado esquerdo um volume da “Enciclopédia Britânica”.

Ao lado direito –

Ah, ao lado direito!

A faca de papel com que ontem

Não tive paciência para abrir completamente

O livro que me interessava e não lerei.

Quem pudesse sintonizar isto!

- Não entendes, mas entende quem os escreveu, talvez só para si… Tens razão ninguém ousaria chamar “poeta popular” a Fernando Pessoa, autor do referido texto, que não tem nada de especial e nem de poético. Aqui, que ele não nos ouve, também não me agrada este género de poemas. Sim, mas ele tem coisas um bocadinho melhores. A “Mensagem” é uma obra muito conhecida e, até, há quem julgue Fernando Pessoa, o melhor poeta de todos os tempos.

- Talvez, senhor Gouveia, mas eu gosto mais dos seus poemas, que são transparentes como a +agua cristalina dos ribeiros. Lembram mesmo as poesias que dantes vinham nos livros de leitura, feitas por grandes mestres.

-, Grato, Elvira, pelo teu amável elogio, Daqui a pouco percebes mais do que eu. Estou admirado, já falas em métrica e tudo…

- Sim, já sei que as quadras populares têm de ter sete sílabas, senão ficam coxas e não soam bem ao ouvido.

A vida ia decorrendo calma, até que algum tempo depois, Deus chamou o senhor Gouveia à sua presença, comparecendo imediatamente na casa os três sobrinhos. Ao abrirem o cofre encontraram uma linda caixa prateada, que abriram logo, pensando talvez, tratar-se de alguma colecção de jóias. Mas não. Eram preciosamente versos que ele mais gostava e havia guardado ali, com muito carinho.

Um dos sobrinhos, decepcionado, quando viu do que se tratava, passou a caixa para a mão da Elvira, dizendo de modo aborrecido:

- São as cantilenas do meu tio. Atire com elas para o lixo…

A Elvira, em vez de jogar fora a caixinha, foi guardá-la na sua mala, como saudosa relíquia do seu amo e até chorou de comoção, por ver a falta de apreço que tinham por coisas que o tio estimava tanto.

Dias depois, e já com calma, a Elvira tornou a abrir a caixa dos versos e deu lá com um envelope lacrado, que4 continha no exterior o seu nome. Surpreendida, abri-o e logo encontrou duas folhas de papel escritas, sendo uma em verso e outra em prosa. Primeiramente leu a folha em prosa, que dizia:

Elvira

Fiz testamento Notarial em Abril. Cópia do documento fica no cofre. A casa e recheio são para ti enquanto viveres, e ainda algum dinheiro. Contemplei algumas Instituições Sociais. A Biblioteca fica para a Câmara Municipal, mas após a tua morte. Os meus sobrinhos herdarão um dia a casa quando a deixares, Isto como saudoso preito a minha irmã, de quem fui sempre muito amigo.

Grato por tudo

José Martins Gouveia

Seguidamente e comovidíssima a Elvira leu a folha em verso, reparando que era um soneto ao qual ele pôs o título:

ENLEVOS DE AMOR

Quando eu morrer, Elvira, o que escrevi

E guardei nesta caixa de segredos,

Versos arrumadinhos, por meus dedos,

Não tendo a quem os dar… São para ti.

São memórias dos anos que vivi,

Meus Enlevos de Amor, dos dias ledos,

Tantos que fiz à sombra de arvoredos.

Lembrando a esposa e filho que perdi.

Guarda-os, Elvira, bem no teu poder;

Não tenho mais a quem os oferecer,

Nem que deite, por eles, um olhar!...

Um dia seguirás este caminho.

Mas antes, minha “irmã”, põe de mansinho

Todos os meus poemas a voar!

Muito sensibilizada, a Elvira, com as lágrimas nos olhos, decidiu não revelar a ninguém o que a caixa continha de misterioso… Foi depois ao cofre, mas não encontrou a cópia do testamento. Deduziu que os sobrinhos a sacaram com o fim de se habilitarem como herdeiros universais… Sim, eles ainda pensaram nisso, mas de nada valeu, porque outra cópia autenticada estava nas mãos de um Advogado, que logo legitimou o assunto nos serviços Notariais e Finanças.

A Elvira, ao ler toda a poesia do seu amo, decidiu tornar público o importante espólio poético do senhor Gouveia. Em sua saudosa memória, mandou editar um livro de poemas, quase todos sonetos, ao qual pôs o título “ENLEVOS DE AMOR”, exactamente o nome que ele dera ao soneto que lhe dedicou.

O nome de JOSÉ MARTINS GOUVEIA iria ficar na História das Letras Portuguesas, graças à Elvira, que foi muito louvada por este honroso gesto. E o livro agradou de tal maneira ao público que a obra de mil exemplares, em três meses, se esgotou. Uma considerada Editora tratou depois de uma 2ª Edição.

Eis uma simples história, que poderá talvez, ter algo de realidade.

 

 

 

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12.10.09

 

 

MURMÚRIOS DO CEIRA

 

IX

 

O ZÉ PEQUENO

 

Ninguém será pequeno no mundo, se desejar ser grande. C.B.S.

 

 

 

Chamavam-lhe o Zé Pequeno, mas o seu verdadeiro nome era José Francisco da Silva Fernandes

E morava na aldeia de Folgoselha, pertencente a um concelho da Beira Alta.

Sendo o mais novo de três irmãos e de estatura baixa, viveu sempre numa terra pouco povoada, com difíceis meios de comunicação rodoviária e sem uma Escola de Instrução Primária. Os seus irmãos, cedo abalaram para Lisboa e lá aprenderam o que a sua terra Natal não lhes pôde oferecer: - Instrução!

Os pais eram modestos agricultores, porquanto o filho mais novo ficou para ampará-los e ajudá-los na lida do campo. Mas o pequeno era fraco.

Tinham muitos animais, de que o Zé gostava imenso. Destes fazia parte um rebanho de cabras e ovelhas que todos os dias o Zé Pequeno levava a pastar para o monte. Era um zagal muito alegre e divertido, e ainda com uma certa habilidade para fazer flautas e assobios. Muitas das vezes quando tocava e cantava, o gado, junto dele, até pulava, como que a fazer ensaios de dança!...

Chegado aos vinte anos o Zé Pequeno foi às sortes, mas ficou livre do serviço militar por ser um pouco raquítico, baixo e um nada corcunda. No entanto. Ninguém diria que era um rapaz muito inteligente e com vontade de saber e fazer tudo.

Chegou a namorar, com muito entusiasmo, uma moça sua vizinha, que um dia saiu da aldeia e foi servir para o Porto e por lá ficou, casando e esquecendo o pastor apaixonado, que morria de amores por ela.

Durante muitos anos, ninguém mais o ouviu cantar e tocar na sua flauta, pelo que até o rebanho estranhou a tristeza do pastor e os garotos lhe perguntavam:

- Zé Pequeno, porque não toca na sua flauta?

- Porque não me apetece, – dizia-lhes com voz magoada e triste.

Mais tarde, e após a morte dos seus pais, ficou sem ninguém. Uma tia materna veio ainda viver algum tempo com êle, mas também chegou o dia de partir para a Eternidade, de maneira que o Zé Pequeno teve de ficar só e desamparado, apenas com os animais que tratava e estimava como irmãos. Tinha também um cãozinho que o acompanhava sempre. Alguns familiares, que viviam lá por Lisboa, nem dele se lembravam já… Pobre Zé Pequeno!

Aos cinquenta e cinco anos continuava a pastorear no campo e por lá ficava a tarde toda, levando uma merenda que, muitas vezes, repartia com as mansas ovelhas e cabras. Em dada altura, e porque os cabritinhos a saltar o faziam sorrir, começou novamente a ser uma pessoa alegre e bem disposta. Entretinha-se a fazer flautas e assobios para os miúdos da aldeia, que não o deixavam em paz.

Entre o rapazio da terra, havia um chamado Armando, de quem o Zé Pequeno muito gostava e atraí-o para que lhe fizesse companhia, O Armandito, de nove anos, frequentava a Escola Primária que nesse tempo já havia com professora da cidade. Hoje manifesta-se um contraste flagrante: as velhas Escolas das aldeias vão encerrando por falta de alunos… Por isso, a Natureza, vestida de verde-escuro, chora com pena e os passarinhos entoam elegias, voando de ramo em ramo!

Todas as tardes o Armando, que já frequentava a 3ª classe, pedia aos pais e ia estudar para junto do Zé Pequeno, guiando o rebanho agora para o cimo da encosta, porque as terras do vale estavam lavradas.

O pequeno Armando sentava-se numa lousa e com outra a servir de mesa, ali fazia os seus deveres, olhando de vez em quando para os cabritinhos aos saltos e para o seu amigo, entretido a arranjar flautas com um canivete. Este, dizia-lhe assim:

- Tenho muita pena de não saber ler para te dar umas lições e ajudar-te a fazer os trabalhos. Olha, empresta-me o teu livro de leitura. Pelo menos vou vendo as figuras, enquanto o canivete e as mãos descansam um pouco.

Num certo dia, e passado algum tempo, o Armando vira-se para ele e diz-lhe com ar muito sério:

- Quer que eu o ensine a ler, Sr. José Fernandes?

- Ai, se tu fosses capaz disso, dava-te aquela borreguinha preta que anda acolá em baixo a brincar… – respondeu o bom homem – todo entusiasmado.

- Vamos a isso, então! Amanhã trago-lhe o meu livro de leitura da primeira classe, que está ainda em muito bom estado, uma lousa pequena que lá tenho em casa, e ainda papel e um lápis para começar a aprender a lição… Mas isto tem de ser muito em segredo, está bem?

- Sim, Armando… Todos os dias os dois companheiros se escondiam, cada vez mais, por detrás das moitas e pinheiros, para que não fossem vistos por alguém do povoado e nem sonhassem o que se estava a passar lá no monte.

O Armando andava satisfeito com o seu aluno, que já conhecia as letras todas do alfabeto. Ao iniciar a tarefa de juntá-las, foi um sucesso enorme! No espaço de dois meses, pôs o Zé Pequeno a ler e a escrever regularmente.

Daí a um tempo – disse-lhe o Armando:

- Agora vou ensiná-lo a fazer algarismos e a contar até mil.

- A contar não me ensinas tu, Armando. Sei contar até um milhão e fazer contas de cabeça…

- Óptimo! Assim custa menos a aprender e vossemecê, com tanta força de vontade, em breve saberá resolver uma conta e problemas com um lápis.

E assim foi, realmente. O pior é que os pais do Armando começaram a notar que ele se demorava agora mais a fazer os deveres… Mas, como a senhora Professora lhes disse que ele ia muito bem nos estudos, não lhe ralharam muito..

Numa tarde, o Armando falou assim ao Zé Pequeno:

- Já sabe o bastante para andar como eu na terceira classe. Se quiser pode depois continuar os estudos para fazer a 4ª classe no Curso de Adultos, que é muito mais fácil.

- Que bom! Nesse dia faremos uma patuscada e levas a ovelhinha preta, que te prometi.

O Zé Pequeno tinha já cinquenta e seis anos e vivia agora muito mais feliz, lendo o jornal da vila e andando a par de todos os acontecimentos, graças ao Armando que fez dele um discípulo muito querido e aplicado.

No ano seguinte, prestes a chegar o tempo das férias, o Armando, que andava também radiante com o progresso do seu aluno – disse na Escola à senhora Professora:

- O senhor José Fernandes quer fazer o exame no Curso dos Adultos.

Muito admirada, a professora – perguntou:

- Mas olha, lá. O Sr. José Fernandes não é analfabeto?

- Era, mas já não é, minha senhora! Sabe? Ele é muito inteligente, e como tinha grande força de vontade em aprender, do pouco que eu sabia, fui-lhe e3nsinando, e agora penso que já sabe o suficiente para a prova do exame.

- Bravo, Armando! Amanhã traz-me cá o teu amigo, que eu quero examiná-lo, afim de inteirar-me dos seus conhecimentos.

Ao outro dia, o Zé Pequeno “fez-se grande”, vestiu a sua melhor roupa e foi com o Armando às Escola, na parte da tarde.

Primeiro fez um ditado, que foi magnífico e sem erros, maravilhando a senhora Professora. Depois, perante o seu desembaraço na quadro a fazer as contas e problemas, a senhora Dona Graça Maria surpreendeu-se com o que ele já sabia de toda a matéria e explicou, então, que ia propô-lo sem medo para muito em breve efectuar a prova da 4ª classe. Naquele momento, ela não se conteve e beijou com muito carinho o Armando, que foi também elogiado, naturalmente, por todos os que o conheciam.

Até o Sr. Inspector veio propositadamente assistir ao brilhante exame, trazendo para o Armando uma lembrança e uma linda medalha de prata, por ter sido capaz de fazer com que o Sr. José Fernandes não fosse mais analfabeto e vivesse na sua terra, com maior satisfação.

Os pais do Armando eram relativamente pobres, mas o Sr. Inspector prometeu ajudá-los para que o filho pudesse continuar os estudos e, quem sabe, vir a ser um bom Professor do Ensino Básico ou até Secundário.

O Sr. João Antunes e a senhora Maria do Rosário não cabiam em si de contentes, por verem o filho tão enaltecido e transformado em herói na sua terra… e exclamavam:

- Louvado seja Deus pela graça e imensa alegria que nos deu, por vermos o Zé Pequeno munido da carta de exame e o nosso Armando condecorado com uma linda medalha de prata!

Daí a alguns dias, houve quem visse o Armando, radiante de felicidade, levando a sua borreguinha preta, nas costas, que o Zé Pequeno lhe tinha oferecido de recompensa e cantarolava assim:

Borreguinha preta

vem pró meu curral,

que o “ti” Zé Pequeno

já lê o jornal!

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8.10.09

MURMÚRIOS DO CEIRA

 

X

 

A ÚLTIMA CARTA DA MÃE

 

Cuidar dos seus pais, é estar já a cuidar de si. C.B.S.

 

 

 

 

Há muitos anos que a “tia” Rita Manuela não recebia notícias do Canadá. No entanto, escrevia várias vezes por ano ao seu único filho que ali vivia sem se lembrar da mãe que o dera à luz e o havia criado até aos dezoito anos, à custa de muitas canseiras e sacrifícios.

A “tia” Rita Manuela era solteira e tivera aquele filho de um mariola qualquer que a seduziu e faltou à promessa de casamento, Todavia, nunca mais deu que falar na sua terra, trabalhando com muita honestidade, ao dia fora, para se sustentar e sustentar o seu filhinho, que era todo o seu enlevo!

Um menino belo e, por acaso, muito parecido com o pai que casou depois em Lisboa e não teve filho algum da mulher que escolheu para sua esposa. Desgostoso, ainda tentou, por “portas travessas”, obter permissão da Rita para que lhe desse a criança, o que ela recusou terminantemente…

O Carlos Manuel fez na vila o exame da 4ª classe com distinção; tinha até uma letra muito perfeita.

Durante uns dez anos ainda escreveu regularmente. Depois casou, vieram os filhos e o rapaz começou a esquecer-se da sua terra e nunca mais escreveu à desolada mãe…

Constava na aldeia do Carvalhal que a fortuna lhe sorrira e que ainda era vivo naquelas paragens. Estas informações eram também confirmadas pelas cartas que seguiam com remetente e não voltavam devolvidas.

A “tia” Rita Manuela, que tinha agora 72 anos, tornou-se muito doente, valendo-lhe a prestimosa caridade dos vizinhos e a pequena pensão de reforma que recebia da Segurança Social; muito lúcida e inteligente, mandava ainda cartas interessantes ao seu filho, escritas por sua mão. Já um bocadinho trémula…

É uma destas cartas, a última infelizmente, que transcrevemos aqui, com muita ternura e sentimento.

“Meu querido e saudoso filho

Não sei se te recordas de mim! Eu sou a tua mãe, a “tia” Rita Manuela que há mais de vinte anos te escreve várias cartas por ano, sem que tenha a alegria de receber uma simples letra tua.

Como deves saber, é sempre pelo Natal, pelo Ano Novo, pela Páscoa e pelo dia dos teus anos que te mando missivas, todas elas recheadas de Saudades. Tenho já 72 anos, feitos no dia de S. Brás e penso não completar mais nenhum. Tu, se Deus quiser, irás fazer cinquenta no dia de S. Miguel Arcanjo.

Guardo bem na lembrança esse dia memorável do teu nascimento. Os meus pais tinham-me posto fora de casa e recolheu-me a avó Alzira, que era uma santa criatura e nos dedicava um grande afecto.

Criei-te sem vergonha do mundo, mas com muitas dificuldades. Fominha não passaste, graças a Deus e às boas almas que nos ajudaram. Se chorei lágrimas de dor para que medrasses como os outros meninos, ainda hoje não me importaria de passar pelos mesmos trabalhos para ter a felicidade de estar junto de ti, outros dezoito anos. Tu és pai também! Pelo amor que dedicas aos teus filhos, poderás medir o sentimento de afecto que te consagro, não obstante estar separado de ti há trinta e dois anos! Deus queira que jamais notes a falta da estima deles. Seria muito penoso para ti.

Vou recordar uma cantiga que ouvia muito na minha mocidade e merece a reflexão do espírito:

Pode um filho estar ausente/ Que a mãe, na sua afeição/ A toda a hora o pressente/ Dentro do seu coração.

Vivo modestamente, mas consola-me saber que não passas as mesmas privações. Ainda ontem fui ao médico e vi-me atrapalhada, porque o dinheiro não chegava para comprar os remédios na farmácia. Os medicamentos em Portugal sobem todos os dias e ninguém se compadece… Mas não te comovas! Eu fico alegre em saber que vives numa terra progressiva do Canadá e não numa aldeia deserta de Portugal, onde até as pedras choram a desgraça dos velhotes como eu!...

O Zé da Filomena, que veio daí o ano passado, disse-me que estás gordo e bonito! Todos os dias te responso ao Santo Antoninho para que te proteja. Como gostava de te ver, Carlos Manuel! Que Saudades, meu Deus, que Saudades! E os meus netinhos como vão? Ouvi dizer que o mais velho já casou e tem uma menina encantadora! Como deves estar contente, vendo a família a multiplicar-se.

Apesar da lonjura que nos separa, sinto uma enorme alegria também quando comunico contigo por este meio que possuo para te manifestar o meu grande amor de mãe!

Esta, será de todas, a carta mais triste e sentimental que te escrevo, porque pressinto seja a última, meu filho! Noto agora muita falta de forças e o médico engelhou bastante o nariz ontem na consulta, E que ando eu cá a fazer neste vale de lágrimas? Perdoa, se te entristeço, mas o mundo já me não dá uma réstia de esperança!

Sabes? O tio Jorge faleceu o mês passado com uma doença terrível! Que Deus o tenha a seu lado. Foi sempre muito nosso amigo. Ainda tenho aquele banco que ele te ensinou a fazer com muita paciência. Lembras-te?

Ao despedir-me, quem sabe se para sempre, envio mil beijinhos ternos para os meus netos, um abraço à tua esposa que não cheguei a conhecer. Para ti, meu rico filho, vai um especial chi-coração, igual aos que me deste e eu te dei na tua infância querida. Que Deus te cubra de bênçãos.

Adeus, meu Amor! Tua mãe, muito amiga

Rita Manuela”

No dia de Páscoa, muitas foram as pessoas que viram estacionar um bonito e luxuoso automóvel, verde-escuro, junto à casa da “tia” Rita Manuela e um senhor de meia idade a bater à porta…

Um moço que passava – perguntou: -O Senhor queria alguma coisa? A “tia” Rita Manuela enterrou-se ontem. Sobre a sua campa estão ainda as rosas frescas. Toda a gente do Carvalhal teve muita pena dela. Era uma santa!

O cavalheiro, depois de agradecer a informação, retirou-se tristemente e as pessoas na rua se4guiram-no com olhar curioso, reparando que ele se dirigia para o cemitério do povoado.

Era ele, o Carlos Manuel que saíra da aldeia há mais de trinta anos. Já não conhecia ninguém, e também, naquele momento de desânimo, não quis dar-se a conhecer…

Pelas flores, ainda lindas, logo descobriu a sepultura de sua mãe! O Carlos Manuel vinha para a abraçar neste Domingo de Páscoa, mas já não chegou a tempo…

Alguém encostado ao portão do cemitério, ouviu pronunciar-lhe estas frases, num tom bastante magoado:

- Perdoa-me, minha mãe! Perdoa-me, minha mãe!

……………………….

Tu, que és filho ou filha, aproveita, como Deus manda, todas as horas da vida, para honrar, acarinhar e amparar na velhice os teus progenitores. Antes que seja tarde demais, manifesta-lhes sempre a devida gratidão, reflectindo nestas palavras da Bíblia:

“Honra os teus pais de todo o teu coração. Não esqueças os gemidos da tua mãe. Lembra-te que não terias nascido sem eles. E como lhes pagarás o que por ti fizeram? Ecle.7 – 27.28.”

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6.10.09

 

 

 

MURMÚRTIOS DO CEIRA

 

XI

 

A ROSA MARIA

 

A adversidade tem o efeito de desenvolver talentos, os quais, em circunstâncias prósperas,

nunca teriam acordado. Horácio

 

 

 

 

A “tia” Aurora, uma senhora viúva e doente do coração, de cinquenta e cinco anos de idade, morava nos arrabaldes duma vila Alentejana, com quatro netos pequenos.

Ficara adoentada e nervosa desde que o marido lhe morrera num desastre de viação e depois que a sua única filha – a Zulmira foi abandonada pelo marido, um bebedola refinado que lhe deixou ao encargo seis filhos menores para criar.

Também ela, um tanto desapurada no arranjo da casa e demonstrando um certo desprendimento pela família, logo deu a filha mais velha – a Celeste, a um casal que a levou para França.

A Zulmira trabalhava numa fábrica de confecções que, por deficiente orientação, foi levada à falência, tendo por isso ficado desempregada.

Numa tarde a “tia” Aurora ao chegar a casa, vinda do médico, ouviu da sua neta – Rosa Maria – esta triste história:

- A minha mãe abalou com o Lúcio e a Ana Rita. Veio aqui um homem de barbas, com automóvel e levou-os. Ficámos a chorar, mas a minha mãe disse que voltaria um dia para nos levar também.

Mas não aconteceu assim. No dia seguinte apareceu à porta de casa, choramingando, a Ana Rita que só tinha dois aninhos.

Depreendeu-se que o marmanjo do homem, com quem a Zulmira fugira, não quis a menina mais nova e vieram depois colocá-la ali para ser recolhida pela avó, que logo a acarinhou com beijos.

Decorridos são três anos desde que a Zulmira saiu de casa e lhe deixou ao seu cuidado estes quatro netos: Rosa Maria, João, Márcia e Ana Rita, agora com 12, 10, 7, e 5 anos de idade.

A “tia” Aurora, a braços com eles todos, chorava a sua desdita e quase os mandava ir pedir. Para sobrevivência da família, havia apenas a sua pensão de reforma de trinta mil escudos mensais e um pequeno subsídio que lhe dava a Assistente Social para os menores.

Hoje, o problema das crianças está mais suavizado com as Creches e Cantinas Escolares que abundam, graças a Deus, por essas terra além. Mas nesse tempo difícil, era assim o viver de muitas famílias.

Um chefe de uma Companhia de Circo pedira a Rosa, a troco de uma quantia atraente, mas a avó não aceitou a proposta, nem a menina queria separar-se dos manos e da avó. Preferia passar fome e andar mal vestida. A Rosa Maria, que até aprendia bem, concluindo o ensino primário, parou de estudar e disse à avó:

- Vou ver se arranjo um trabalhito qualquer para ajudar à despesa da casa. E quem sabe se, mais tarde, poderei continuar os estudos…

- És ainda muito pequena para isso.

- Já trago uma coisa na ideia… – respondeu a esperta menina.

Enquanto a avó saía às compras, a Rosa abeirava-se duma casa vizinha, onde morava um casal já idoso, com quem a menina gostava de conversar a uma janela baixinha e até aviar alguns recados. A troco disso, a senhora dava-lhe sempre dois pãezinhos que ela levava para casa, partia em bocadinhos e repartia com os manos.

Um dia a avó veio dar com eles a comerem os bocadinhos de pão, e até os seus olhos se regalaram de ver aquela cena de ternura e de alegria. A Rosa – esclareceu assim, a avó:

- Há muito tempo que todos nós comemos bocadinhos de pão, que me dá a vizinha D. Adosinda. É lá, minha avó, que eu penso ir empregar-me, Eles têm mulher-a-dias, mas precisam de mais alguém que os acarinhe e os anime na sua solidão. Fui eu mesma que me ofereci para isso. Um casal de velhinhos que precisam de conforto e de uma companhia que os ajude a levar a Cruz da sua vida. Sabe, têm um filho só que está no estrangeiro, mas, segundo percebi, muito raramente os vem visitar.

- Estou admirada e também muito orgulhosa de ti, minha neta! Fazes-me falta, por seres a mais velha, mas se esse é o teu desejo, não me oponho que vás auxiliar esses senhores, que devem ser boas pessoas. Além disso, fica muito perto.

- Até pudemos, minha avó, falar de uma janela para a outra…E bons senhores também lhe garanto que são.

Daí a um tempo já a Rosa Maria estava empregada na casa vizinha e logo aprendeu a cozinhar e a tratar das limpezas dó lar.

Os senhores eram ambos professores aposentados e muito distintos. No princípio estava com eles durante o dia, e à noite vinha dormir com a avó. Quase sempre trazia restos de comida boa, que os manos comiam que se consolavam. Agora, muito mais que pão em bocadinhos…

Uma noite, Rosa chegou a casa muito feliz e disse à avó:

- Os senhores gostam muito de mim e já decidiram que me vão ensinar de tudo o que sabem.

- E como fazes o serviço?

- Nas horas livres. Pensam também não despedir a mulher-a-dias. Ontem já estive a aprender os verbos em francês. Eles falam muito bem esta língua. A D. Adosinda quer também ensinar-me a bor dar e a tocar piano; imagine! Só queria que visse o bonito piano que eles têm na sala! Vai ver como vou fazer-me ali uma senhora de estalo!... E eu, que gosto tanto de música!

Após quatro anos naquela casa, a Rosa Maria já não parecia a mesma, expressando-se até muito melhor. Pena foi que, nesse espaço de tempo, falecesse o Dr. Amândio, marido da D. Adosinda. Deste modo, a Rosa passou a viver com a senhora, dormindo no mesmo quarto.

O filho, que vivia nos Estados Unidos, vindo a Portugal, reparando quanto a Rosa Maria era solícita e carinhosa para com a sua mãe – disse-lhe:

- Estou muito rico, minha mãe. Se gosta da Rosa, como parece, pode doar-lhe tudo o que entender. Percebi já que lhe é muito dedicada. Proceda, sim, como seja sua filha também.

Desta maneira, aquela linda vivenda cor-de-rosa, com jardim à frente, logo foi transferida para o nome de Rosa Maria. Igualmente ficou como primeira titular dos muitos milhares de contos que tinham nos Bancos.

Habituando-se a chamar madrinha à D. Adosinda, cada vez mais se estimavam. É que a Rosa aprendera com ela a meditar na Sagrada Escritura, o que facilitou muito o exercício das virtudes Cristãs, dizendo, mesmo: não me interessa o mundo mundano. Nem parecia moça deste tempo; sempre recolhida em casa a fazer boa companhia à madrinha, que chegou a não poder andar e estar acamada, até que depois o senhor a chamou para o Céu.

Rosa, que lhe servira de Enfermeira, tinha nesta altura 22 anos. O João foi para a América do Norte e empregou-se bem nas Empresas do filho da D. Adosinda, mandando cartas muito bonitas às irmãs e à avó.

A Márcia e a Ana Rita, protegidas de Rosa, andavam a estudar e já tinham escolhido o futuro. A Márcia queria ser professora e a Ana Rita, Assistente Social. Esta, após a morte da Senhora D. Adosinda, passou a viver com a Rosa Maria, porquanto a Márcia ficou com a avó na casa antiga, que a Rosa comprou e mandou reconstruir para elas.

A Rosa Maria encantava pela sua simpatia e nunca havia namorado, apesar de algumas visitas da casa repararem nela e de ter recebido várias propostas. Até um jovem advogado, que tratava dos assuntos da madrinha, lhe havia feito uma séria declaração, que ela não aceitou.

Agora, com 23 anos, feitos pelo S. Brás, acabou por anuir às insistências do Dr. Bruno José e casaram na capelinha de S. José.

Efectivamente, naquela enorme casa, precisava-se de um homem capaz de gerir os muitos haveres, com os quais a Rosa se via embaraçada, apesar de muito saber e evidenciar uma rara inteligência.

Numa tarde, calma de Outono, andava a Rosa Maria a regar o jardim, quando viu encostada ao portão uma mulher, muito mal vestida e de rosto triste, a chamar:

- Menina! Menina! Pedia-lhe o favor de chegar aqui!

A Rosa, abeirando-se do portão, estremeceu ao ver aquela mulher que lhe lembrava traços de “alguém” que já conhecera…

Ela fez-lhe então, esta pergunta:

- Não morava aqui defronte uma senhora viúva de nome Aurora, que tinha uns netos com ela? A casa já não é a mesma, pois não possuía aquela linda varanda voltada para a rua, mas penso que era ali, não era, menina?

- Sim, e por acaso é ainda viva, embora já velhinha e desfeita de desgostos. Teve só uma filha que abalou de casa, deixando-a com quatro netos pequenos, que criou com grandes dificuldades. Hoje, graças a Deus, estão bem, mas ela todos os dias chora a filha desaparecida há catorze anos, sem nunca mais ter dado sinais de vida

- Ai, menina, estou a tremer toda! Eu trago-lhe notícias dela, que é minha amiga e chama-se Zulmira. A menina pode vir lá comigo, para ouvir um pouco da sua história?

- Sim, vou! – Respondeu a Rosa Maria que, tendo a chave da casa da avó, logo foi abrir a porta e – chamou assim:

- Minha avó, tem aqui uma visita…

Certamente o leitor já se apercebeu que aquela mulher desgrenhada, mal vestida e marcada por uma vida errante, era a Zulmira, filha da “tia” Aurora e mãe da Rosa Maria.

Esta, quando deparou com a mãe velhinha e lavada em lágrimas, não se conteve e ajoelhou-se a seus pés, – volvendo, comovida:

- Perdoe-me, minha mãe – que sou uma desgraçada que volta arrependida ao lar materno! A mãe não sabia de mim, e eu também nada sei da Celeste, nem do Lúcio que levei para a Suiça. Tenho passado uma vida árdua, saudosa e cheia de privações. A sorte não me sorriu de maneira alguma. Foi o castigo da minha imprevidência.

-És, realmente, a minha Zulmira? Deixa-me ver-te bem… Quase não acredito! Todos os dias pedia a Deus, que não me levasse do mundo sem te rever!

A Rosa Maria, surpreendida e diante daquela mulher, quase irreconhecível, que a tinha dado à luz – volveu, beijando-a:

- É então a minha mãe?! Também me pareceu… Como deve ter sofrido! A partir de hoje vai ter uma vida melhor, junto de nós.

Nesse momento, aparece na sala uma graciosa rapariga – a Márcia que chegava da Escola e ficou surpreendida com a estranha visita….

- É a nossa mãe que voltou – disse a Rosa à irmã, que logo a abraçou com muito carinho e emoção.

No Domingo seguinte, organizou-se naquela casa um bom jantar, comemorando o regresso da filha e mãe ao lar da família. A Ana Rita, que estava fora a estudar, foi mandada vir para assistir à função e ao alegre convívio, tendo o Dr. Bruno José estado também presente.

A Rosa Maria vestiu a mãe de roupa nova, dos pés à cabeça. Parecia já outra sentada à mesa, enlevada a olhar para as filhas e muito, especialmente, para a Ana Rita, que deixou tão pequenina e a via agora com dezasseis anos, tão risonhos! Tudo isto, graças à sua Rosa que tinha um coração de ouro, repleto de Amor e de excepcionais virtudes.

A “tia” Aurora contou à filha que o João estava nos Estados Unidos, muito bem, esperando-se que viesse, dentro em breve, fazer-lhes uma visita.

Resta dizer, que o Dr. Bruno José prometeu à sogra que iria diligenciar meios através das Embaixadas Estrangeiras, afim de ver se poderiam descobrir os paradeiros da Celeste e do Lúcio, pois havia, agora, só esta contrariedade na família.

Rosa Maria, uma alma sensível e querida que contribuiu para o bem-estar de todos, ainda não esqueceu a vida difícil e penosa que teve em criança, as privações que passou e aqueles bocadinhos de pão que trazia da D. Adosinda para mitigar a fome dos irmãos,

Pela sua generosidade e comportamento de jovem exemplar, bem merecia as bênçãos de Deus e ser feliz.

 

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1.10.09

 

MURMÚRIOS DO CEIRA

 

XII

 

ESTRELA DO VALE

 

Todo o médico que conforta um doente, cumpre bem o seu mister.C.B.S.

 

 

Teresa Margarida e Aninhas

Numa e graciosa vila denominada: “Vale de Estrela”, enquadrada nas plagas transmontanas, vivia há muitos anos um gentil casal que tinha uma filha de nome: Teresa Margarida. Antes do seu nascimento, haviam tido uma outra filha que Deus levou para o Céu, mal começou a dar os primeiros passos, pelo que veio esta amenizar um pouco as saudades da Rosinha, que lembrava mesmo um terno botão de rosa.

A Teresinha como era carinhosamente tratada e era agora o ai Jesus da casa, mais parecia um Anjo do Céu, que um ser para este mundo criado! O pai – Alberto Soares – um médico conceituado e a mãe – D. Maria da Soledade – uma senhora muito prendada que havia sido educada num Colégio de freiras.

Desde pequenina que começou a notar-se na Teresinha uma certa inclinação mística e uma bondade sublime, que mais parecia sobrenatural! Os pais professavam e praticavam a religião Católica e por isso, ainda cedo, a menina faria a sua primeira comunhão solene.

Nesse dia de manhã – disse a sua mãe:

- É hoje um dia muito feliz para mim, não só porque vou receber Jesus no meu coração, mas também porque a mãezinha anuiu ao meu pedido de vestir duas meninas pobres que não tinham um fatinho branco para levarem na festa. Estou ansiosa para ver a Rita e a Maria Adelaide vestidas como eu.

- Sim, irão vestidas rigorosamente a teu gosto. É verdade, ainda te não disse que comprei para elas um livro de missa e um terço branco igual ao teu. Após as cerimónias quero que tirem uma fotografia todas três.

- Obrigada, mãezinha, por me dar tanta alegria! Desculpe, mas ainda quero pedir-lhe outra coisa… Sei que a Rita e a Adelaide não têm em casa almoço de festa, com arroz doce. Por essa razão, se os paizinhos não se importassem, elas seriam minhas convidadas na mesa.

- Tontinha! Por que havíamos de nos importar? Nós o que mais desejamos é ver-te feliz e contente e, evidentemente, também gostamos de as mimosear… neste dia inesquecível da vossa primeira comunhão.

Na hora da refeição, em que já estavam todos sentados à mesa e andava a criada – Maria – a servi-los, alguém bateu à porta a chamar o Sr. Doutor com urgência para ir ver uma doente fora.

Naquele momento, ouviu-se a voz da esposa – dizer:

- Não, Alberto, Almoça primeiro e depois vais. Hoje, é um dia muito especial e temos de estar reunidos.

A Teresinha que ouviu a conversa e ouviu a decisão da mãe – logo volveu:

- Desculpe, mãezinha, mas o pai tem de ir já. Está alguém a precisar da sua ajuda, e quem sabe se o caso é de vida ou de morte?!

- Vá, paizinho, cumprir o seu dever de médico.

- Vou, sim, filha. O teu pedido é uma ordem.

O Dr. Alberto foi então tirar o carro da garagem e convidou o empregado para o acompanhar a casa da doente. Quem veio chamá-lo, foi um vizinho lá da aldeia, que depois os guiou até à modesta casa, situada nos píncaros duma será, onde o vento era agreste e soprava forte naquela hora..

Chagados lá, o médico entrou e, em vez de uma, encontrou duas doentes naquela moradia humilde, na qual tudo significava miséria! A senhora tivera uma crise cardíaca, consequência de um desgosto profundo que lhe dera a sua neta Rosália, uma moça bonita, de dezassete anos, que ela criou de pequenina e lhe confessou – estar com dores para dar à luz uma criança…

O Dr. Alberto Soares, logo percebeu o que se estava a passar e uma vizinha acabou de lhe contar a triste odisseia. Órfã e abandonada pelo namorado, vivia agora momentos difíceis, por ter acreditado num cabeça leve qualquer, que ali aparecera e a seduziu com frases de vil enganador…

à senhora Amélia tendo já oitenta e dois anos e estando quase cega, não resistiu à desagradável surpresa de saber a neta, moça solteira a quem muito queria, com dores de parto!... Embora ainda com vida, quando o médico chegou, nada havia a fazer, porque o seu coração enfraquecia a cada momento e assim expirou. O Dr. Alberto Soares – disse, então, para a vizinha – Preparem as coisas, que a senhora, infelizmente, já não é deste mundo. Vou levar a rapariga ao Hospital, para que seja socorrida e a criança possa nascer sem problemas.

Quando regressou a casa, o Doutor explicou à esposa o drama sucedido e que havia já nascido uma menina, ao qual a D. Soledade deu logo solução de maneira terna e determinada.

- Temos de proteger essa moça que ficou sem família e como notaste, desamparada. Enquanto não tiver uma situação estável, poderá vir cá para casa. À criança se dará também um jeito. Vai ser uma alegria para a nossa Teresa Margarida.

Os senhores tinham uma empregada, mas resolveram ficar também com a Rosália e ainda com a criança, à qual foi dado o nome de Ana Luísa. Teresinha foi a madrinha e andava radiante por ter em casa uma boneca a sério, chamando-lhe Aninhas,

Aos onze anos a Teresa Margarida foi internada num Colégio do Porto, indo o pai aos fins-de-semana buscá-la para passar estes dias com eles. Estava ela sempre ansiosa para vir brincar com a Aninhas e cantar já no grupo coral da Igreja.

Nas férias do Natal aproveitava sempre para visitar os velhinhos e os doentes da terra e levar-lhes uns docinhos que a sua mãe sabia fazer. Era ela que armava o Presépio na sala com luzes de todas as cores! Aninhas gostava de vê-la arrumar as figurinhas e dizia: Jesus é muito lindo, não é?

- Pois é. E, como vês, nasceu pobre num curralinho de animais… para nos mostrar que não devemos ter vaidade – dizia-lhe ela, com o fim de a ir doutrinando.

Já com dezassete anos, uma jovem lindíssima e simpática, Teresa Margarida gostava de dar sugestões de humildade a sua mãe e falava-lhe assim:

- A mãezinha tem tantos vestidos lindos, por que não dá alguns? E por que não vende as jóias? Isso daria para matar a fome a muitas crianças que, no mundo das guerras, vivem mal. Eu nunca hei-de usar jóias caras. O Senhor não deve gostar que andemos enfeitados com valores que faltam aos infelizes da Terra. Na Etiópia, no Sudão, na Somália, em Angola e noutros países, dizem que há imensas pessoas a morrerem de fome!

D. Maria da Soledade era uma senhora bondosa, mas, como esposa de um médico, gostava de trajar bem, passear e assistir a festas mundanas. Sua filha não era da mesma opinião nem gostava que lhe comprassem muita roupa. E lembrava a obrigação de sermos simples como foi a mãe de Jesus, que vestia com modéstia e não usava atavios nem pinturas. Teresinha achava estranho haver tanta “devoção” para com a Virgem de Fátima, que disse aos Pastorinhos em 1917 que Jesus estava muito ofendido com as modas imorais, e entrar-se hoje na Basílica ou mesmo no Recinto sagrado, de qualquer modo e sem respeito pelos avisos do Céu.

E é certo; quando em 13 de Maio do ano 2000, João Paulo II veio a Fátima beatificar os dois Pastorinhos: Jacinta e Francisco Marto, ele aludiu, num certo momento: “criancinhas, reparem como vestiam os Pastorinhos de Fátima!” E ainda mais: - frequentem a “Escola dos Pastorinhos!... Frases que se devem guardar na memória e seguir.

Teresinha, que não acompanhava as modas, lembrava frequentemente a sua mãe o que Jesus disse aos Apóstolos:

- “Não vos preocupeis com o que haveis de comer ou de vestir. Reparai nos lírios do campo, como crescem! Não trabalham nem fiam. Pois digo-vos: nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como eles. Vosso Pai sabe das vossas necessidades; procurai antes o Seu Reino.”

- Tens razão, minha filha, – dizia-lhe a mãe; tenho de começar a privar-me de algumas coisas a favor das Instituições de Solidariedade e de quem mais precisa.

- Fico contente, por a mãezinha estar de acordo comigo.

Havia já algum tempo que a menina não se sentia bem de saúde. Não queria entristecer a mãe, mas um dia teve de lhe dizer:

- Sabe, mãezinha, ando a sentir-me cansada, mas não se assuste, pois não há-de ser nada de importância.

- Cansada? Uma jovem como tu és?! Quando chegar o teu pai do Consultório vou dizer-lhe que precisas de ser examinada por um especialista, afim de tratar-se das análises necessárias. Realmente, andas muito pálida e perdeste o apetite – volveu a mãe – já muito inquieta.

O Dr. Alberto, depois de ouvir a esposa falar dos seus receios sobre o mal-estar da filha, pensou imediatamente levá-la a Lisboa, onde tinha bons médicos amigos, que a observariam com todo o cuidado.

Teresa Margarida ficou então numa Clínica uns dias, acompanhados da mãe, até que completou os exames precisos. À vista dos resultados, os pais ficaram muito apreensivos e tristes, porque o diagnóstico era reservado… Perante tão graves sintomas, um especialista, amigo, aconselhou os pais a levarem-na a Inglaterra. Talvez lá pudessem tratá-la com melhores terapêuticas.

A jovem tinha muita paciência e com ela procurava, a todo o momento, sossegar os pais.

- Nada me dói, paizinhos; e não vejo motivos para tanta preocupação, mas, se acham bem, vamos a Inglaterra.

E não demoraram muito a decidirem-se. Na semana próxima trataram dos passaportes e abalaram com ela. Um especialista, recomendado, já os aguardava num Hospital de Londres.

Cerca de três meses estiveram ali com a Teresinha, que recuperou bastante e parecia até melhor.

Vinda para Vale de Estrela, começo a fazer a vida normal, prosseguindo os estudos no Porto. Todavia.. notava-se que já não possuía a mesma alegria e vivacidade. Infelizmente, daí a meio ano, surgiram os mesmos sintomas e com eles mais internamentos, transfusões de sangue, etc. Deste modo, as esperanças de cura iam-se desvanecendo da mente daqueles amargurados pais, que tanto queriam à sua querida filha. Faziam-se promessas e o quarto dela estava repleto de imagens e santinhos. Todos os dias de manhã os passarinhos vinham saudá-la com maviosos cânticos na sua janela, aonde o sol também entrava para a beijar… Um dia falou assim a sua mãe:

- Quem sabe, mãezinha, se Deus me quer lá junto Dele… Se for verdade, não quero que fiquem tristes, mas antes conformados por Ele me escolher para me ter a seu lado. Tenho já dezoito anos e meio, uma idade bonita para cantar ao Senhor e louvá-lo no Céu, com toda a força da minha alma.

- Tu, ainda não vais para o Céu, mas se fosse essa vontade do Senhor, teríamos de pedir-lhe que nos ajudasse a minorar as saudades.

- Se isto acontecer, quero recomendar à mãezinha que continue a servir os mais tristes, sem deixar de visitar os doentes e os mais idosos que deixo por aí a penarem… Que pense muito em Deus e na Nossa Senhora e sempre seja uma alma simples, reparando nas pombas e nos lírios do campo que só usam uma roupa que Deus lhes vestiu. Leia com atenção as cartas de S. Tiago e de S. Paulo que muito nos ensinam. Cuide da Aninhas como sua filha e minha irmã e ensine-lhe os caminhos do Senhor, para que não escorregue na ribança da perdição… O mundo está cheio de ilusões e precipícios… Lá do Céu, se puder, mandarei para a Terra, como Santa Teresinha de Lisieux, “uma chuva de rosas!” Dê-me agora um beijinho, minha mãe, e anime o meu pai, que sinto andar aos ais pela casa toda.

D. Maria da Soledade beijou a filha, com os olhos rasos de água e sem coragem para articular uma só palavra…

Como já não saía do quarto, Teresinha chamou uma vez ali o pai, a sós, para lhe transmitir alguns avisos e confidências:

- O paizinho é uma pessoa amorosa e digna que seguiu a carreira médica por vocação inata, eu sei. Mas queria pedir-lhe que continuasse a servir os doentes, com muito carinho e solicitude.

Sempre que possa, visitá-los em casa, especialmente os méis velhinhos. E agora, recordo-lhe estes pensamentos de um grande médico e filantropo Dr. Fernando Bissaya Barreto, que deixou uma obra extraordinária na região de Coimbra e que o meu pai conhece perfeitamente:

“Só será bom médico aquele que for capaz de sofrer com o seu doente, viver a sua doença, conhecer o seu corpo, compreender a alma. O contrário não é medicina, é… veterinária e da má.”

Muito pesaroso, sei pai beijou-a – proferindo:

O Dr. Bissaya Barreto era um Distinto médico e um Homem de coração grande! Conheci-o pessoalmente e fez o favor de ser meu Amigo.

Eu sei, Teresinha, que os doentes são nossos irmãos e filhos do mesmo Deus. Está descansada que, enquanto eu tiver saúde, cumprirei a minha missão de médico, com dignidade e sentido humano.

- Obrigada, Paizinho! Espero vê-lo no Céu!

Passado um mês – dia de Nossa Senhora da Conceição – à tardinha, Teresa Margarida, a ficar-se como um passarinho, - disse aos pais que via à portado quarto dois Anjos vestidos de branco a sorrirem para ela!...

Foi comovente a cena da despedida, com todos de casa à sua volta, fazendo um esforço grande para não chorarem naquela hora pungente e solene em que Teresinha, ao beijar pela última vez os seus pais e Aninhas, subia ao Céu, expirando santamente.

No dia seguinte, ninguém ficou em casa naquela terra! Novos e idosos fizeram questão de acompanhar a jovem menina à sua última morada. As crianças, com raminhos de flores brancas na mão, muito compenetradas no seu papel, lembravam filas de Anjos a pedirem a Deus que recebesse, com muita ternura, esta “Rosa” de Vale de Estrela.

O sino da Torre de Vale de Estrela não dobrou de tristeza. Teresinha havia pedido – antes – que ele repicasse de alegria; e assim aconteceu, O povo, sim, chorou imenso a partida da sua “menina” tão pura e meiga, que deixou Saudades em todos que a conheceram e que com ela conviveram.

Os seus pais ficaram, naturalmente, muito desolados! E também Aninhas desde aí ninguém mais a viu sorrir. Ia sempre com a D. Sociedade e a mãe levar flores das mais lindas à Capelinha jazigo, que abrigava o corpo de Teresinha, ao lado de um Crucifixo e de uma linda fotografia dela, sorridente.

O Dr. Alberto Soares e a D. Maria da Soledade eram pessoas virtuosas, mas, aceitando com fé a perda da sua menina, fizeram-se ainda melhores. Na sua mesa-de-cabeceira, lá estava sempre a Sagrada Escritura, a servir-lhes de conforto e a fazer-lhes cumprir os últimos e caros anseios da Teresinha. E assim sucedeu. Enquanto andaram no mundo, foram eles testemunhos vivos da Palavra santa do Evangelho, firmando os passos na terna lembrança de sua filha e nos sagrados caminhos de Jesus.

Mas, nas horas mais saudosas, o pai não se continha! Suspirando muito – dizia comovido: estudei para médico e não pude salvar a minha filha!

Ana Luísa fez-se uma amorosa rapariga, que os pais de Teresinha protegeram como filha, e tentaram incutir-lhe as virtudes que coroaram em vida a terna fronte de Teresa Margarida! Foi como deixasse cá o retrato da sua alma! Por todas estas bênçãos divinas, deveria ela sentir-e feliz no Céu.

O povo daquela terra, comparando Teresinha à Sãozinha de Alenquer, já lhe pede graças e chama-lhe agora: - “Estrela do Vale”!

 

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