13.9.09

 

 

 

                                     MURMÚRIOS DO CEIRA

 

                                                         XXII

 

                                               CARTA DA INÊS

 

                                                                                         Se falta uma rosa na roseira, esta fica mais triste

                                                                                          e perde algo da sua graça. C.B.S.

 

 

pomba07

            

 

 

 

A casa da Inês, toda enfeitada de glicínias na varanda, estava agora muito triste por dentro… e ela volta e meia, - dizia à sua mãe:

- Mãezinha, a pomba branca já está outra vez a arrulhar e a dançar na janela da varanda. Será, que nos quer dizer alguma coisa da Cecília?!

A Maria Cecília havia partido para o Céu há cerca de três meses e com oito anos incompletos, deixando a Inês, sua mana gémea e os pais mergulhados na mais incomensurável dor! Então a mãe, a D. Graça, que chorava às escondidas da filha, - dizia-lhe para a não ver tão triste:

- A Cilinha voou como uma pomba e um dia poderá voltar…

- Se eu soubesse, mãezinha, que esta pomba seria capaz de levar uma carta pequenina à mana, eu tentava escrever-lhe. Ah, já, sei; mas tem de ser num papel bonito com flores e passarinhos, que a menina Catequista me deu e tenho no meu quarto.

A Inês, após esta conversa com a mãe, que de tão comovida, as palavras ficaram-lhe atravessadas na garganta, subiu a escada do segundo andar, a toda a pressa, procurou a folhinha e começou a escrever assim:

 

Saudosa Maninha

“Desde que foste para o Céu, a nossa casa, que tem as glicínias em flor, ficou mais triste… É tempo de férias e não me apetece brincar com mais ninguém. Só contigo é que eu gostava de jogar às pedrinhas.

À mesa de jantar a tua cadeira continua vazia… Porque não vens? Na caminha que era tua também, fica sempre o teu lugar, porque poderás chegar a qualquer momento. Se eu dormir, acorda-me, sim? Quero encher os meus olhos de ti… A mãe diz que foste há três meses. Três meses são muitos dias, não são?

O vestido cor-de-rosa de folhos, não mais o vesti. Sabes? Sinto saudades que não vistas também o teu! Gostavas tanto dele. Tem uma pomba bordada na frente, lembras-te?

Tenho muita pena que não estejas cá no dia da nossa Senhora das Candeias, que é o dia em que fazemos os nossos anos. Como sabes, a mãe faz sempre um bolo de nozes que nós gostamos muito. O pai, que dantes brincava connosco, anda sempre a olhar para o chão… E, às vezes, vejo-o limpar os olhos com um lenço…

Olha, pede a Jesus que te deixe voltar para casa; conta-lhe que tens de estudar e dar alface ao teu grilo, que não mais cantou na gaiola… e pode morrer. Também não temos ouvido o piriquito amarelo.

O Céu deve ser lindinho com os Anjos a cantarem. Diz como passas o tempo e se cantas e brincas com eles?!  A mãezinha tem pedido muito à Nossa Senhora do Carmo para que estejas bem.

Lembras-te, quando andávamos as duas no quintal a fazer raminhos de violetas e o pai, às vezes, nos tirava o retrato no meio do jardim e nos trazia às cavalitas? Violetas, são as flores que nós gostávamos mais. As roxas, então, têm um cheirinho tão bom! Agora, sou eu que enfeito a jarrinha do quarto, que tem a santa Teresinha com uma flor branca na mão. Mas ela já deve ter notado a tua falta. Às vezes peço-lhe que me deixe ir ver-te, mas ela só se sorri… Também não tenho asas para voar… Como voaste? Se foste nas asas de um passarinho, pede-lhe para voltares para casa. A mãezinha diz que a santa Teresinha está no céu. Já a viste?

Vou contar-te uma coisa, Cecília: vem todos os dias, de tarde, uma pombinha branca arrulhar e dançar na janela da varanda e até parece que quer falar-nos. Amanhã vou mandar por ela esta carta que vai cheia de penas nossas. Fico à espera que digas como é Jesus, como são os Anjos, como é o Céu e se tem flores muito bonitas como as do nosso jardim.

A prima Luísa manda-te um chi-coração muito apertadinho. Beijinhos sem conta… dos paizinhos e da mana que fica olhando o Céu, para ver quando chega a pombinha com notícias tuas.

                                                      Inês

Com a carta feita, mostrou-a a sua mãe que não se conteve sem chorar. Foi, então, colocá-la na janela para que a pombinha branca, quando estivesse sozinha, a levasse para o Céu… E assim teria sucedido, por que a carta desapareceu do peitoril da janela…

Passaram dias e semanas, até, e a pomba só veio, depois, arrulhar e dançar uma vez no dia da Senhora das Candeias… Após este dia, ninguém mais a viu arrulhar na janela da varanda. Que teria acontecido?!

 

Pensa a Inês que a pomba veio mostrar-se muito contente no dia dos seus anos, como a dizer que a Cecília estava a cantar com os Anjos no Céu!

 

 

                                   

 

     

                                                   

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