13.9.09

 

MURMÚRIOS DO CEIRA

XX

 

O "FANTASMA DO TEMPO"

 

O Amor é a plenitude da bondade. C.B.S.

 

 

 

 

Há quem imagine o tempo um “fantasma velhinho”, de barbas brancas e o ilustre curvado e amparado a uma velha bengala já carcomida e lustrosa de uso… que, desde sempre, serviu de apoio aos mais debilitados. É esse velhinho, de forma ancestral e humana, que hoje se olha de lado… e sem que se lhe preste a veneração devida, Um ser muito querido que já brincou, saltou, cantou, trabalhou bastante e agora mal arrasta os pés, a caminho de um Lar…ou talvez da última morada… com os olhos magoados de pranto, mas que sabe ainda, pela experiência, muito bem aconselhar.

Assim falou aquele avozinho certo dia ao neto, um menino de nove anos – que, muito curioso, lhe perguntou:

- Porque tens tão poucos cabelos na cabeça?

- Olha, Pedro Miguel: perdi-os pelo caminho e o vento os levou… Quando era da tua idade, também tinha uma farta cabeleira, encaracolada, como a tua!

- E por que são brancos, avô, os pelos da cara?

- Porque o tempo os gastou, depois de trinta mil dias de preocupações e sacrifícios, fê-los perder o vigor, até que se tornaram pálidos e brancos. Pareço um Fantasma, não é, Pedro Miguel? O tempo tem em mim, praticamente, cumprida a sua missão. Agora, brincas tu com ele às escondidas… mais os teus companheiros, e quase não dás pela sua presença… Corres muito, Pedro, mas ele voa como um passarinho!...

- Mas eu não o vejo voar, meu avô!

- Sabes Pedro Miguel, ele é invisível, mas deixa marcas profundas. Para ti, ele agora é ainda uma coisa, absolutamente, abstracta, que te faz crescer e fazer um rapaz belo e sonhador, depois um homem forte, com filhos e netos à tua volta. Mas tarde, começa a “correr veloz”, a abalar a saúde e a assinalar todo o ser vivente que permanece mais tempo na Terra; mas renova-se todos os dias em novas vidas e quando surge a mais linda estação do ano: a Primavera que vai e volta sempre! Tu, agora, Pedro, és a minha Primavera florida! Quase ninguém gosta de morrer cedo ou ser velho. Mas é a lei da vida e do tempo, meu amor. O que é preciso é saber aproveita-lo a fazer coisas boas, que nos dignifiquem a Vida, sem nunca manchar a nossa honra.

- O que é a honra, avô?

- A honra, Pedro Miguel, é um sentimento de Bem e harmonioso, que nos leva a merecer a estima e a admiração das outras pessoas. É como seja uma distinção que se vai adquirindo pelo cumprimento da palavra dada, (palavra de honra) pela prática da verdade; da gratidão; da solidariedade; bom comportamento moral; educação; feitos de trabalhos artísticos e das boas acções que poderão ser também de benemerência. Tudo isto reflecte a honra, que nos torna considerados e respeitados no meio social em que vivemos e não só.

- Já sei, avô. A honra pode ser vista de muitas maneiras: como fazermos um trabalho de Escola muito perfeito a merecer um valor alto; Ajudar alguém que precisa de nós, como fazem os Escuteiros, os Bombeiros Voluntários etc. estudar muito para passar o ano com boas notas; receber diplomas de honra por ter salvo a vida de alguém. Tudo isto, e não só… são acções boas que merecem a honra e a estima daqueles que nos conhecem, não é assim?”

- Estou orgulhoso de ti, meu neto. Agora, que já percebeste o que é a honra, faz sempre por ser digno dela, para que um dia mais tarde possas ter alguém a respeitar-te e a ajudar-te a descer a ladeira íngreme das “noites da Vida”, tal como eu já vou descendo.

O tempo, que me transformou em “Inverno” triste e feio é, todavia, lógico e racional, tal como um juiz que decide com ponderação e faz cumprir a ordem moral das coisas, contemplando TODOS com imparcialidade rigorosa. Sim, dentro do tempo não reina a traficância… e nem pode comprar-se a juventude, a qualquer preço, Como falámos na honra, também ela aqui prevalece, É verdade que o tempo não atina sempre com a nossa precisão atmosférica, mas isso… são leis da Natureza a quem também o tempo está subjugado.

Do “tempo”, Pedro, já não resta a saudade. Sou como tantos, um “Inverno” sombreado… – que espera a misericórdia de Deus, para me abrigar no seu radioso Sol…

Não fiques triste, Pedro Miguel, Tens ainda muitos dias para jogar a bola… e viveres com alegria. Serve-te deles bem e vive-os sempre com humildade, ternura e Amor pelos outros.

Um simples diálogo que o “tempo” mascarado de velho e sentencioso como é, aproveitou para dar uma lição a uma criança curiosa, como todas da sua idade, afim de que saiba como comportar-se na vida e o que o espera quando um dia for avô e vier a parecer-se também com um “fantasma” do “tempo”, na Terra!

 

link do postPor canticosdabeira, às 14:26  comentar

De canticosdabeira a 21 de Setembro de 2009 às 17:33

Prezado Marcos

Gostei muito do seu comentário que fez ao Fantasma do Tempo:
Muito obrigada pela sua atenção.
Saudações cordiais e amigas
Clarisse

De Marcos Satoru Kawanami a 15 de Setembro de 2009 às 20:45
Clarisse,

Achei muito edificante este seu conto. Lembrou-me desta fábula de Lafontaine, que transformei em soneto:


FÁBULA DA HONRA

Andando pela estrada da vida,
ia a Honra, a Ciência, e a Riqueza.
Falando com firmeza de entendida,
a Ciência disse que com certeza,

caso ela se perdesse na jornada,
na casa de um notável engenheiro,
pelas amigas seria encontrada.
A Riqueza, senhora do dinheiro,

disse: “Facilmente serei achada
no palacete de um milhonário”.
Vendo que a Honra não falava nada,

perguntaram por que o mudo fadário.
Disse, pois, a Honra: “Quem me perder,
jamais poderá tornar a me ver...”

Nhandeara, 7 de março de 2000
Marcos Satoru Kawanami

obs: nessa época, eu ainda não conhecia a técnica do verso decassílabo.

 
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