16.9.09

 

 

 

MURMÚRIOS DO CEIRA

 

XVIII

 

A MENINA PRINCESA

 

O casamento e a mortalha no Céu se talha:  Popular

 

 

 

 

 

Em tempos idos, num lindo e vistoso Palácio, viviam o rei D. Francisco, a

Rainha Margarida, uma filha, alguns fidalgos e numerosa criadagem.

 

Sim, deste régio casal nascera uma menina a quem foi dado o nome de Maria Gabriela, que era o enlevo dos pais. Uma infância alegre e descuidada teve esta Princesa até aos oito anos de idade.

Com a natural predilecção pelos divertimentos, e como não tinha manos, pediu aos pai que autorizassem a virem brincar com ela os dois filhos do jardineiro: Carlos e Rosa. E assim, durante algum tempo eles vinham ao Palácio distrair a Princesa, que dedicava uma especial atenção a estas duas crianças.

Um dia Carlos, que tinha mais três anos que Maria Gabriela – disse-lhe que não poderia continuar a brincar, pois teria de pensar no seu futuro. Gostaria de ser médico, mas como o pai não possuía recursos para isso, iria aprender a alfaiate, com o seu tio Augusto, dono de uma Alfaiataria na vila.

Maria Gabriela ficou triste por ter de se privar da companhia destes dois amiguinhos, pois a Rosa também já lhe tinha dito que a mãe precisava que ela, nas horas livres da Escola, a ajudasse mais na lida da casa.

Numa noite de insónias a menina Princesa pôs-se a pensar sozinha:

-Carlos queria ser médico e se eu pedisse ao paizinho, talvez ele o protegesse. E assim fez. Na manhã seguinte disse ao rei:

- Paizinho, o Carlos desejaria muito vir a ser médico, mas o pai dele, o nosso jardineiro é pobre como sabe e não tem meios para pagar-lhe os estudos; se o paizinho quisesse, ele seria Doutor, não é verdade?

- Talvez… E tu gostavas, Maria Gabriela?

- Oh, como eu gostaria de dar essa alegria ao Carlitos!

- Manda, então, dizer ao Acácio e ao filho que venham falar-me.

Nesse mesmo dia o jardineiro recebeu o recado do rei e já nada o susteve, sem que viessem logo ao Palácio, saber o que lhes queriam.

Entrando respeitoso, de chapéu na mãe, – perguntou o Acácio:

- Vossa Majestade mandou chamar-nos?

- Mandei, sim. A Princesa participou-me que o teu filho gostaria de formar-se em medicina e pediu-me para eu o ajudar a concretizar o seu ideal. Agora, se for da tua vontade e ele tiver, efectivamente, essa vocação, eu não me oponho aos desejos dela. Também é preciso que ele seja aplicado nos estudos e tenha um bom comportamento.

O jardineiro, muito emocionado, – balbuciou, comovido:

- Já sabia que a Princesa possuía bom coração, mas não julgava que fosse capaz de demonstrar tanta estima por nós. Muito agradecidos ficamos a vossa Majestade e a vossa Alteza.

O pequeno, que sorria envergonhado, beijou as mãos do rei, dizendo, sem hesitação:

- Muito obrigado, Senhor D. Francisco.

Combinaram, então, interná-lo num Colégio. O rapaz era vivo e manifestava significativo talento, pelo que, no fim do primeiro período, as notas foram animadoras. Pelas férias vinha sempre ao Palácio visitar os seus protectores e a Maria Gabriela andava satisfeita com o bom aproveitamento do Carlos, nos estudos.

A menina Princesa, que também era inteligente, foi crescendo e havia recebido uma educação esmerada. Professoras muito distintas, ministraram-lhe no Paço todos os ensinamentos indispensáveis a uma nobre Princesa.

Quando o Carlos era já um donairoso rapaz e frequentava a Universidade, ela gostava imenso de trocar impressões com o seu amigo de infância, que certa vez lhe disse:

- Estou quase a terminar o meu curso e a vossa alteza o devo. Não sei como agradecer-lhe o enorme interesse e bondade que tem evidenciado pela minha humilde pessoa.

- É simples. Basta-me a continuação da tua Amizade – disse Maria Gabriela.

- É para mim subida honra saber-me estimado por vossa Alteza. Sou pobre e sem valor, mas se, apesar disso, para alguma coisa lhe puder ser útil, creia que serei capaz de todos os sacrifícios para lhe poupar um desgosto.

Terminada a formatura, e como tivesse mais aspirações, resolveu ir ao estrangeiro especializar-se.

Desde aí, a linda Princesa, que já contava dezanove anos, começou a ficar triste, pois sentia vivas saudades do Carlos, do qual há meses não recebia notícias. Os pais perguntavam-lhe por que não sorria como dantes e ela respondia – que realmente não tinha alegria de viver, mas não sabia explicar a causa da sua melancolia… Realizavam-se festas e bailes de gala no Palácio, todavia, nada a animava.

Uma guerra civil veio seguidamente transformar o regime e o rei foi deposto do trono e mandado para o exílio. Todos estes acontecimentos magoaram a Princesa que, deste modo, perdia as esperanças de tornar a ver o seu companheiro de infância…

Nos arredores de Sevilha, foram fixar a residência. Que saudades sentiam todos dos felizes dias passados!... Maria Gabriela andava já apreensiva… e um dia – disse a sua mãe:

-Mãezinha, certamente não tornarei a ver o Carlos. – Por que seria que deixou de escrever-me? Foi muito ingrato, não foi?

- Não minha filha, não fói!... Vou dizer-te a verdade: o teu pai ordenou que não voltasse a escrever-te. Sabes, ele não é de sangue “azul”, mas, sim, de condição plebeia e humilde. Sendo filho de um jardineiro, não podíamos autorizar que ele se correspondesse contigo. Quando crianças, era diferente; agora, minha filha, estás uma senhora e é preciso pensar no teu futuro.

- Compreendo, minha mãe. Mas quando há pouco lhe disse que não tornaria a ver o Carlos, foi porque percebo que os meus olhos já não vêem nítido como dantes. Há dias que vou notando que a vista me vai a faltar. Hoje, então, sinto maior diferença, mal distingo as coisas e já não conseguiria ler as cartas dele.

Junto de sua mãe, Maria Gabriela não se conteve e desatou a chorar. Aquela, consolando-a, – exclamou muito pesarosa:

- Oh, minha filha, não chores. Vou já contar ao teu pai o sucedido e consultaremos, imediatamente, os melhores médicos que te hão-de curar depressa.

Assim fizeram. Bons especialistas espanhóis trataram de efectuar imensos exames e receitaram vários medicamentos. No entanto, a Princesa continuava na mesma. Ainda tentaram operá-la, mas, receando o insucesso, resolveram os pais irem consultar especialistas mais famosos. Numa Clínica especial, de oftalmologia, em Inglaterra, Maria Gabriela sujeitou-se a melindrosa intervenção cirúrgica, da qual não obteve resultados satisfatórios. Pelo contrário, sentia-se pior e mal conhecia já as pessoas, mesmo vistas de perto.

Meses depois, chegou ao conhecimento do ex-rei que, na América do Norte, um especialista, ainda novo, tinha alcançado grande nome, realizando curas maravilhosas nos olhos! Numa última tentativa, os pais, que tanto queriam à sua única filha, lá seguiram com ela, rumo aos Estados Unidos.

As duas senhoras aguardaram num Hotel, enquanto D. Francisco foi à Clínica falar com o notável oftalmologista, que o recebeu surpreendido – dizendo:

- Vossa Majestade, por aqui?

- É verdade, Carlos. Também eu não esperava encontrar-te na América do Norte…

- Depois de ter permanecido algum tempo em França, onde me especializei em doenças dos olhos, vim aqui parar há onze meses. Mas, o que traz por cá, vossa Majestade?

- Não me trates desse modo, Carlos! Os dias de meu reinado já lá vão… Hoje, a infelicidade bateu-me à porta. Tenho a minha filha, infelizmente, cega e vinha consultar, numa última tentativa, o Director desta Clínica, que dizem ser o melhor oftalmologista do mundo.

- Os seus méritos talvez não correspondam à sua fama…

Tem o Senhor D. Francisco, na sua frente, o especialista que procura! Dá licença que o abrace? Creia que sinto, igualmente, o desgosto que o punge. Irei fazer todos os esforços para que a Princesa recupere a visão o mais breve possível.

. Mas será tu, Carlos, o médico milagroso de que os jornais tanto falam?

- Sou eu mesmo: e, se assim acontece, a vós o devo e à bondosa Princesa! Não se apoquente senhor D. Francisco. Já resolvi casos muito difíceis e tenho esperanças que, se Deus quiser, hei-de curá-la Preciso de vê-la já, para que possa vir hoje e ficar internada num quarto particular. Aqui na América, em oftalmologia, fazem-se milagres!

- Provavelmente já te não conhece, pois mal distingue os vultos.

- Também será conveniente que não me reconheça; pode fazer-lhe mal a menor comoção.

Mas quem mais se impressionou foi o Carlos, que não se conteve e chorou ao ver a sua amiguinha naquele estado tão lastimoso!

Internada na Clínica, e acompanhada de sua mãe, uma nova operação teve de ser efectuada, decorrendo satisfatoriamente, pelo que o Dr. Carlos andava muito entusiasmado. Passado um mês tiraram-se a venda dos olhos, e ela, radiante de alegria – disse a sua mãe:

- Tenho a impressão que já vejo a mãezinha quase perfeitamente! Por favor, traga-me, aqui, o médico que me operou. Quero agradecer-lhe, quanto de bem fez por mim!

- Efectivamente, tem sido uma pessoa incansável; olha, que até mandou vir de Londres um medicamento preciso que cá não tinha e te fez muito bem – respondeu, comovida, a mãe da Maria Gabriela.

Na imaginação da jovem vivia ainda a imagem de Carlos, e, instintivamente: – continuou – a sua voz faz-me lembrar o timbre de uma pessoa especial, que eu conheci há anos…

- Por vezes deparamos com vozes semelhantes – volveu a mãe. Disfarçando… Sabes, Maria Gabriela, quem se encontra cá, na América?

- Não posso adivinhá-lo… mas quem sabe, talvez o Carlos?!...

- Ele mesmo: que hoje deve vir visitar-nos, telefonou ao paizinho – a dar-nos a boa notícia.

- Oh, mãezinha, que grande satisfação me deu! Pareço voltar aos meus tempos felizes!...

Era já perto da noite, quando, D. Francisco, entrou no quarto, seguido do Dr. Carlos Sousa, o solícito médico que fez o milagre de lhe restituir a vista!... Tu não falas, Maria Gabriela? Ficaste admirada?! Também eu me espantei bastante, quando entrei nesta clínica e me vi perante a sua presença!

- Mas nós não estaremos loucos? Os meus olhos já estarão a ver bem? Será o meu amigo Carlos, a quem fico devendo a minha extraordinária cura? Já o tinha suspeitado, mas custa-me a acreditar!...

- É verdade, minha senhora. O destino assim o quis. Hoje, e com muita razão, todos estamos imensamente felizes! – exclamou o Carlos, - desejoso de abraçar a Maria Gabriela.

- Vê, paizinho, como foi bom aproveitar-se este grande talento que andava divagando no deserto?!

- Tens razão, minha filha. Também nunca contrariei o teu desejo, bem sabes.

Passado um mês, estava a Princesa completamente restabelecida e pediu ao pai para que ficassem a viver algum tem tempo mais na América… Estava a custar-lhe sair dali, onde tinha preso o coração.

Quando o ex-rei foi, depois, pedir a conta à Clínica, o Dr. Carlos de Sousa – declarou:

- Nada me deve, senhor D. Francisco; a conta já está paga. Eu é que ainda lhe devo muito! Dívida essa que nunca conseguirei liquidar, por longos anos que eu viva. Quero apenas solicitar que me autorize novamente a corresponder-me com a Maria Gabriela.

- Tens desde já o meu consentimento e podes ir vê-la sempre que desejas. O seu pedido vamos ficar nos Estado Unidos mais uma temporada e, em nossa casa, serás sempre recebido como um príncipe… que fez de mim e de minha mulher, os pais mais ditosos da Terra. Só agora descobrimos porque que tem ela rejeitado propostas de casamentos de príncipes, Condes e Duques de diversos países. Sabes? Carlos, São amores antigos… Ainda ontem me afirmou – que só gostava de ti.

- Deixe-me beijar-lhe as mãos, pela boa nova que me dá. Digo-lhe senhor D. Francisco: desde que vossa Majestade me proibiu de escrever a sua filha, já não tencionava casar-me. Desta maneira, sinto-me, agora, o homem mais feliz do mundo.

Decorridos seis meses, combinaram o casamento e os noivos andavam radiantes de felicidade! Ambos altos e bonitos, faziam um par muito gentil e interessante! Como era filha única, resolveram radicarem/se todos na América do Norte.

E certo dia lá na terra, o velho jardineiro lia, junto de sua mulher e da filha, uma carta do Carlos. Participava/lhe ele, o auspicioso enlace e a decisão de virem passar uns dias, da lua-de-mel, com eles. Comovido e limpando as lágrimas a lavarem-lhe o rosto, o bom homem – dizia a sua mulher:

- Era muito boa menina!... Era muito boa menina!... Ainda bem, que o nosso filho foi capaz de recuperar-lhe a visão. É um grande especialista, sem dúvida nenhuma. Tenho muito orgulho nele.

E ela – lembrou ainda, muito satisfeita, sorrindo:

- E temos que dar também um jeitinho à casa e fazer algumas obras…

Isto, de receber uma Princesa, não é nada fácil…

- É verdade, minha mãe. Temos de alindar a casa para recebermos, não só a Princesa, mas também o”Príncipe” Carlos… – dizia a Rosa – também bastante entusiasmada…

- Era muito boa menina!... Era muito boa menina!... Tornava a dizer o bom homem, Acácio.

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