18.9.09

 

MURMÚRIOS DO CEIRA

 

XVII

 

QUANDO EU ERA CRIANÇA

 

Na infância é que se aprende a viver: C.B.S.

 

 

Clarisse Barata Sanches no dia da sua comunhão solene

 

 

Quando eu era criança, gostava muito de visitar a aldeia onde nasci e lhe chamavam Várzea Grande. Hoje, uma vila muito bonita que dista da terra aonde resido, (e a minha mãe veio a casar com um primo) apenas cinco quilómetros.

Nesse tempo vivia ali a minha avó materna, viúva com um filho, nora e netos pequenos. Era uma santa alma, que não faltava à missa do Domingo, às novenas e rezas da Paróquia.

Morava junto ao bonito Adro da Igreja, templo que eu gostava de ir ver decorar de lindas flores do seu quintal e do da “Julinha das casas Novas”; uma senhora simples, mas muito instruída. A minha madrinha morava em frente numa enorme e bonita moradia, com um grande quintal, perfumado também de cravos e rosas que havia por ali à volta de um poço com água. Nesse tempo ela era uma considerável lavradora e “mulher de armas”, que algumas vezes vi à frente duma junta de bois. Ouvia dizer que lavrava as terras como um homem. Sem o chefe da casa para ajudar nas lides da quinta, trazia dois filhos a estudar e conseguiu formar um em Engenharia e outro em medicina, tendo este sido o meu padrinho do baptismo. Recordo com saudade, quando ele me disse um dia no Mártir: ”Li os teus versos! E foi acolá naquela Igreja que te baptizei; era ainda muito jovem.”

Lembro-me, também, que tinha muita vergonha, quando a minha mãe me mandava pedir-lhes a bênção, que era cumprimento de muito respeito e agora já se não usa nada. É tu cá e tu lá, como se fossem todos camaradas de Escola e guardadores de rebanhos na serra. Hoje, já não se respeita a idade, nem os seus conhecimentos úteis para melhor singrarem na vida., que mais parece uma balbúrdia de deseducação.

Os meus pais tinha uma loja de comércio de mercearias e produtos diversos, pelo que pode dizer-se que nasci “detrás de um balcão” e muito cedo comecei também a comerciar e a fazer cartuchinhos de papel. Gostava de jogar às pedrinhas e ao anelinho, mas só na Escola no intervalo das aulas.

Sendo o meu pai  regedor, muito nova me iniciei a escrever à máquina, fazendo requerimentos a dois escudos e cinquenta centavos cada um. Ainda tenho essa máquina de escrever, que veio da América do Norte, tinha eu dez anos.

Como em casa da minha avó materna se vivia com alguma dificuldade, a minha mãe, frequentes vezes, combinava com ela, para se encontrarem no meio do caminho da Várzea, as duas; o meu pai não sabia, mas a minha mãe ia carregada de mercearia. Sentavam-se as duas numa lousa, um bocadinho a conversarem e a matarem saudades, até que se despediam tristes, cada uma para sua casa.

A minha mãe mandou confeccionar um fatinho de Anjo, em cetim branco, com asas de tule e decorado de lindas lantejoulas, que eu gostava muito de levar vestido nas procissões de festa da Senhora da Candosa. Tinha-o sempre guardado num baú azul e estimou-o muito tempo, para que outras meninas o levassem também.

Era uma alegria ver a nossa avó em nossa casa e eu a dormir com ela. Pelo Natal, pela Páscoa e matança do porco, fazia-se sempre uma reunião de família com jantar melhorado. Vinha a minha avó da Várzea, os meus avós paternos, a tia Preciosa ainda solteira, para confraternizarem connosco. Alargava-se a mesa para cabermos todos.

Lembro ainda o convívio da lareira, nas noites frias de Inverno, com os meus avós paternos a contarem estórias de fadas, que chegaram a vir viver connosco. Tive muita pena, quando um dia assisti à morte de minha avó, em nossa casa. O meu pai foi, também sempre muito dedicado aos seus pais, recomendando: eu dormiria com a minha avó e o meu irmão com o meu avô, para que lhe aquecêssemos os pés.

Comparando com a vida actual de hoje, verifica-se um desapoio tristonho da terceira idade que não goza da companhia constante dos filhos e a alegria contínua dos netos em seu redor. Surgiram os Lares, mas estes não compensam a dedicação e a estima da família, tão salutar nos tempos idos e saudosos. Apenas desejam herdar os seus haveres e mais nada…

Tenho muita pena dos meus tempos de criança, porque o respeito a convivência e o amor imperavam como lei nas famílias, nos Amigos, nas Escolas e em todos os actos da Vida.

 

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Quem diria que um dia mais tarde esta menina, com um ar

triste e sério, havia de fazer um soneto a meias com um grande poeta brasileiro de nome Renã Leite Pontes.

 

A LIRA DESPEDAÇADA

 

Ao prezado Amigo Prof. e Distinto poeta Renã Leite Pontes, com votos de melhor saúde.

 

 

 

R – Obra-prima busquei, beijei-te a lira,
C – Que achei encantadora, aliciante!
R – Eu te esperava lívida e, num instante,
C – Algo de ti, oh! Lira, se esvaíra...

 

 


R – Eu nunca acreditei que alguém te vira
C – Com esse teu olhar relampejante
R – Em formato tristeza, bela infante,
C – Que o sonho numa noite te vestira.

 


C – Mas logo, ao acalmar os Corifeus,
C – A Musa, que te deu inspiração...
C - Desarvorou de ti... Sem um Adeus!

 


R - O golpe vil vibrou, pelos espaços
R - Entrou, feriu um nobre coração...
R - A Lira se partiu em mil pedaços.


Clarisse Barata Sanches e

Rena Leite Pontes

 

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