1.10.09

 

MURMÚRIOS DO CEIRA

 

XII

 

ESTRELA DO VALE

 

Todo o médico que conforta um doente, cumpre bem o seu mister.C.B.S.

 

 

Teresa Margarida e Aninhas

Numa e graciosa vila denominada: “Vale de Estrela”, enquadrada nas plagas transmontanas, vivia há muitos anos um gentil casal que tinha uma filha de nome: Teresa Margarida. Antes do seu nascimento, haviam tido uma outra filha que Deus levou para o Céu, mal começou a dar os primeiros passos, pelo que veio esta amenizar um pouco as saudades da Rosinha, que lembrava mesmo um terno botão de rosa.

A Teresinha como era carinhosamente tratada e era agora o ai Jesus da casa, mais parecia um Anjo do Céu, que um ser para este mundo criado! O pai – Alberto Soares – um médico conceituado e a mãe – D. Maria da Soledade – uma senhora muito prendada que havia sido educada num Colégio de freiras.

Desde pequenina que começou a notar-se na Teresinha uma certa inclinação mística e uma bondade sublime, que mais parecia sobrenatural! Os pais professavam e praticavam a religião Católica e por isso, ainda cedo, a menina faria a sua primeira comunhão solene.

Nesse dia de manhã – disse a sua mãe:

- É hoje um dia muito feliz para mim, não só porque vou receber Jesus no meu coração, mas também porque a mãezinha anuiu ao meu pedido de vestir duas meninas pobres que não tinham um fatinho branco para levarem na festa. Estou ansiosa para ver a Rita e a Maria Adelaide vestidas como eu.

- Sim, irão vestidas rigorosamente a teu gosto. É verdade, ainda te não disse que comprei para elas um livro de missa e um terço branco igual ao teu. Após as cerimónias quero que tirem uma fotografia todas três.

- Obrigada, mãezinha, por me dar tanta alegria! Desculpe, mas ainda quero pedir-lhe outra coisa… Sei que a Rita e a Adelaide não têm em casa almoço de festa, com arroz doce. Por essa razão, se os paizinhos não se importassem, elas seriam minhas convidadas na mesa.

- Tontinha! Por que havíamos de nos importar? Nós o que mais desejamos é ver-te feliz e contente e, evidentemente, também gostamos de as mimosear… neste dia inesquecível da vossa primeira comunhão.

Na hora da refeição, em que já estavam todos sentados à mesa e andava a criada – Maria – a servi-los, alguém bateu à porta a chamar o Sr. Doutor com urgência para ir ver uma doente fora.

Naquele momento, ouviu-se a voz da esposa – dizer:

- Não, Alberto, Almoça primeiro e depois vais. Hoje, é um dia muito especial e temos de estar reunidos.

A Teresinha que ouviu a conversa e ouviu a decisão da mãe – logo volveu:

- Desculpe, mãezinha, mas o pai tem de ir já. Está alguém a precisar da sua ajuda, e quem sabe se o caso é de vida ou de morte?!

- Vá, paizinho, cumprir o seu dever de médico.

- Vou, sim, filha. O teu pedido é uma ordem.

O Dr. Alberto foi então tirar o carro da garagem e convidou o empregado para o acompanhar a casa da doente. Quem veio chamá-lo, foi um vizinho lá da aldeia, que depois os guiou até à modesta casa, situada nos píncaros duma será, onde o vento era agreste e soprava forte naquela hora..

Chagados lá, o médico entrou e, em vez de uma, encontrou duas doentes naquela moradia humilde, na qual tudo significava miséria! A senhora tivera uma crise cardíaca, consequência de um desgosto profundo que lhe dera a sua neta Rosália, uma moça bonita, de dezassete anos, que ela criou de pequenina e lhe confessou – estar com dores para dar à luz uma criança…

O Dr. Alberto Soares, logo percebeu o que se estava a passar e uma vizinha acabou de lhe contar a triste odisseia. Órfã e abandonada pelo namorado, vivia agora momentos difíceis, por ter acreditado num cabeça leve qualquer, que ali aparecera e a seduziu com frases de vil enganador…

à senhora Amélia tendo já oitenta e dois anos e estando quase cega, não resistiu à desagradável surpresa de saber a neta, moça solteira a quem muito queria, com dores de parto!... Embora ainda com vida, quando o médico chegou, nada havia a fazer, porque o seu coração enfraquecia a cada momento e assim expirou. O Dr. Alberto Soares – disse, então, para a vizinha – Preparem as coisas, que a senhora, infelizmente, já não é deste mundo. Vou levar a rapariga ao Hospital, para que seja socorrida e a criança possa nascer sem problemas.

Quando regressou a casa, o Doutor explicou à esposa o drama sucedido e que havia já nascido uma menina, ao qual a D. Soledade deu logo solução de maneira terna e determinada.

- Temos de proteger essa moça que ficou sem família e como notaste, desamparada. Enquanto não tiver uma situação estável, poderá vir cá para casa. À criança se dará também um jeito. Vai ser uma alegria para a nossa Teresa Margarida.

Os senhores tinham uma empregada, mas resolveram ficar também com a Rosália e ainda com a criança, à qual foi dado o nome de Ana Luísa. Teresinha foi a madrinha e andava radiante por ter em casa uma boneca a sério, chamando-lhe Aninhas,

Aos onze anos a Teresa Margarida foi internada num Colégio do Porto, indo o pai aos fins-de-semana buscá-la para passar estes dias com eles. Estava ela sempre ansiosa para vir brincar com a Aninhas e cantar já no grupo coral da Igreja.

Nas férias do Natal aproveitava sempre para visitar os velhinhos e os doentes da terra e levar-lhes uns docinhos que a sua mãe sabia fazer. Era ela que armava o Presépio na sala com luzes de todas as cores! Aninhas gostava de vê-la arrumar as figurinhas e dizia: Jesus é muito lindo, não é?

- Pois é. E, como vês, nasceu pobre num curralinho de animais… para nos mostrar que não devemos ter vaidade – dizia-lhe ela, com o fim de a ir doutrinando.

Já com dezassete anos, uma jovem lindíssima e simpática, Teresa Margarida gostava de dar sugestões de humildade a sua mãe e falava-lhe assim:

- A mãezinha tem tantos vestidos lindos, por que não dá alguns? E por que não vende as jóias? Isso daria para matar a fome a muitas crianças que, no mundo das guerras, vivem mal. Eu nunca hei-de usar jóias caras. O Senhor não deve gostar que andemos enfeitados com valores que faltam aos infelizes da Terra. Na Etiópia, no Sudão, na Somália, em Angola e noutros países, dizem que há imensas pessoas a morrerem de fome!

D. Maria da Soledade era uma senhora bondosa, mas, como esposa de um médico, gostava de trajar bem, passear e assistir a festas mundanas. Sua filha não era da mesma opinião nem gostava que lhe comprassem muita roupa. E lembrava a obrigação de sermos simples como foi a mãe de Jesus, que vestia com modéstia e não usava atavios nem pinturas. Teresinha achava estranho haver tanta “devoção” para com a Virgem de Fátima, que disse aos Pastorinhos em 1917 que Jesus estava muito ofendido com as modas imorais, e entrar-se hoje na Basílica ou mesmo no Recinto sagrado, de qualquer modo e sem respeito pelos avisos do Céu.

E é certo; quando em 13 de Maio do ano 2000, João Paulo II veio a Fátima beatificar os dois Pastorinhos: Jacinta e Francisco Marto, ele aludiu, num certo momento: “criancinhas, reparem como vestiam os Pastorinhos de Fátima!” E ainda mais: - frequentem a “Escola dos Pastorinhos!... Frases que se devem guardar na memória e seguir.

Teresinha, que não acompanhava as modas, lembrava frequentemente a sua mãe o que Jesus disse aos Apóstolos:

- “Não vos preocupeis com o que haveis de comer ou de vestir. Reparai nos lírios do campo, como crescem! Não trabalham nem fiam. Pois digo-vos: nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como eles. Vosso Pai sabe das vossas necessidades; procurai antes o Seu Reino.”

- Tens razão, minha filha, – dizia-lhe a mãe; tenho de começar a privar-me de algumas coisas a favor das Instituições de Solidariedade e de quem mais precisa.

- Fico contente, por a mãezinha estar de acordo comigo.

Havia já algum tempo que a menina não se sentia bem de saúde. Não queria entristecer a mãe, mas um dia teve de lhe dizer:

- Sabe, mãezinha, ando a sentir-me cansada, mas não se assuste, pois não há-de ser nada de importância.

- Cansada? Uma jovem como tu és?! Quando chegar o teu pai do Consultório vou dizer-lhe que precisas de ser examinada por um especialista, afim de tratar-se das análises necessárias. Realmente, andas muito pálida e perdeste o apetite – volveu a mãe – já muito inquieta.

O Dr. Alberto, depois de ouvir a esposa falar dos seus receios sobre o mal-estar da filha, pensou imediatamente levá-la a Lisboa, onde tinha bons médicos amigos, que a observariam com todo o cuidado.

Teresa Margarida ficou então numa Clínica uns dias, acompanhados da mãe, até que completou os exames precisos. À vista dos resultados, os pais ficaram muito apreensivos e tristes, porque o diagnóstico era reservado… Perante tão graves sintomas, um especialista, amigo, aconselhou os pais a levarem-na a Inglaterra. Talvez lá pudessem tratá-la com melhores terapêuticas.

A jovem tinha muita paciência e com ela procurava, a todo o momento, sossegar os pais.

- Nada me dói, paizinhos; e não vejo motivos para tanta preocupação, mas, se acham bem, vamos a Inglaterra.

E não demoraram muito a decidirem-se. Na semana próxima trataram dos passaportes e abalaram com ela. Um especialista, recomendado, já os aguardava num Hospital de Londres.

Cerca de três meses estiveram ali com a Teresinha, que recuperou bastante e parecia até melhor.

Vinda para Vale de Estrela, começo a fazer a vida normal, prosseguindo os estudos no Porto. Todavia.. notava-se que já não possuía a mesma alegria e vivacidade. Infelizmente, daí a meio ano, surgiram os mesmos sintomas e com eles mais internamentos, transfusões de sangue, etc. Deste modo, as esperanças de cura iam-se desvanecendo da mente daqueles amargurados pais, que tanto queriam à sua querida filha. Faziam-se promessas e o quarto dela estava repleto de imagens e santinhos. Todos os dias de manhã os passarinhos vinham saudá-la com maviosos cânticos na sua janela, aonde o sol também entrava para a beijar… Um dia falou assim a sua mãe:

- Quem sabe, mãezinha, se Deus me quer lá junto Dele… Se for verdade, não quero que fiquem tristes, mas antes conformados por Ele me escolher para me ter a seu lado. Tenho já dezoito anos e meio, uma idade bonita para cantar ao Senhor e louvá-lo no Céu, com toda a força da minha alma.

- Tu, ainda não vais para o Céu, mas se fosse essa vontade do Senhor, teríamos de pedir-lhe que nos ajudasse a minorar as saudades.

- Se isto acontecer, quero recomendar à mãezinha que continue a servir os mais tristes, sem deixar de visitar os doentes e os mais idosos que deixo por aí a penarem… Que pense muito em Deus e na Nossa Senhora e sempre seja uma alma simples, reparando nas pombas e nos lírios do campo que só usam uma roupa que Deus lhes vestiu. Leia com atenção as cartas de S. Tiago e de S. Paulo que muito nos ensinam. Cuide da Aninhas como sua filha e minha irmã e ensine-lhe os caminhos do Senhor, para que não escorregue na ribança da perdição… O mundo está cheio de ilusões e precipícios… Lá do Céu, se puder, mandarei para a Terra, como Santa Teresinha de Lisieux, “uma chuva de rosas!” Dê-me agora um beijinho, minha mãe, e anime o meu pai, que sinto andar aos ais pela casa toda.

D. Maria da Soledade beijou a filha, com os olhos rasos de água e sem coragem para articular uma só palavra…

Como já não saía do quarto, Teresinha chamou uma vez ali o pai, a sós, para lhe transmitir alguns avisos e confidências:

- O paizinho é uma pessoa amorosa e digna que seguiu a carreira médica por vocação inata, eu sei. Mas queria pedir-lhe que continuasse a servir os doentes, com muito carinho e solicitude.

Sempre que possa, visitá-los em casa, especialmente os méis velhinhos. E agora, recordo-lhe estes pensamentos de um grande médico e filantropo Dr. Fernando Bissaya Barreto, que deixou uma obra extraordinária na região de Coimbra e que o meu pai conhece perfeitamente:

“Só será bom médico aquele que for capaz de sofrer com o seu doente, viver a sua doença, conhecer o seu corpo, compreender a alma. O contrário não é medicina, é… veterinária e da má.”

Muito pesaroso, sei pai beijou-a – proferindo:

O Dr. Bissaya Barreto era um Distinto médico e um Homem de coração grande! Conheci-o pessoalmente e fez o favor de ser meu Amigo.

Eu sei, Teresinha, que os doentes são nossos irmãos e filhos do mesmo Deus. Está descansada que, enquanto eu tiver saúde, cumprirei a minha missão de médico, com dignidade e sentido humano.

- Obrigada, Paizinho! Espero vê-lo no Céu!

Passado um mês – dia de Nossa Senhora da Conceição – à tardinha, Teresa Margarida, a ficar-se como um passarinho, - disse aos pais que via à portado quarto dois Anjos vestidos de branco a sorrirem para ela!...

Foi comovente a cena da despedida, com todos de casa à sua volta, fazendo um esforço grande para não chorarem naquela hora pungente e solene em que Teresinha, ao beijar pela última vez os seus pais e Aninhas, subia ao Céu, expirando santamente.

No dia seguinte, ninguém ficou em casa naquela terra! Novos e idosos fizeram questão de acompanhar a jovem menina à sua última morada. As crianças, com raminhos de flores brancas na mão, muito compenetradas no seu papel, lembravam filas de Anjos a pedirem a Deus que recebesse, com muita ternura, esta “Rosa” de Vale de Estrela.

O sino da Torre de Vale de Estrela não dobrou de tristeza. Teresinha havia pedido – antes – que ele repicasse de alegria; e assim aconteceu, O povo, sim, chorou imenso a partida da sua “menina” tão pura e meiga, que deixou Saudades em todos que a conheceram e que com ela conviveram.

Os seus pais ficaram, naturalmente, muito desolados! E também Aninhas desde aí ninguém mais a viu sorrir. Ia sempre com a D. Sociedade e a mãe levar flores das mais lindas à Capelinha jazigo, que abrigava o corpo de Teresinha, ao lado de um Crucifixo e de uma linda fotografia dela, sorridente.

O Dr. Alberto Soares e a D. Maria da Soledade eram pessoas virtuosas, mas, aceitando com fé a perda da sua menina, fizeram-se ainda melhores. Na sua mesa-de-cabeceira, lá estava sempre a Sagrada Escritura, a servir-lhes de conforto e a fazer-lhes cumprir os últimos e caros anseios da Teresinha. E assim sucedeu. Enquanto andaram no mundo, foram eles testemunhos vivos da Palavra santa do Evangelho, firmando os passos na terna lembrança de sua filha e nos sagrados caminhos de Jesus.

Mas, nas horas mais saudosas, o pai não se continha! Suspirando muito – dizia comovido: estudei para médico e não pude salvar a minha filha!

Ana Luísa fez-se uma amorosa rapariga, que os pais de Teresinha protegeram como filha, e tentaram incutir-lhe as virtudes que coroaram em vida a terna fronte de Teresa Margarida! Foi como deixasse cá o retrato da sua alma! Por todas estas bênçãos divinas, deveria ela sentir-e feliz no Céu.

O povo daquela terra, comparando Teresinha à Sãozinha de Alenquer, já lhe pede graças e chama-lhe agora: - “Estrela do Vale”!

 

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