23.10.09

 

 

 

                                                    MURMÚRIOS DO CEIRA

 

                                                  VII

 

                                   AMOR SEM FRONTEIRAS

                                         

     Olhos vendados para o mundo, abrir-se-ão no Céu, diante de um sol diamantino, feito por Deus. C.B.S.

                                        

                             

 

 

 
Maria Clara estudava em Aveiro, estando hospedada em casa de um casal amigo de seus pais, abastados agricultores, a viverem numa aldeia do concelho de Águeda. Percebendo a mãe, a D. Carolina, que ela tinha uma certa inclinação para os estudos, um dia comentou – com o marido:
- A pequena é inteligente e, como já notei, tem vocação para os estudos. O irmão, que está seguindo a carreira de Advogado no Porto, não vai querer ser agricultor, e não será ela, provavelmente, que irá administrar as nossas terras, que são diversas.
A senhora Albertina, de 48 anos, irmã do senhor Américo dos Santos (esposo da D. Carolina), que vivia com eles, – atalhou – um pouco aborrecida:
- Então, quem vai cuidar das propriedades que os nossos pais nos deixaram? – Respondam-me, por favor!
A D. Carolina – opinou:
- Enquanto pudermos cuidaremos nós das quintas e das casas. Depois, quando o Henrique tiver o seu curso de Direito, encarregar-se-á ele da sua administração. Nota-se que é enérgico, e já tem umas luzes da actividade agrícola, pelo que não estou muito preocupada com isso. A Maria Clara ainda não decidiu o seu futuro, apesar de sempre me dizer que gostaria de ser Enfermeira. Não sei… O futuro a Deus pertence…
- Uma Enfermeira na família, até dá jeito, Carolina – atalhou o marido – aplaudindo a ideia com todo o entusiasmo. Mais tarde, na velhice, custa menos estar doente, com uma dedicada enfermeira ao nosso lado, não acham? 
Pensavam eles no melhor para os seus filhos, mas a senhora Albertina preocupava-se muito com a conservação das quintas e bens que tinha herdado dos seus antepassados, e – tornava a dizer:
- Pois é. Mas eu é que me não convenço muito. Parte das nossas fazendas já estão de pousio com silvas, e por este andar seguem as restantes. Tudo custou muito aos nossos avós… Mas pronto! Temos de acompanhar o desenrolar dos tempos, no entanto, vermos tudo ao Deus dará, é bastante desagradável.
Como já se referiu, a Maria Clara estava em Aveiro, vindo só a casa no tempo das férias. Ali tomou conhecimento e amizade com uma colega que, como ela, frequentava o Secundário. Chamava-se Alexandra e tencionava formar-se em medicina. Entre ambas reinava, desde há tempos, uma certa estima, mas eis que chegou o momento e a curiosidade de saberem quem eram as famílias, de parte a parte, como e com quem viviam.
Alexandra, depois de estar inteirada da vida familiar da Maria Clara, numa certa tarde em que foram as duas passear até ao Parque, começou a desfiar o “novelo”… e falou assim:
- A minha vida familiar é um tanto complicada e triste, Maria Clara! Meus pais faleceram num desastre de viação, tinha eu 3 anos e o meu irmão 5. Por acaso, não viajávamos nesse dia com eles, mas esta fatalidade marcou-nos para sempre. Quem conduzia o carro dos meus pais, nesse dia fatídico, era um tio nosso, ainda solteiro, que residia no Canadá e estava cá de férias. Também ele perdeu a vida, após dois meses em coma no Hospital, em Coimbra. Constou-se que foi uma avaria nos travões que não obedeceram ao afrouxamento do carro despistado. A minha avó paterna, doente cardíaca, perante tão grande desgosto, pouco tempo sobreviveu aos filhos.
Foi uma pena! Os meus pais tinham um relacionamento afectivo, espectacular! Casados, havia apenas seis anos, viviam ainda uma autêntica lua-de-mel e os filhos eram, naquele momento, o motivo principal da sua felicidade.
É verdade que o Castelo dos seus sonhos começou a ruir, apenas se soube que o meu irmão nascera cego! E foi terrível, Alexandra!
Os meus pais consultaram então, os melhores especialistas de Espanha e Inglaterra; foram aos Estados Unidos com ele, e não conseguiram uma luzinha de esperança.
- Estou deveras impressionada com a tua história, minha amiga! O teu irmão deve sentir-se muito triste e desencorajado.
- Não muito, Maria Clara. Aprendeu Braille com uma facilidade espantosa! Vocacionado para as letras e para a música, escreveu já um romance para cegos, que agradou imenso e tirou o curso do Conservatório, Toca piano maravilhosamente, gosta de poesia, compõe músicas e até canta muitíssimo bem! Tem imensos poemas na gaveta para o livro que pensa publicar, e este não é para cegos.
- Então, como?
-- Ainda bem que estamos na era dos Computadores, aos quais o meu irmão está a adaptar-se de maneira excelente, tencionando ainda tirar um curso superior. Eu tento ajudá-lo, mas se visses como ele maneja aquela máquina?! Tem uma memória incrível! Depois, tudo lhe sai perfeito.
- Gostaria de conhecer o teu irmão. Quando é que podes apresentar-mo?
- Muito breve, se quiseres. Vais ficar admiradíssima!
- Mas ainda não me contaste, Alexandra, quem vos acabou de criar e com quem vivem?...
- Após aquela tragédia, ficámos com a minha avó materna, a minha tia Idalina, irmã de minha mãe, que é a minha madrinha, e a nossa empregada – Rosa.
Há cerca de cinco anos, a minha avó, com muita pena nossa, não resistindo a uma doença incurável, faleceu. Ficámos então com a minha madrinha e a Rosa que nunca quiseram mudar de situação, por nos terem muita amizade. Ambas diziam:
- Casarmos, para quê, se temos aqui em casa a quem nos dediquemos e tanto precisam de nós? Além do mais, só se vêem pessoas descasadas e maltratadas…
E é com estas duas almas, muito queridas, que nós vivemos em paz e, graças a Deus, sem dificuldades económicas, pois os meus avós maternos viveram sempre de maneira desafogada e tinham, apenas, duas filhas: a minha mãe e a minha madrinha Idalina. Do lado do meu pai, que eraEngenheiro Civil, também herdámos já, de minha avó, uma boa moradia que temos arrendada e ainda uma pequena quinta em S. Pedro do Sul. Meu avô paterno, dali natural, era Tesoureiro da Fazenda Pública. Agora, aposentado e viúvo, vive com uma antiga empregada. Homem muito estudioso, não se cansa de comprar todo o género de livros. Tem uma biblioteca incomensurável!
 
Vivemos um pouco distanciados, mas temos com o nosso avô um relacionamento muito amigo! Costuma vir cá passar pelo Natal e pela Páscoa, e nós deslocamo-nos lá, sempre que nos é possível. Se visses a alegria dele… quando vê os netos em sua casa! É espectacular o nosso avô! Nós também fazemos por cumprir o dever de sermos amigos dele. Nunca lá vamos sem que lhe levemos um bolinho para ele adoçar a boca…
- Ainda não deixei de pensar no teu irmão. Como se chama ele?
- Augusto Manuel, ou seja: tem os nomes dos nossos dois avós.
- Os dotes do teu irmão, fazem-me lembrar um pouco a norte Americana: Helena Keler, escritora e doutrinadora, nascida em 1880 que, ficando cega e surda aos dezanove meses de idade, se licenciou, com 24 anos, em Filosofia. Uma grande mulher de coragem e de amor ao próximo, que deixou diversas obras traduzidas em muitas línguas! São bastantes conhecidas estas frases suas: “A vista e o ouvido não são os únicos meios pelos quais as nossas sensações se despertam. Por mim, sinto-me impregnada de ambiências… Por toda a parte se encontram maravilhas, mesmo nas trevas e no silêncio.”
- Também já li referências dessa mulher notável que sabia ler nos lábios das pessoas com quem falava. Que extraordinário instinto e saber! Se não estou em erro, Helena Keler este em Lisboa em 1956, presidindo a uma Conferência.
- O sol está a pôr-se, Maria Clara; temos de separar-nos. Lá em casa podem estar em cuidado e o meu irmão precisar de mim. Sou como a sua bengala…
- Fazes bem, Alexandra. Como sabes, eu resido aqui perto e, se não te importas, um dia destes bato-te ao ferrolho…
E não demorou muito a concretizar o seu desejo, Num Domingo, depois do almoço, lá estava ela a tocar a campainha da porta… Apareceu a Rosa que sabendo-a amiga da menina Alexandra, logo a mandou entrar para a sala.
Imediatamente a Maria Clara surgiu para cumprimentarem-se num caloroso abraço e referiu:
- Sentamo-nos; mas que bom ter-te aqui! Tens sabido dos teus pais? Como estão eles?
- Graças a Deus, bem. O meu pai esteve cá ontem. Trouxe-me um bolo que trago para repartir convosco e saudades da minha mãe. Também não tardam as férias da Páscoa para ir lá comer as amêndoas… É interessante! Tal como sabes, nestas terras ainda se mantém a alegre tradição de vir o Snr. Prior a casa lembrar a Santa Ressurreição de Cristo, com palavras de Boas-festas e Aleluias, que as famílias retribuem com agradecimentos e um pequeno “folar” colocado sobre a mesa. Os acompanhantes apresentam a Cruz, que todos beijam respeitosamente, e espargem água benta pela casa; tudo isto ao som das campainhas.
- Eu sei, Maria Clara! E é pena que este convívio interessante esteja a ficar em desuso. Aliás, por aqui e em muitas terras do norte ainda se pratica a tradição da Páscoa, em que muitas pessoas, desejando receber o senhor, juncam as frentes da porta das casas com flores e rosmaninho. Crianças, jovens e adultos, percorrem neste dia as vivendas de parentes e Amigos para estarem presentes na chegada ali da visita Pascal e confraternizarem um pouco.
- Vou ter saudades tuas, mas quinze dias passam depressa. O meu irmão está no escritório. Vamos ter com ele, que quero apresentar-to.
O escritório era um enorme compartimento da casa, com largas janelas envidraçadas que davam para o quintal, estantes com livros até ao tecto, poltronas, duas secretárias e algumas plantas. De volta com o Computador, levantou-se apenas ouviu a irmã dizer:
- Dás licença, Augusto Manuel, que te apresente a minha amiga, Maria Clara?
- Com muito gosto! Ora viva, Maria Clara! A minha irmã já me havia falado em si, com muita admiração!
- Olá, Augusto! – Muito prazer em conhece-lo também. Mas que bonito rapaz! Sabe?! Imaginava-o baixinho e gordo, e deparo-o alto e bastante elegante, – volveu Maria Clara – num tom de graça, sorrindo…
- O destino assim o quis. Deu-me certos atributos e negou-me outros mais preciosos. Infelizmente não posso vê-la, mas a minha irmã já me apresentou o seu encantador retrato!... Da voz, já fiz juízo, É deveras cativante!,,,
- Muito obrigada. Em troca do elogia, vamos ser muito amigos.
Após o primeiro contacto, Maria Clara, fixando o seu olhar terno naquele rapaz moreno, esbelto, de óculos escuros, logo se sentiu atraída por algo que não sabia explicar e muito a impressionou…
Alexandra aproveitou para lhe mostrar alguns trabalhos interessantes do irmão, que a deixaram pasmada; isto, enquanto a Rosa e a madrinha preparavam, na cozinha, um lanche para todos.
- Estou encantada com tudo e convosco, mas tenho de ir – disse Maria Clara. Ah, mas hei-de voltar mais vezes. O Augusto Manuel ainda há-de ensinar-me a trabalhar com o Computador.
- Volte sempre que deseje, que nos dará muita alegria, – volveu o Augusto Manuel.
E assim aconteceu. As visitas àquela casa tornaram-se assíduas e o Augusto Manuel sentia-se feliz por, em vez de uma, ter agora duas secretárias. Curiosamente, a Maria Clara ainda se mostrava mais solícita e atenta ao que ele escrevia; naturalmente, num veemente desejo de lhe agradar e aprender a manejar o Computador para o auxiliar naquilo que pudesse.
 
Chegou o tempo da férias da Páscoa e com elas o dia da despedida. Maria Clara, com as malas preparadas, deu um salto a casa dos amigos, afim de lhes dizer Adeus.
Chamou à porta e quem veio atender foi o Augusto Manuel que, nessa hora, se encontrava só em casa. Alexandra e a madrinha haviam ido ao dentista e a Rosa fora também fazer umas pequenas compras.
- Venho despedir-me, Augusto! Daqui a duas horas o combóio parte para Águeda. Quando regressar acabaremos de pôr os poemas em ordem.
- Mas entre, Maria Clara, e espere um bocadinho, que elas não devem demorar.
- Só disponho de meia hora para a despedida.
A jovem entrou para o escritório e ainda lhe ditou um soneto para o livro publicar muito brevemente; e foi ela, mesmo, que escolheu o título: “Ensaios Poéticos”.
- Quando chegar a casa – dizia a Maria Clara – vou ouvir os “sinos de Mafra”. As notas não são especiais, e, então, terei de contar à minha mãe os sonhos meus, que me trazem a mente em devaneio….
- Em devaneio? Não entendo!
- Depois lhe conto quando regressar de férias – se é que ainda não descobriu o que me vai na alma…
Augusto Manuel disfarçou bem a sua comoção de alegria e nada disse, porque de maneira nenhuma queria dar-lhe a conhecer os seus sentimentos, que via agora a cruzarem-se nos dela…
- Tenho pena, mas vou-me embora. Apresente a todas as minhas despedidas. Talvez logo à noite ligue cá para casa.
- Bem-haja por tudo, Maria Clara, e recomende-nos também a seus pais e tia.
Um beijo sentido e respeitoso selou a despedida daquelas duas almas gémeas que iniciavam uma estrada paralela e quem sabe com alguns precipícios pelo caminho…
 
Já na sua linda aldeia, onde era muito querida, Maria Clara foi saudada por muitos conterrâneos, tendo a sua família ficado radiante e a completar-se a felicidade, quando chegasse do Poro o Henrique que estava prestes a ter o seu curso de Direito, na mão.
Com as férias quase a terminarem, Maria Clara não queria partir sem contar a sua mãe certa efervescência de afecto que trazia dentro de si. Aproveitando uma ausência do pai e do irmão, teve de desvendar algo do mistério…
- Sabe, mãe, a minha amiga tem um irmão, com 22 anos, que é uma sumidade de inteligência, também simpática e bondoso. Um rapaz muito gentil!
- Vê o que andas a fazer… Tu, não te prendas com ninguém, Maria Clara, sem completares o teu curso. Bem sabes que o teu pai não é de modas…
- O meu curso vai razoavelmente bem e penso terminá-lo daqui a dois anos. Até lá decidi não dar-vos motivo algum que mereça o vosso reparo, mas com certeza, terão de aliar-se também à minha tendência de aspirar a um futuro risonho e à de quem precisa igualmente de felicidade…
Sua mãe, não percebendo o que ela queria dizer com isto, – apenas disse:
- Tem juízo minha filha, e porta-te sempre bem.
Maria Clara perante os sérios avisos de sua mãe, já não teve coragem de adiantar mais nada. O tempo ajudaria a desbravar o “terreno”… esperando que Deus que manda dar a mão a todos apoiasse a sua causa.
Conforme havia prometido a sua mãe, iria ser mais aplicada nos estudos, fazer por sossegar melhor a cabeça, para dali a dois anos conseguir terminar o seu curso com boa classificação, dar essa grande alegria aos seus pais e contar-lhes o resto da historia…
Em Aveiro, as visitas ao Augusto Manuel e à Alexandra, eram agora menos frequentes, até porque ela estudava em Coimbra; também eles tinham de estudar, Mas, mas nas tardes de Domingo, lá estava ela para trocarem impressões e sentarem-se num banco do jardim e à sombra de um caramanchão que ali havia no bonito quintal. Quase sempre o Augusto ordenava à irmã para lhe colher das mais lindas rosas para ela levar, cujo perfume, – dizia vir do jardim de Deus!
Com efeito, a Amizade entre eles cada vez mais se consolidava. A Alexandra, que andava um pouco desconfiada, um dia avisou o irmão, deste modo:
- Vê, como te portas com a Maria Clara!... Repara, que é a minha melhor amiga.
- E a minha também – volveu ele – um bocadinho triste.
- Está bem – mas os pais dela podem não receber a notícia do vosso relacionamento afectivo com agrado.
- Olha, Alexandra. Conheço, infelizmente, as minhas limitações e, como já lhe disse a ela, não poderemos ser mais que grandes amigos. Tenho pena, mas vou ver se consigo persuadi-la a deixar de vir a nossa casa, pelo menos, por algum tempo.
E assim, num dia em que a Alexandra foi preparar o lanche, Augusto Manuel aproveitou aqueles momentos para dizer à sua amiga:
- Tenho receio que os seus pais se desgostem muito, apenas saibam o grau de Amizade gerada entre nós, e que possa também prejudicar os seus estudos. Não acharia bem que interrompêssemos, por um tempo ou até ao final do curso, os nossos contactos? Que lhe parece?
- Os meus estudos vão bem, graças a Deus, – respondeu ela – de maneira sentida e inquieta – mas vou aceitar o seu alvitre, não com receio dos meus pais, mas por si, que não deve sentir a mesma estima por mim.
- Não queria magoá-la, mas…
Entretanto, chegou a Alexandra e suspenderam o diálogo. Após o lanche, Maria Clara despediu-se triste dos amigos com um “até qualquer dia”, que a Alexandra achou um bocadinho estranho e seco…
A partir daqui, os relacionamentos, entre eles, alteraram-se consideravelmente. Apenas os cumprimentos de cortesia por escrito nos dias diferençados. Sempre que se encontravam na rua, as duas amigas falavam com entusiasmo, quase sempre sobre os estudos e sem que a Maria Clara se esquecesse de perguntar pelo Augusto Manuel, que trazia ainda no coração. Também ele não se esqueceu de lhe mandar o seu novo livro de poemas, com uma cativante dedicatória que muito a sensibilizou. E, como já disse, fora ela mesmo que escolhera o título.
 
São agora decorridos dois anos; e a Maria Clara terminou o seu curso de Enfermeira com elevada classificação. Por este motivo, os seus pais fizeram questão de querer organizar um jantar de amigos, com o fim de comemorarem o feliz acontecimento.
Maria Clara, que nunca olvidara os bons Amigos Augusto Manuel e Alexandra, disse a sua mãe que não apoiaria esta iniciativa e nem se realizaria festa alguma, se os seus pais não autorizassem que mandasse um convite para o jantar ao Augusto Manuel e à Alexandra, que foram sempre os seus melhores amigos.
Sua mãe tratou de convencer o marido que respondeu assim:
- Se bem me lembro – disseste-me uma vez que esse rapaz era cego de nascença. Não sei como a rapariga inclinou para aquele conhecimento, mas autorizo que venham todos, desde que daí não surja nenhum inconveniente.
Maria Clara, logo que teve luz verde do pai, não mandou convite nenhum; meteu-se no comboio e foi ela mesmo, pessoalmente a Aveiro convidar aqueles bons amigos, sem, o que não se faria a festa.
Recebida, como sempre, com muito carinho e muita alegria naquela casa e após ter explicado a razão que ali a levou, – disse-lhe a Alexandra, sorridente:
- Foste mais esperta do que nós, que ainda não concluímos os nossos cursos, mas também falta pouco. Desejamos-te muitas felicidades e desculpa, Maria Clara, mas não vamos à tua terra.
- E eu não saio daqui, sem que me dêem uma resposta afirmativa, a não ser que me ponham na rua … Como dizia o saudoso jornalista Fernando Pessa: E esta, hein? Vá, sério, digam: posso contar convosco? Relativamente ao meio de se deslocarem até lá, eu mobilizo o meu irmão para vir buscar-vos, mais a tia Idalina e a Rosa.
Embora os irmãos não estivessem nada entusiasmados a saírem de Aveiro, mas à vista de tanta insistência, deliberaram fazer-lhes a vontade. Contudo, a tia e a Rosa ficariam a guardar a casa.
Chegando o dia aprazado, o Henrique e a irmã apareceram cedo para os conduzir a S. Miguel, local onde seria realizado o convívio. Maria Clara fez as apresentações e determinou sentar os amigos à mesa junto dela e ao lado da sua família.
Um famoso conjunto musical abrilhantou a festa, que decorreu bastante animada, tendo a Alexandra dançado o tempo todo com o Henrique, irmão da Maria Clara. Esta, que não quis dançar, aproveitou para ter uma conversa amena com o Augusto Manuel para saber dos seus progressos literários e o curso de Informática que havia decidido tirar. Informou-a ele, também, de um livro de pensamentos, de sua autoria, que andava com desejo de publicar. Maria Clara, que tinha uma certa predilecção por provérbios, – logo atalhou:
- Tem graça! Também gosto de pensamentos e já fiz alguns. Veja se lhe agradam estes dois: “Para que possa produzir efeito, a Amizade cultiva-se como uma for” – “A Poesia é o reflexo do Céu a tocar nas coisas belas da terra”!
- Gosto muito. São lindíssimos! Parabéns pela profundidade de conceito que encerram - respondeu ele.
Maria Clara tinha prevenido os pais para que não tivessem nenhuma conversa indiscreta com o Augusto Manuel, sobre a sua cegueira. Os deficientes não gostam, naturalmente, que lhe avivem os seus complexos, – esclareceu ela.
Perto da meia-noite e feitas as despedidas, voltou o Henrique e a irmã trazê-los a Aveiro, que agradeceram muito a hospitalidade e as atenções, de que se viram rodeados.
O Henrique que parecia ter ficado encantado com a amável e distinta presença de Alexandra, de regresso encetou assim um diálogo com a sua irmã:
- Alexandra é uma rapariga muito simpática. Gostei dela e da sua maneira de ser. Penso até em escrever-lhe, que dizes?
- Sim uma vez que não estás ainda comprometido com ninguém, acho óptimo que te antecipes a outros que possam surgir, Tanto ela como o irmão são pessoas da minha estima particular que eu considero muito. A Alexandra, muitas vezes, dizia-me que não se casaria, preferindo ficar solteira e acompanhar o irmão, mas talvez já mudasse de opinião. Pareceu-me entusiasmada quando dançava contigo. Não lhe falaste em nada?
- Apenas lhe perguntei se lhe poderia escrever e pedi-lhe o seu endereço, que me deu de muito boa vontade. O irmão pareceu-me também uma pessoa interessante e culta. Que infelicidade ter nascido sem o sentido da visão!
- A nós faz-nos mais impressão, mas ele que se mentalizou do seu estado, sente-se realizado com uma vida multifacetada que criou e vive relativamente feliz. Quem sabe se ainda não virá a casar?!
- Casar! Com quem?
- E se fosse comigo… Condenarias?
- Ai mana, aí já anda algo que me sobreleva… Tu és maior e vacinada para saberes o que melhor te convém. Notei, efectivamente, que ele é uma pessoa de princípios e atraente, mas pensa na mágoa que isso causaria aos nossos pais, ao terem conhecimento que te ligavas a um cego! Poderá ser que, com o tempo, eles se conformem, e eu mesmo. Também não quero entristecer-te muito.
- Ainda terás de me ajudar a esta demanda… Henrique! Quem sabe? O tempo decretará o destino. Por enquanto, são apenas confidências de irmã para irmão… Ainda bem que chegamos. Já está a vir-me o sono, e tu tens de levantar-te cedo para saíres para o Porto.
No dia seguinte a vida voltou ao ritmo normal. O Henrique abalou e a Maria Clara ficou a aguardar uma resposta do Sub-Região de Saúde de Aveiro, onde esperava a vir prestar serviços.
 
E assim aconteceu. Passados dois meses já a Maria Clara exercia as suas funções com muito zelo e competência no Hospital daquela cidade e reataram-se os contactos, não constantes, mas normais com os amigos. Maria Clara pensava comprar casa própria, mas enquanto isso não se concretizava, continuaria na casa dos amigos de seus pais. E dava jeito, porque havia lá uma senhora doente e idosa que precisava de cuidados de enfermagem e a quem a Maria Clara dedicava estremo carinho. Uma Enfermeira amorosa a inspirar muita simpatia e admiração em todos que a conheciam de perto!...
- Num Domingo, em que foram almoçar fora, comendo perfeitamente à mesa, ninguém diria que o Augusto Manuel era cego. Alexandra, distanciando-se um pouco dele, confidenciou à amiga:
- O teu irmão escreveu-me…
- Ai, sim? Fico contente com a notícia. Não é por ser meu irmão, mas ele é muito bom rapaz e tem um futuro promissor. Agora meteu-se também na política. Há-de ir longe com a sua tendência para fazer discursos. E se arranjássemos tudo… entre amigos, seria o ideal, não achas?
- Não sei. Mas vou responder-lhe num destes dias. Será que os teus pais me verão e ao meu irmão, com bons olhos?
- Os meus pais gostaram de vós e terão de aceitar as preferências dos filhos. Eles respeitam muito o meu irmão, por ser mais velho, homem e já Advogado, ditando leis… Estou confiante que há-de conseguir mentalizá-los, no sentido de se associarem à nossa felicidade e ao nosso destino, marcado por Deus.
Deixa lá, Alexandra, que o meu irmão encarregar-se – à de encaminhar as coisas. Os meus pais são pessoas simples da aldeia, compreensivos e pouco ambiciosos. Considero isto uma fronteira que temos de ultrapassar ou, antes, uma pequena aresta fácil de limar. E se necessário falo com o meu padrinho que é muito lá de casa e bastante meu amigo. Anda, vamos para a mesa, que o Augusto Manuel há-de pensar que o abandonámos.
Sem novidade de maior, as coisas iam correndo normalmente, até que Alexandra, após ter terminado o seu curso em psicologia clínica em Coimbra, aceitou a proposta de Henrique para irem trocando ideias, mas dizendo-lhe sempre que não gostaria de sair de Aveiro, terra muito bonita e a quem chamam: Veneza de Portugal.
No ano seguinte e pela Páscoa, o Henrique que veio passar uns dias na terra e lá se juntou com a irmã, decidiu ter uma conversa séria com os pais, sobre o futuro da irmã e também do seu.
E foi numa hora em que a mãe estando só e tratava de confeccionar o jantar, que ele iniciou o diálogo com ele:
Então, mãe, os pais já se conformaram com a previsão do casamento da Maria Clara, com o Augusto Manuel?
- Ai, filho, eu já não me importa, porque vejo a tua irmã sempre triste e sem gosto nenhum pela vida. Mas o teu pai é que está muito renitente, Tenho-lhe feito ver certas coisas e ele não aceita os meus conselhos. Diz-me sempre que eu sou parva e não quero o bem da filha. Tens de ser tu a ver se consegues demovê-lo a admitir, e à boa monte, que ela realize o seu sonho. O rapaz até parece digno, porque afirma não querer casar com ela, sem que nós abençoemos a união.
- O Pai, sabendo que ela tem já 24 anos, um curso que tirou com distinção, e, até hoje, um comportamento irrepreensível, deverá pensar também que ela merece ser feliz. Tal como já vos disse, penso casar com a irmã dele, caso ela não se enfade com as vossas esquisitices… Ando com muito receio.
- Eu volto a falar ao teu pai, mas tens de dar uma ajuda, sei que ele te respeita muito.
Vendo o caso neste pé, e desejando alegrar a irmã, o Henrique no dia seguinte convidou o pai para um pequeno passeio de automóvel, com o fim de persuadi-lo a condescender aos anseios da filha, - exclamando no fim do “sermão”…
- Amanhã vou a Aveiro levar a Maria Clara, e o pai vai connosco para combinar-se o enlace. Estou ansioso para ver lá em casa mais alegria e os netos, correndo atrás de si, a chamarem-lhe avô…
- Dizes bem, Henrique! Esta vida é dois dias. Temos que sabê-los viver. Amanhã vamos a Aveiro.
Ainda nessa noite o Sr. Américo contou à D. Carolina a conversação havida entre eles. Como o Henrique tinha de ir lá levar a Maria Clara, o pai aproveitaria e para ir também e passariam todos pela casa do Augusto Manuel e da Alexandra.
- Se quiseres podes ir connosco – disse-lhe o marido.
- Não, homem, deslinda tu as coisas, que eu tenho cá que fazer… Além disso, sinto-me um bocadinho comprometida, também.
Tal como haviam, projectado, no outro dia de manhã seguiram todos três com destino à cidade de Aveiro. A Maria Clara não sabia de nada e ficou surpreendida ao ver o carro parar em frente da casa dos seus amigos.
Neste preciso momento ia a sair a Alexandra, que ficou também admirada de ver ali àquela hora o Henrique, a irmã e o pai, tendo aquele explicado, após os cumprimentos:
- Viemos trazer a minha irmã, aproveitando para te ver e despedir-me de ti, sendo que tenho de partir amanhã para o Porto.
- Entrem para conversarmos um pouco. Eu ia a sair, mas vou mais logo. A Maria Clara vai estar caladinha… para fazermos uma surpresa ao meu irmão. Está bem?
Conduzidos ao escritório, onde o Augusto Manuel já trabalhava, a Alexandra referiu:
- Temos aqui visitas! Pára com isso, que é o Henrique e o pai. Imediatamente o Augusto Manuel se voltou para os cumprimentar, com um sorriso nos lábios, sem se esquecer de perguntar por D. Carolina, D. Albertina e Maria Clara.
- Estão todas bem, obrigado. Mas não tem falado com a minha filha? – Interrogou o Sr. Américo.
- Não muito – respondeu o Augusto – um pouco a medo…
- Ah, mas vão começar a falar mais, É por isso que estou aqui hoje. E cumprimentem-se, quea Maria Clara está presente, desejando dar-lhe um carinhoso abraço. E pode ela, quando quiser, marcar a data do casamento. Como está munida de carta de condução, a sua prenda será um automóvel.
- Bem-haja, Sr. Américo, pela feliz comunicação que nos deu – disse o Augusto Manuel, abraçando com muito entusiasmo o futuro sobre e a sua amada.
- Não tem nada que agradecer. Que Deus vos faça felizes.
Depois de irem ver o quintal, e com todos à porta, o Henrique convidou a Alexandra e o irmão para irem ao Café, que havia em frente, tomar uma bebida à saúde dos futuros noivos: Maria Clara e Augusto Manuel.
Maria Clara, muito satisfeita e reconhecida ao pai, disse que ficava ali mais uns instantes. Depois iria a pé, já directa para o Hospital. Ao despedir-se de Alexandra e do Augusto Manuel, – volveu sorrindo:
- Vêem como tudo terminou em bem? O que é preciso é esperar-se com calma. O meu pai, no fundo, é bom. Temos é que andar-lhe ao jeito. No Domingo, de tarde, apareço por aqui. Há agora muito que falar…
Alexandra lembrou já:
- A nossa casa é enorme. De princípio ficam a morar connosco.
Américo dos Santos saiu dali com a consciência em paz e boas impressões daquela família. Com que ia, muito em breve, entrelaçar-se.
Afinal, a deficiência do rapaz até pouco se notava. Lá em casa e em conversa com a D. Carolina, explicava:
- Aquilo é gente fina, mulher e com boa formação Católica. Reparei nisso… A casa é um assombro, fazendo parte um grande quintal cheio de árvores de fruto e jardim. Sempre muito amáveis, fizeram questão de me mostrar tudo. O Augusto Manuel caminhava à minha frente como um “sargento”… Se visses, tem lá um escritório que manda ventarolas, com poltronas e tudo! Sentado ali, até parecia um Ministro! Olha, se eu não levo a roupa do Domingo?!
- O que me interessa agora, é que eles se compreendam bem – atalhou a D. Carolina, também satisfeita com o que acabava de ouvir, mas receosa porque as uniões actuais não são firmes como dantes.
Mas vivia nela uma certa esperança, porque a sua filha iria fazer um casamento alicerçado por um grande Amor, entre duas famílias de princípios cristãos. Virtudes imprescindíveis para que Deus abençoasse o matrimónio, tornando-o feliz e para sempre.
Daí a três meses já se falava nos preparativos do matrimónio, que a Maria Clara marcou para o dia dos anos do seu noivo.
Entre eles sempre existiram maneiras de delicadeza, pelo que estava a ser difícil o tratamento menos cerimonioso. Mas tinham que mudar, e foi o Augusto Manuel que tomou essa iniciativa, expressando-se com um terno sorriso, numa tarde em que estavam os dois sentados num banco do jardim:
- Mas porque não marcaste o dia mais feliz da nossa vida, para a data do teu aniversário, Maria Clara?
Porque gosto mais que seja no dia dos teus anos – 12 de Maio. É a um Domingo e tempo em que o nosso quintal estará mais florido e perfumado, meu amor! Depois, sempre que surja esse dia, em nossa casa há festa redobrada, percebes?
- Bem hajas, minha querida, por esta gentilíssima homenagem que quiseste prestar-me. Com tanta felicidade, até me esqueço que te não vejo, Ah, mas sinto-te dentro de mim e fixo-te bem com os olhos da alma…
- Deixa-me ver as tuas mãos, Augusto Manuel. Com elas modela o meu rosto e passa os dedos pelos meus cabelos…
- É oval o teu rosto lindo, não é Maria Clara? E os cabelos são longos e ondulados! Não são?
- Acertaste! Mas agora tens que adivinhar a cor deles?!...
- Talvez castanho claro, como os de Nossa Senhora!
- És bruxo ou a Alexandra te contou?
- Sou bruxo para te encantar!...
- Ora escuta: não ouves os passarinhos a cantar, Augusto Manuel?
- Ouço, sim, Maria Clara. Estão em alegre chilreio, como que a querem ouvir também um beijinho nosso…
Maria Clara, tomando a iniciativa de beijá-lo na testa, os passarinhos chilrearam muito mais!
- Vês, como era isso que eles queriam? – Volveu – muito contente, o Augusto Manuel.
E era verdade. Naquele local de sonho, cheio de árvores, até os passarinhos se associavam à doce alegria, saltando e cantando na ramada, perante aquele par enamorado de felicidade.
Aproximando-se o dia do matrimónio, a Maria Clara lembrou para que fosse realizado na Capelinha de Santo António da sua aldeia e o mais simples possível, convidando apenas a família mais próxima, os padrinhos e alguns amigos íntimos. Não receberia muitas prendas, mas eles comprariam o que fosse necessário. Por enquanto ficariam a viver ali e até que a Maria Clara possuísse a nova moradia, que pensava em adquirir.
 
No dia do casamento, o Henrique ficando na mesa ao lado de Alexandra, deu è namorada algumas boas notícias:
- No próximo ano, Alexandra, conforme solicitei, vou ser transferido para os Serviços Notariais de Aveiro. Ficas contente?
- Claro, que fico. Sempre te disse que não gostaria de sair da minha terra Natal, onde tenho casa, a família também e a minha carreira iniciada.
- Quis dar-te a boa nova em primeira-mão, pois os meus pais ainda não sabem. Quando eu lhe disser, vão ficar muito satisfeitos, por terem os filhos aqui perto. Ando também a pensar em comprar uma moradia nova para vivermos. Já escolhi um sítio bonito, mas, por enquanto, é segredo… A minha irmã traz igualmente vontade de adquirir uma, mas acho que devem ficar depois com a vossa, que é muito boa e está bem situada. O teu irmão está ali habituado e poderá custar-lhe mudar de ambiente.
- Com tantas e tão boas notícias, recebidas hoje, é que não esperava, Henrique…
- Mas falta ainda o melhor, que irá surgir logo após estar em Aveiro e termos a casa nova!
- Já sei o que é… - A nossa feliz união – abençoada por Deus!
- Adivinhaste, Alexandra!
Passados dez meses nascia de Maria Clara, um lindo e robusto rapaz que veio completar a alegria do lar e da família toda. Os avós, Carolina e Américo deliraram de satisfação e logo disseram que queriam mais netos. A criança era sã e deveras encantadora! Alexandra foi quem escolheu o nome. Iria chamar-se Pe3dro Manuel. Maria Clara e o Augusto Manuel escolheram os padrinhos que seriam, naturalmente, a Alexandra e o Henrique, que ficam loucos de contentamento e começaram a dar-lhe prendinhas de ouro.
Lá em casa, incluindo a Rosa e a tia Idalina, todos queriam andar com ele ao colo! Parecia o menino nas mãos das bruxas… Até o pai, que ambicionava muito que o primeiro filho fosse um rapaz, não se cansava de pedir:
- Maria Clara deixa-me pegar-lhe um bocadinho!
- Vá toma-o lá, mas senta-te – dizia-lhe ela.
- Assim, ele chora; vês, Maria Clara?
- Mas não se pode habituar a que andemos sempre com ele de um lado para o outro. Ele é muito fino… só quer que o balancem…
- É esperto como o pai, porque segundo me disse a Rosa, também eu, quando era assim pequenino, exigia o colinho. E se não me faziam a vontade, rabujava muito
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