3.11.09

 

 

                                      MURMÚRIOS DO CEIRA

 

                                                     VI

 

                          O MEU PRIMEIRO DIA DE AULAS

 

                                    O bom professor também precisa do bom aluno. C.B.S.

 

             

 

                                                

 

 

Já lá vão algumas décadas que numa manhã radiosa de sol, em que o calendário indicava 7 de Outubro, preparava-me para dar entrada na Escola Primária. Acompanhou-me a nossa serviçal Alzira que Deus lá tem; uma jovem de 21 anos que me viu chorar desde que saí de casa, até à porta da Escola. Lembro-me que lhe disse:

Fica comigo… Mas ela tinha de regressar a casa para os trabalhos domésticos e do campo, que a minha mãe, antes de ir para a loja, já lhe havia destinado. (Eu sou a mais pequena que está de escuro na pontinha do lado direito.)

Coitada, por ter de ir servir cedo, não teve acesso às letras e não chegou a aprender a ler. Não atingiu esse grau mínimo de instrução, porque, entretanto, casou e eu não tive tempo de lhe curar a “doença” do analfabetismo…

A senhora Professora, como nós a tratávamos, era nesse tempo a D. Anália Tomé, que me recebeu assim:

-Dá cá um beijo e senta-te ali na carteira, ao lado da “Lila” Candeias. Mas porque estás triste, Clarisse?

- Porque não gosto daqui, senhora professora – respondi.

A Escola, onde funciona agora a Junta de Freguesia, era dividida em duas partes, independentes. Numa sala estavam as meninas e na outra os rapazes que tinham por mestre o Sr. Professor Serafim Marques Gomes de Araújo. Penso que alguém ainda se lembrará deles, pois enquanto brincávamos no intervalo, eles passeavam à volta do Edifício Escolar, em amena conversa.

Havia na Escola umas “orelhas de burro” cor-de-rosa, para castigo das menos atentas às aulas. Parece que estou a ver as meninas com elas enfiadas na cabeça em cima de um estrado, com modos tristes de enfado…

Muitas vezes a senhora obrigava-as a irem colocarem-se com elas à porta da sala dos rapazes para eles se rirem… Nunca me lembro de tê-las na minha cabeça, com certeza, por ser bem comportadinha de fazer por estudar muito, de madrugada para que ficassem os estudos melhor gravados na memória. Gostava muito de História e aritmética. Foi por isso que, no dia do meu exame, brilhei no quadro a fazer os quebrados e complexos.

Existia ainda a palmatória de “cinco olhos” que um dia desapareceu….

Porem, também não me recordo de alguma vez, a sentir na minha mão e custou-me um dia, já na 4ª classe, a mando da senhora Professora ter de dar algumas leves… reguadas a todas as meninas por não saberem a tabuada que eu tinha toda encaixada na cabeça. ´

E que a nossa mestra era muito briosa e arreliava-se bastante se as suas alunas não correspondiam ao seu esforço de ensinar, chegando a dar-nos aulas particulares.

Em casa, tinha a minha mãe, que sabia ajudar nas lições, e ai de mim e do meu irmão que não aprendêssemos também as regras da boa educação. Era já um rapazinho adolescente, o meu irmão, e o nosso pai prendi-o com uma linha fina, por detrás do balcão da nossa loja de comércio, na qual se vendia de tudo, desde os carros de linhas aos bicos de arado… Para , de manhã, o acordar, um copinho de água pelas costas abaixo… Era este o despertador que o nosso pai usava… À noite, não havia autorização de rua para ninguém.

Mas volto a referir-me aos estudos. Hoje, com o desregramento dos costumes entre a nova juventude, quer creiam quer não, os comportamentos alteraram-se e o respeito devido deixou de funcionar. A promiscuidade e a confusão indistinta que se verifica hoje nas Escolas e recreios, também contribuem para a desordenação do sistema.

Ouço dizer e leio nos jornais, que cada vez há mais insucesso escolar e os professores não conseguem pôr os alunos a estudar com atenção, e são por vezes desrespeitados e até agredidos por eles. Por outro lado, há também professores novos que não se mostram muito exigentes na missão de leccionar. Há meses num concurso de dinheiro, apreciei uma concorrente atrapalhada, porque frequentava um curso superior e não conhecia o cognome do nosso rei D. Sebastião. Outro, que até acertava bem em cultura geral, mas não sabia qual a última das três pessoas da Santíssima Trindade… nem nunca ouvira falar no Espírito Santo. Que atraso de cultura religiosa!

Em casa não há tempo e, raramente, ambiente adequado para explicações de toda a ordem e troca de um diálogo são, mas era ali, obviamente, que se deveria começar a formar a mente das crianças e dos adolescentes que precisam de afectos, mas não podem mimar-se em demasia, concedendo-lhes liberdade ilimitada e dinheiro a mais nos bolsos. Há zonas tão vulneráveis e susceptíveis a críticas, que o professor é um herói a conseguir o objectivo de dominar os seus alunos que trazem da rua novos fenómenos que têm de enfrentar e saber combater com rigor e afecto. Todos os professores deveriam saber algo de psicologia. A fim de simultaneamente analisarem também problemas psicológicos do estado de saúde mental dos seus discípulos e, por fim, tratarem das suas faculdades morais e intelectuais, como sejam a ciência da alma, que é pura de essência e, tantas vezes, uma luz brilhante a extinguir-se num corpo por acabar de se formar…

A insegurança nas Escolas e, até, a criminalidade avança a olhos vistos. Por este andar, quem quererá ser professor ou professora amanhã? Estou a lembrar-me do caso impressionante ocorrido na Alemanha no mês de Abril de 2002 em que um estudante expulso matou cruelmente catorze professores, dois alunos, um polícia e por fim suicidou-se!

Duma família sã, cuidadosa e modelar, fazendo elo inquebrantável com a Escola, (pais e professores) é que surgirão pessoas íntegras e cultas no futuro. O Lar é a primeira Escola da Vida que deve ser regida e exemplificada, desde a meninice até à juventude.

A inteligência, a bondade e a nobreza da alma poderão cedo começar a cultivar-se, e porque não, aulas de Educação Social a novos pais? Se podem tirar horas de serão para se verem telenovelas, quanto mais útil não seria aproveitar-se esse tempo para uma hora de estudo e reflexão do espírito?!

Não nascemos para génios, mas poderemos transcender dos limites do quotidiano, afim de estarmos aptos a auscultar a tendência dos infantes e a firma-los em alicerces de bases sólidas para um melhor futuro deles e de toda a Humanidade. Uns vão… e tantos cá ficam sem saberem o caminho recto que hão-de trilhar…

Eis um caso interessante: ouvi dizer que em certo lar, a televisão fecha-se todos os dias um bocadinho para diálogo de família e falar de Deus. Que bonito!

 

Não gostei de entrar na Escola Primária, e depois vim a gostar muito. Tanto que fiquei mais um ano a ajudar a senhora Professora, mas sem ganhar nada… O meu pai queria que eu não esquecesse o que tinha aprendido. É verdade, que tinha em Coimbra o meu padrinho a dar aulas num Colégio de família, mas era só de rapazes e nesse tempo era muito difícil voar alto…

Já agora, gostaria de deixar aqui gravado, no meu modesto livro, a história e o nome de um Homem que admiro muito, pela sua tenacidade, forte vocação para as letras e se chama: JOÃO ALVES SIMÕES:

 

Nascido em Ponte do Sótão, freguesia de Góis, em 15 de Junho de 1940, saiu da terra aos onze anos de idade, levando por bagagem, a sua distinta quarta classe, para ir empregar-se como aprendiz numa retrosaria, em Lisboa. Logo as saudades o fazem voltar à aldeia, até com a ideia de ser carpinteiro. Passados alguns meses, regressa a Lisboa para ir trabalhar num armazém de Produtos Químicos e Farmacêuticos, Daqui, surge um conhecimento com a Cª Nacional de Navegação e solicita um emprego como “grou”, mandarete e faz a sua primeira viagem ao Brasil no paquete Vera Cruz, Depois é moço ajudante de copa e empregado de mesa na messe dos oficiais. Em 1961 é já tripulante, ascendendo gradualmente na Classe das Câmaras, percorrendo muitos países de quatro Continentes.

Torna à terra em 1962 e inicia aqui em Góis e Arganil os seus estudos liceais. Em 1963 regressa ao mar, embarcando no navio tanque “Fogo”.

Em Janeiro de 1964 volta ao Colégio de Arganil e chamam-no de Lisboa para cumprir o serviço militar. Colocado em Elvas, vai, daqui, fazer o exame do 5º (Secção de letras) na Figueira da Foz. Como Sargento M. esteve também em Mafra, Tavira e por fim Lamego, de onde saiu para ir servir o Ultramar. Entretanto, vai estudando, Promovido a furriel Miliciano em 1965 desembarca em S. Tomé e Príncipe, e em 1966 completa o 5º ano (ciências) em S. Tomé.

 

Em 1967 regressa à Metrópole, passa à disponibilidade e é nomeado Ajudante Oficial na Alfândega do Porto, onde reside e permanece nesta actividade até 1983.

 

Em 1971 casou em Coimbra com Maria Regina Aguiar e em 1973, após ter concluído o exame do 7º ano, é admitido na Faculdade de Letras do Porto, que frequenta até 1978, como aluno voluntário/trabalhador, a Licenciatura em História, que termina em 1978, com boa classificação, permitindo-lhe continuar na Universidade, os estudos de Pós – Graduação e Mestrado. Desde essa data até 1995 é professor provisório e efectivo em várias Escolas Secundárias do Norte, e não só, apresentando valiosos trabalhos e estudos de investigação.

De 1994 a 1996 – faz o curso de Pós-Graduação em Musecologia, na Faculdade de Letras da U. do Porto. Depois até 2000 é admitido, frequenta e faz o “Mestrado”, em História Contemporânea, com a dissertação: “Os expostos da Roda de Góis” 1784. 1841” na Faculdade de Letras da U. do Porto, no dia 13/03/2000, com a classificação de BOM COM DISTINÇÃO.

Continuando a sua carreira de Professor efectivo, foi-lhe concedido, em 19 de Março de 2002, o direito à aposentação e passa à situação de Professor Jubilado.

Em 12 de Julho de 2002, o seu trabalho de tese, -“Os Expostos da Roda de Góis (1784 – 1841” ) livro interessantíssimo, de grande formato, com cerca de 200 páginas, trabalhoso, bem concebido e, até, curioso, foi apresentado( no novo e bonito Auditório da “Casa do Artista”) em Góis, na presença de distintos professores da Universidade do Porto que muito o elogiaram, pelas Autoridades Camarárias de Góis, muitos amigos e duma população Goiense, orgulhosa por ter o Senhor Doutor e Mestre João Alves Simões valorizado a nossa cultura, que pensa, com a sua energia, continuar; pois tem cerca de 20 trabalhos de carácter científico, sobre a região de Góis e outras, que sonha publicar.

 

Tive neste dia, o gosto de felicitar sua mãe, que certamente chorou de alegria e comoção, vendo o seu filho, que lutou sozinho, nos píncaros da lua!...

 

Jovens da nossa terra, – e não só – coloquem aqui os vossos olhos… inspirem-se e trilhem por estes caminhos árduos, é verdade, mas muito gratos e dignificantes. Isto é, apenas, um resumo… de uma carreira brilhante, de um GRANDE EXEMPLO a seguir.

Também eu gostaria de ter seguido os meus estudos, como já disse, mas faltaram-me as “asas”… e aos meus pais os meios necessários para voar…

 

                                                 

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