5.11.09

 

 

                                                                                                                                                   

                                    MURMÚRIOS DO CEIRA

 

                                                                    V

 

                                    TRADIÇÕES DA BEIRA

 

          A Terceira Idade é um livro de ensinamentos que a mocidade deveria ler, cuidar e ter de perto. C.B.S.

 

                                   

 

 

O Sr. José Augusto, apenas ficara viúvo em terras da Beira – região de Coimbra – teve de ir viver para casa de sua filha que residia em Aljezur, onde havia casado com um comerciante daquela localidade do Algarve, Custou-lhe bastante ter de deixar a sua casa, as suas terras, os seus amigos. Mas teve de ser. A idade assim o permitia, A sua filha e genro tinham só um filho, ainda garoto, mas muito bondoso e extraordinariamente inteligente.

A casa situava-se nos arredores da vila e possuía um quintal airoso, no qual o Sr. José Augusto passava as tardes à sombra das árvores de fruto. Aquele ambiente pitoresco e soalheiro ajudava-o a mitigar as saudades que sentia do campo. Paulo Jorge, de regresso da Escola, vinha sempre para junto do avô fazer os deveres. Com a natural curiosidade de todas as crianças, pedia muitas vezes ao avô para que lhe contasse histórias e factos passados na sua terra, em tempos mais antigos.

Aproximava-se o Natal e o menino queria saber os costumes da quadra na terra do seu avô e certo dia perguntou-lhe:

- Avô, fale-me do Natal e como se festejava ele na Beira ou melhor, na sua casa?

 

- Sim, posso satisfazer a tua curiosidade. Nós tínhamos várias propriedades que agora estão por lá cheias de silvas a provocar incêndios. Possuíamos alguns animais para consumo da casa e fazerem estrume para as terras. Chegámos a ter uma égua para puxar a água do engenho. Cabras, ovelhas, coelhos, porcos e galinhas. Uma pequena empresa agrícola e pastoril, como agora se diz. Um criado e criada, que tratávamos como família, ajudavam-nos nestas lides. Ah, como sinto pena das fazendas que trazia cultivadas como jardins!

Lá em casa matavam-se sempre dois porcos, por ano, que se guardavam numa salgadeira, e dali se iam comendo moderadamente.

- O que é uma salgadeira, avô?

- A salgadeira era uma arca de madeira, na qual se colocavam as peças de carne com bastante sal para se conservarem. Hoje, com mais vantagem, usam-se as arcas frigoríficas. Como ia dizendo, era habitual matar-se um porco na véspera do Natal que, previamente se engordava para esse fim. O dia da matança era o dia de festa.

- Coitadinho do porco!

 

- Dizes bem, mas também nós temos de morrer.

De madrugada, chegava o matador, que nesse tempo era o “Ti Ilídio” que Deus lá tem à nossa espera. Eu e mais dois vizinhos ajudávamos à tarefa. A tua avó trazia um alguidar para se aproveitar o sangue para as morcelas e, nessa altura, tínhamos de ser fortes.

Quero ainda dizer-te que o “TI” Ilídio era moleiro da terra e por vezes engraçado. Quando passava com o seu burro carregado de saquinhos de farinha, costumava parar junto das pessoas amigas e dizia para o burro: cumprimenta estes senhores e ele baixava a cabeça…Tenho este caso verdadeiro na memória.

A tua mãe e o teu tio que está na América do Norte, não gostava de ouvir o triste grunhir do porco e refugiavam-se num comportamento da casa a taparem os ouvidos com os dedos da mão…

Depois de morto, chamuscava-se no pátio com giestas secas. Hoje faz-se esse trabalho através de maçaricos a gás. Após queimados os pelos, escovava-se com água, até ficar a pele muito bem lavada. Seguidamente levava-se o “defunto” para uma loja e pendurava-se lá numa trave com a ajuda duma peça de madeira forte, que tinha o nome de chambaril.

Estás a rir, por ouvires dizer: “defunto”?

- Escuta, então: Em casa do meu avô, da Samoura, assisti muitas vezes a este acto, em que quatro homens o conduziam seguro pelas patas e o meu avô os seguia com certo ar de humor, dizendo a cantar:

-Ora, atrás dele!... Ora, atrás dele!

O porco era, então, aberto para se retirarem as banhas, o fígado e as tripas. Estas vinham imediatamente para uma gamela e a tua bisavó encarregava-se de separá-las: ou seja, extrair-lhes o entretinho e o lenço, que é uma parte rendada que envolve os intestinos.

Também nós possuímos estes mesmos órgãos, mas com outros nomes.

As tripas no fim de estremadas, iam ser muito bem lavadas com sal e limão na Ribeira do S. Paulo para depois, com aquelas gorduras se fazerem as morcelas. Das tripas que restassem, e com outras que havia à venda, se fazia o enchido.

- As banhas também se comem, avô?

Lá em casa costumavam-se derreter assim: colocavam-se em pedaços grandes num tacho de ir ao lume e ia-se retirando a gordura para uma panela de barro vidrada. A esta gordura dava-se o nome de pingue e utilizava-se nos guisados, fritos e até na sopa de vagens. Depois de extraída gordura das banhas, ficavam no tacho uns torresmos a que dávamos o nome de picanarizes. A tua mãe gostava muito deles bem fritos e eu também. Esqueci-me de dizer que era habitual fazer-se um golpe nas costas do animal, do cimo ao fundo para todos verem e admirarem e espessura do toucinho – exclamando:

Está bom! Vejam como estava gordo!

Cheguei a matar porcos com catorze arrobas!

Realizada a primeira tarefa, íamos todos para a mesa almoçar caldo de arroz e cebola que a tua avó preparava com requinte. Entretanto, a tua bisavó começava os preparativos para confeccionar as morcelas doces, muito deliciosas, só semelhantes às afamadas Arouca.

No dia seguinte, à noite, o porco saía do chambaril para ser cortado em pedaços. De algumas peças se faziam pedacinhos pequenos que eram postos numa grande gamela, temperados com azeite, vinho, alhos, colorau e erva doce etc. Oito dias ficavam a marinar, para depois se juntar farinha e realizar-se o enchido que se colocava debaixo duma grande fogueira, a secar no fumeiro. Chegámos a fazer cem peças de chouriços e chouriças.

Os chouriços eram direitos e as chouriças curvas. Havia ainda uma peça maior chamada palaio e destinada a tempero regular da sopa.

Os presuntos, as pás, a cabeça, os pés, etc. colocavam-se na salgadeira, como já te disse. Após terminada a tarefa, seguia-se a lauta ceia, que já metia os tradicionais torresmos feitos numa caçarola na fogueira, regados com o bom vinho da nossa adega. Nessa noite não podia faltar o bacalhau graúdo e branquinho, que nesse tempo havia, com batatas, cabeça de nabo e couve tronchuda do quintal. Era uma maravilha! A mesa estava repleta de tudo, não faltando as filhós e as rabanadas.

- E diga-me avô, o Menino Jesus não vinha lá de noite pôr coisas lindas na chaminé?

- Pouca coisa, Paulo Jorge. Mas, claro que vinha. O teu tio, em vez de colocar a bota dele na chaminé, ia sempre colocar a minha que era bastante maior…

- Boa ideia, avô, para eu seguir o exemplo.

- Dia de Natal reunia-se em nossa casa a família toda. Vinham os meus pais, os meus sogros, irmãos, cunhados e sobrinhos, alargando-se a mesa para todos caberem bem. Após a chegafa da missa, que alegre confraternização se fazia! Ah, como sinto saudades!

Quero ainda contar-te que, nessa altura da matança, havia o costume de se obsequiar a vizinhança que não estava de porco morto, com um pratinho de carne fresca para torresmos. Era uma tradição bonita e amigável! Por vezes eram tantos os pratos a preparar, que quase nenhum lombo restava para assar no forno, destinado a conserva. O porco contém ainda dois órgãos de carne muito tenra, que se chamam lombinhos. Nunca me lembro de os comermos lá em casa. Eram sempre para oferecer. Um para o Presidente da Câmara e o outro para o nosso médico.

- E porque os davam sempre?

- Olha, porque lhe devíamos favores. O Dr. Bernardo nunca nos levava dinheiro pelas consultas e era médico muito interessado pelos doentes. A qualquer hora do dia ou da noite acorria sempre e de bom grado, a socorrer quem dele necessitasse. Até vinha a nossa casa dar injecções, se preciso fosse. Centenas de vezes calcorreou a serra de noite, montado no seu cavalo, porque um doente mísero ou remediado o esperava com ansiedade. Foi ele quem salvou o teu tio duma grave doença em que esteve prestes a morrer numa noite de Natal. Que Deus o tenha na sua glória, pelo Bem que fez à humanidade do meu concelho.

Hoje o nível de vida das pessoas é muito melhor, mas é pena que os serviços de saúde, nas vilas e aldeias, não acompanhem, o progresso. Pelo menos nas aldeias serranas, onde quase já só vivem idosos e poucos, sofre-se ali muito. Vale ainda a vizinhança amiga, que se protege uns aos outros.

Na Aldeia de Vale -Torto, lá para os meus sítios, de Góis, imagina! Só lá vive agora uma senhora, sem ter um vizinho sequer, que lhe sirva numa aflição. No Verão, a terra movimenta-se um pouco mais. Coitada da senhora! Vale-lhe o ar puro da serra do Penedo, que tem por companhia.

Os modernos Centros de Dia e Lares estão também a suavizar um bocadinho o desconforto, Mas as Escolas fecham-se por falta de crianças e não há nada que faça dar vida nova àquelas terras.

 

-Retrocedendo um pouco, daí a um mês, pouco mais ou menos, fazia-se nova reunião de família para a festa do “ bucho, como se dizia.

- Mas o que é o bucho, meu avô?

- O “bucho” chamávamos nós ao estômago do suíno. Depois de muito bem lavado com sal e limão, enchia-se com pedacinhos de carne, chouriço e arroz. Muito bem temperado, atava-se com uma guita e cozia-se, então, numa panela. Havendo o cuidado de o não deixar rebentar, a fim de vir inteirinho e apetecível para a mesa. A sopa deste dia era muito gostosa, contendo carne fresca, chouriço, cabeça de nabo e a boa couve tronchuda. A tua avó fazia, neste dia, um arroz doce, que era de comer e chorar por mais…

- Nesse tempo, avozinho, as famílias eram muito mais amigas!

- Dizes bem. Paulo Jorge. Nesse tempo existia uma interligação familiar muito forte.

Hoje não é assim. As pessoas correm todas de um lado para o outro, quase sem tempo algum de se estimarem e conviverem. Os meus pais e sogros viveram sempre felizes até à idade de oitenta e tal anos, pois os filhos e netos os rodearam de amor e carinho até ao fim da sua vida.

Presentemente existem os Lares que resolvem alguma situação, mas não chega, porque são casas de “estima emprestada”… e de menos carinho. E, agora, até já são muito caros e com poucas vagas.

- O avô é que não precisa de ir para nenhum Lar!

- Graças a Deus!

- Sabe, meu avô, gostaria também de ter nascido nessa época e nessa sua terra para viver assim o Natal, com muita alegria e bastante família à volta da mesa. Deveria ser animador!

- Era, sim, Paulo Jorge. Contei-te costumes do Natal. Outro dia ficarás a saber também as tradições da Páscoa na minha Beira.

- Gostei muito da história, que é verídica, meu avô. Só é um bocadinho triste por termos de sacrificar um animal para sustento e regalo das pessoas. Contudo, talvez dê para fazer uma composição.

Há dias fiz uma sobre a tortura e morte dos touros em Barrancos e não só. A senhora Professora apreciou tanto que até me deu os parabéns e pôs no trabalho: um bom com distinção.

 

 

 

- Também não gosto de touradas, Paulo Jorge. E agora muito menos, com uma lei bárbara de massacra-los até à morte. És um neto maravilhoso e orgulho-me muito de ti, por teres também um generoso coração!

 

                                  

 

 

 

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