17.11.09

 

 

                                     MURMÚRIOS DO CEIRA

 

                                                     IV

 

                                  UMA FLOR E UM BEIJO

 

                              A ternura de uma criança tem sabor a mel. no coração do velhinho. C.B.S.

 

          

 

 

Eis o teor de uma carta que considero deveras interessante, que recebi há dias da Maria Celina e que ouso dar a conhecer aos amáveis leitores:

 

Boa Amiga

 

Como sabes não sou artista, mas seduziram-me sempre as cores, e, por isso, há dias, apeteceu-me pintar um quadro de amor.

 

Quando era mais nova cheguei a pintar a Natureza em festa, vasos de flores, fotografias, crianças e até passarinhos voando no Espaço. Não tive mestres; servia-me das paisagens campestres e dos livros e revistas coloridas que encontrava. Simples aguarelas que tenho escondidas e guardadas no meu sótão… Só a minha mãe tem apreciado os meus trabalhos, mas, agora, com a falta de vista, chora por não distinguir bem os meus rabiscos…

 

Numa tarde de Estio resolvi levar os meus pincéis na intenção de fazer uma aguarela bonita, a fim de a oferecer a minha mãe no dia dos seus anos, que vinham ainda longe.

 

Chegando ao Mártir e descansando um pouco sob a copa dos pântanos que ali estão a sombrear o local, subi a escadaria que dá acesso ao Castelo, onde agora funciona o moderno e aprazível Parque de Campismo e sentei-me num banco que está à entrada, recordando muitas pessoas da terra, apenas vivas na nossa saudade, que também ali estiveram e agora repousam em paz, mesmo em frente à sombra dos velhos ciprestes!...

 

Fiquei-me um instante a admirar a linda vila de Góis, a Musa dos meus sonhos! O casario branquinho, o Céu muito azul, e, envolta de arvoredos, a Igreja Matriz que abriga um artístico túmulo de D. Luís da Silveira, a serra do Rabadão e ao longe a capelinha da Senhora da Guia! Tudo isto me enfeitiçada, acredita!

 

Lá em baixo sob a velha Ponte de três arcos, o rio Ceira corria de mansinho, alegre e deslumbrado. As margens de um tom verde-loureiro, as esplanadas, a praia fluvial da Peneda que àquela hora do banho se coloria e movimentava, atraiam o vistoso bairro da Boavista que, ao fundo, presenciava a animação que se estendia ainda até ao Cerejal. Sempre que contemplo este bairro, sinto-me voltar à infância pois, como sabes, morei lá, quase, desde que nasci, até aos meus doze anos de idade.

 

Após um tempo de contemplação, subi a escada da Ermida de Nossa Senhora de Fátima para uns minutos de meditação religiosa e voltei a descer pelo lado poente, avistando a mata do Carvalhal, graças a Deus ainda pujante de verdura, englobando o bairro de S. Paulo, com o progresso industrial ali à volta. Com o espírito em divagação, quase me perdi… Amiga. Mas não! Em pleno Parque, sentei-me num banco rodeado de arbustos, onde àquela hora nem uma folha bulia nos caminhos floridos que exalavam suave perfume. Um casal de namorados deliciava-se em sonhos de amor, à sombra das tiliáceas em flor, a irradiarem igualmente um cheirinho aprazível. Lá ao fundo, entre a ramaria, vi um senhor de meia-idade, sentado também num banco, tendo a seu lado um menino que deveria ter uns cinco ou seis anos de idade.

 

Dialogavam, pelo que me escondi por detrás de um alecrinzeiro que ali havia, para que não notassem que alguém os observava.

 

O menino, naquele momento, entregava uma flor ao senhor – dizendo:

 

-Tome, avô. É um amor-perfeito!

 

- Não devias tocar na flor que pertence ao jardim público. Na Escola sempre recomendei isso aos meus alunos. Mas fico contente por ser lilás, da cor da Saudade! Também gosto das violetas, flores muito pequeninas, roxas e brancas que se escondem na verdura dos canteiros e derramam um perfume delicado.

 

- Já sei quais são. Mas agora não há e tenho pena de não achar uma para lhe dar. Queria ver o avô mais contente e feliz!...

 

- Feliz, João Carlos, já não serei mais! Sabes o avô perdeu a forças de repente; e agora, já velhote e doente, se não fosse a minha bengala que me ajuda, já não poderia vir contigo para este local, tão bonito!

 

- Então o avô esteve no Hospital e não lhe fizeram nada?! Os Doutores não souberam cura-lo? Quando eu for grande, quero ser médico para tratar do avô, que precisa de caminhar na rua, como as outras pessoas.

 

- Os médicos não puderam tratar-me, João Pedro, e por isso tu és a minha única alegria e fazes com que os meus dias não sejam tão tristes. Sinto saudades do meu tempo passado, de quando era professor e dava aulas na vila, mas tenho-te a ti, para me distraíres e consolar as mágoas que já são muitas. Se não fosses tu, apetecia-me fugir do mundo…

 

- Não digas isso, avô. Tome lá dois beijinhos, que quero vê-lo contente.

 

- És o meu melhor amigo, João!

 

- E não se engana, avô! Mas agora vamos os dois comer a merenda. – Um pãozinho para si e outro para mim.

 

Que linda imagem de ternura tive a ocasião de presenciar naquele momento, Amiga! Logo pus mãos à obra e comecei a pintar a cena: um senhor de idade, doente e triste, sentado à sombra do arvoredo e uma encantadora criança a dar-lhe uma flor e um beijo!         

Depois de executada a pintura com passarinhos e tudo… fixei-a contente, comigo própria. E que expressiva ficou! Dava até a impressão de estar perante um quadro de Natureza viva. Radiante de felicidade, conduzi, então, o trabalho para casa às escondidas da minha mãe. Ficou magnifico! Que maravilhosa surpresa arranjei para o dia do aniversário dela. Prenda melhor não conseguiria para esse dia memorável de 13 de Março: uma Flor e um beijo!

  

                                  

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