4.12.09

 

MURMÚRIOS DO CEIRA

 

II

 

UM NATAL DE ROSAS BRANCAS

                                        

                                              

   

                                          O perfume da rosa vem do jardim de Deus

 

Certa manhã de um Domingo Natalício, alguém seguia um rapazinho que aparentava uns nove anos de idade. Menino franzino e triste que, calcorreando as ruas duma cidade do centro do País-ainda adormecida- andava procurando algo difícil de encontrar... Quem a perseguia era um cavalheiro ainda novo e elegantemente vestido, mas com ar de muita preocupação.

 

Distanciado da criança, cerca de cem metros, paráva também quando ela ficava meditativa e absorta, olhando as vitrinas, os jardins públicos e as flores em frente das belas moradias, guardadas, quase sempre, por artísticos portões de ferro. O que andaria o menino a procurar? Era véspera de Natal e a cidade estava refulgente de luzes multicores, nesse amanhecer de rigoroso frio com a neve, em forma de farrapinhos brancos, a cair no solo.

Em dada altura, o sujeito abeirou-se daquela criança misteriosa e entabulou conversa com ela:

 

- O que fazes aqui, tão cedo, nesta manhã de Natal? Andas as ver as montras com os brinquedos para pôr no sapatinho?

 

- Sim, também gosto de ver as montras enfeitadas de coisas bonitas, mas o que mais busco nesta hora, não é isso, mas antes uma ou duas rosas brancas para oferecer a minha mãe, que nem sonha por onde ando neste momento. No maior silêncio, e pé ante pé, saí para a rua...

 

- A tua mãe gosta de rosas brancas?

 

- Se gosta! Anda sempre a suspirar por elas! A todo o instante que vejo uma rosa branca, logo a colho e parto a correr com ela para casa. Alguns jardineiros já têm ido atrás de mim... mas não conseguem agarrar-me... Também o roubo é tão insignificante! Uma rosa apenas! E que anda o senhor, por aqui, a fazer nesta hora?

- Antes de satisfazer a tua curiosidade, gostaria de saber o teu nome e quantos anos tens?!

 

- Chamo-me Pedro Daniel. Tenho nove anos e mais um bocadinho...

 

- Um nome muito bonito! Que engraçado! Tenho um filho com o mesmo nome, que é mais ou menos da tua idade. Nove anos e meio. Sabes, há pouco, quando conduzia o meu automóvel, com destino à Beira Alta, onde resido, a tua figura gira e simpática despertou-me a atenção. Deste modo, saí do carro e decidi seguir-te. Mas não te assustes, que não sou polícia, nem ladrão... Gostaria, até, de te ajudar, se fosse possível. Porém, quero ainda perguntar-te uma coisa: porque gosta a tua mãe, tanto assim, de rosas brancas?

 

- Senhor, vamo-nos sentar, acolá, naquele banco verde, da Praça, que vou contar-lhe a história das rosas brancas que é, por sinal, um bocadinho triste.

 

Já sentados no banco, - começou - o garoto:

 

- A minha mãe foi casada, e penso que ainda é, com um professor de ensino básico, tendo eles vivido seis anos anos muito felizes. Para que saiba, a minha mãe é uma boa modista, mas não ganha muito dinheiro por causa dos "Prontos-a-Vestir. Gostaria, um dia, de possuir uma casa destas. A minha mãe faria a roupa e eu vendia-a na loja. Outra profissão, que também me agrada muito, era ser jogador de futebol. Dizem que ganham ríos de dinheiro!...

- Ganham, sim, mas é preciso que chutem bem e sejam famosos... Tenta começar a treinar, desta massa é que eles se fazem.

 

- Pois, como ia dizendo, a minha mãe casou e, durante esses seis anos, eu nasci e ia-me criando num lar de paz e de muita estima.

Não sei por que motivo, mas o meu pai que ainda recordo com Saudade, um dia abalou de casa sem se despedir de nós. Disse que ia beber um café... e nunca mais apareceu! Já que o senhor me merece uma certa confiança, gostaria de dizer-lhe que a minha mãe era uma jovem linda e ainda é. Nota-se isso, muito bem, no retrato do casamento que os meus pais tiraram no Altar da Igreja de S. José e está exposto na sala, em ponto grande. A minha mãe, sempre que o fita, entristece-se muito e chora! Ela, mesmo, me disse há muito pouco tempo:

- Olha, filho, eu casei com o teu pai, por que lhe tinha muito amor"!

- Lembro-me, ainda, que o meu pai era assim alto e bonito como o senhor, só não usava barba nem bigode...

Parece que estou a vê-lo a brincar comigo no quintal!

 

- Então o teu pai foi-se embora e não mais deu notícias suas? Grande maroto! Poderá ser que volte...

 

- Sim, o meu pai não se portou bem, mas não gosto que o acusem da sua falta para connosco. Pode até acontecer que se arrependa e volte e regresse a casa. A minha mãe ainda não perdeu as esperanças de que, a qualquer momento, aconteça o milagre. Áh, vou contar-lhe, então, por que gosta a minha mãe de rosas brancas: o meu pai, quando vivia connosco, trazia, às vezes, rosas brancas que oferecia, com um beijo, à minha mãe. Pelos anos dela, pela Páscoa, pelo Natal e em todos os dias de festa, ele nunca se esquecia de aparecer com elas, simbolizando muito Amor e paz entre eles

Agora, passados cinco anos, como eu estou já um homenzinho e vou entrar brevemente no Ensino Secundário, sou eu que faço as vezes do meu pai. Sempre que posso, vou em busca de rosas brancas para a minha mãe. No Inverno custam a encontrar, mas quando apareço com elas, é um delírio! Ate chora de felicidade!

O cavalheiro, bastante emocionado e até admirado com a peripécia das rosas, disse:

- Como vejo, ainda não encontraste, hoje, nenhuma rosa branca para levares de prenda à tua mãe neste Natal?! Vem comigo, que vou levar-te a um sítio, onde as há muito bonitas!

 

E lá seguiram os dois a caminho de um Hipermercado, no qual havia as mais lindas rosas brancas! O sujeirto comprou dois ramos e entregou um deles à criança, dizendo: - Fico com este, que é para oferecer a minha mulher, que me espera com muita ansiedade...

Entretanto, vou buscar o carro e conduzo-te a casa. Está bem?

Pedro Miguel, entusiasmadíssimo, não desviava os seus olhos daquele senhor tão amável, para o qual sorria de encantamento, como a mostrar-se verdadeiramente agradecido!

Havia ali, já, uma mútua e evidente atracção...

 

- Amanhã é dia de Natal e a nossa mesa vai ficar linda com rosas tão perfumadas - murmura o menino, com muita alegria.

 

O senhor "desconhecido" chegou e fê-lo sentar a seu lado. Imediatamente o Pedro Miguel indicou que morava numa rua estreita, para os lados da Igreja de S. José.

Com uma certa imaginação, adequada a uma criança viva, que até facilitou a situação - aludiu ao chegarem à porta: - Não quer conhecer a minha mãe?

 

- Teria todo o prazer.

 

Pedro Miguel subiu a escada a toda a pressa, com as rosas na mão,e foi contar a sua mãe que arranjara na rua um grande Amigo, que o acompanhou a casa.

Apenas assomou ao cimo da escada, Marília, assim se chamava a mãe do Pedro, fixou o olhar no marido que saíra de casa, havia, já, cinco anos e não mais lhe tinha colocado a vista em cima...

Estupefacta, sorrindo, logo o mandou entrar, - explicando ao filho. -

É o teu pai. Não te recordas dele?

 

- Perdoa-me, Marília, - exclamou - o marido, um tanto atrapalhado; o acaso fez-me regressar ao lar como o filho pródigo: e desde já te prometo que não mais vão faltar rosas brancas cá em casa...

 

- Obrigada, Alfredo! Graças ao Senhor que permitiu o nosso reencontro, afim de tornarmos a ser uma família abençoada e feliz.

 

Com abraços e beijos e em redor da lareira bem acesa... a toalha bordada, irradiando um suave perfume das rosas brancas, foi posta na mesa para a consoada.

 

Pedro Miguel, rezando diante do seu Presépio de luzes, não se cansava de agradecer a Deus o presente mais rico e apetecido, que o Menino Jesus lhe oferecera neste Natal: com perfume de rosas, - o regresso do seu Querido Pai!

 

 

 

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