4.12.09

 

 

 

CANTAR-TE MINHA TERRA, QUEM NÃO HÁ-DE?

 

 

  

              Não conheço, de verdade,Pássaro1t.gif (1622 bytes)
                          Terra mais linda que Góis.                                           

                                           Quem se vai, sente Saudade

                                                                Do cantar dos rouxinóis!

 

 

 

 

  

 

  

  

 

 

MURMÚRIOS DO CEIRA

 

DEZEMBRO 2002

                        CONTOS E NARRATIVAS

 

                        O Ceira e outros rios como este é que ajudam a formar a imensidade e a grandeza do mar

 tornando, ainda, as terras mais bonitas, como a nossa. C.B.S. 

 

 

Num dia primaveril e a manhã se iluminava de sol, sob um Céu de anil Celeste, peguei num livro, lapis e cadernos e abalei pela Avenida marginal abaixo, a caminho do Parque do Cerejal. Perto da Capela de Santo António, um barco voltado para o rio, que corria sereno, convidava-me a sentar ali. uma leve aragem fazia baloiçar as folhas das árvores e o Ceira murmurante, com aromas de flores silvestres a dançarem pelos ares, parecia querer dialogar comigo a querer dizer:

 

- Trazes um livro, lapis e cadernos, será que pretendes inspirar-te aqui, para uma história do teu novo livro de contos? Ah, se ouvisses os diálogos que tenho escutado à sombra destes arvoredos, logo iniciarias um enredo interessante...

 

- Quase adivinhaste... Mas não. Apenas um esboço que irá dar, sim, o nome ao meu novo livro de contos e narrativas que , apesar de modesto, irá conter alguns trabalhos premiados em Concursos literários. E vou revelar-te o título: "Múrmurios do Ceira"; isto em tua homenagem. Gostas?

 

- Mas que bonito! "Murmúrios do Ceira!"... Agradeço a tua lembrança. E diz-me Clarisse, como sabes que eu murmuro?

 

- Sei, porque ao passar por aqui, sento-me um bocadinho para descansar e ouvir os teus suaves murmúrios e maviosos cantos! Um brando sussuro que fazes no teu deslizar e que só tu sabes traduzir... Desde muito novinha que me habituei a contemplar-te enlevada na minha janela da Boavista! Os gaiatos a nadarem na Peneda, as raparigas cantando a lavarem a roupa e a estenderem-na na relva, tudo isto produzia um ambiente alegre e animador, que me divertia muito. Em casa andava sempre na busca de peças de roupa pequena e bocadinhos de sabão para ir, debaixo da ponte, lavá-la nas tuas águas correntes e estende-la ao sol. Deliciava-me com esta tarefa. Quando a minha mãe estava na loja, eu "fugia" para o rio com uma pequena bacia de roupa. Gostava muito de chapinhar na água... como agora a Ana Carolina e o simpático Joãozito.

Há dias passando em Coimbra, gostei de ver ainda as lavadeiras do Mondego!... Uma tradição que julgava perdida, mas não.

Conta o saudoso António R. Dias no seu livro "Recordações dos tempos idos", os rapazes de calção, mas a meninada banhava-se completamente despida; e que um dia há hora do meio dia lhe fizeram a partida de lhe surrupiaram a roupita, que até tinha escondido entre a ramagem de um amieiro, e sem ela teve de regressar a casa e, certamente, atravessar o largo do Pombal, a correr...

 

- Também já notei que, muitas vezes, em vez de ires e vires pelo Pé Salgado, que agora até parece uma cidade, onde vós tendes uma casa nova, atravessas a Avenida marginal para me veres e regalares os olhos nos meus encantos! Se soubesses as coisas lindas que tenho escutado aqui, de pessoas muito simpáticas, vindas de longe, pasmavas de enlevo como eu, ouvindo isto.

 

- "Quem nos dera ter na nossa terra um rio tão puro e tão bonito como este! Que panorama maravilhoso! Neste local paradisíaco, até os Anjos se curvam e dão graças a Deus, além na Capelinha do Castelo!"

De vez em quando, até os animais, que andam ali a pastar em frente, erguem a cabeça e param de relvar para ouvir as pessoas que andam em passeio. Acho-lhes muita graça...

 

Penso, comovidamente, também na história desta linda terra, no importante Palácio que existia aqui ao lado, com jardins e varandas envidraçadas, voltadas para mim... Este Paço foi mandado contruir por D. Luis da Silveira, do qual restam só algumas pedras e cantarias, por aí dispersas... Sou já velhinho, mas tenho uma memória privilegiada, pois não esqueci ainda as festas e saraus realizados neste Palácio, no qual, mais tarde, vinha passar férias a formosa D. Branca de Vilhena, casada com o tio, 3º Conde de Vila Nova. Ouvia dizer que se apaixonara pelo poeta e escritor D. Francisco Manuel de Melo, a quem (muito em segredo) tivera um filho, e que o rei D. João IV também gostava dela.

 

- É verdade o que dizes; conheço essa história descrita no livro "Um duelo nas Sombras" pelo brilhante escritor Goiense: António Fancisco Barata.

 

- Estou admirado das coisas que sabes, Clarisse! Mas eu sei mais, porque assisti a tudo. Ainda me lembro, e saudosamente, de ver por aqui D. Luis da Silveira, (poeta também) a pescar... No tempo em que o rio era então uma ribeira. Imagina!

 

- Poeta e não só... D. Luís da Silveira. - 1º Conde da Sortelha, foi guarda.mor de D. Manuel I e de D. João III, político eminente e guerreiro famoso. Faleceu em Góis em 1533.

 

- Tens razão, D. Luís da Silveira, perpetuado com um túmulo artístico na Capela-mor da Igreja Matriz, foi um grande senhor de Góis! Como disse, conheci-o perfeitamente e até sua esposa D. Brites de Noronha, bisneta de João Gonçalves Zarco que, com Tristão Vaz Teixeira, descobriu a Ilha da Madeira.

 

- Mas o que tu não sabes nem sonhas é que tive um bom Amigo e Distinto Poeta a viver na Rua D. Gonçalo da Silveira, em Almeirim. Francisco Henriques: o escelente Poeta que fez o favor de me oferecer o seu interessante livro de sonetos: "Cânticos à minha Terra", tendo nele dedicado alguns sonetos a D. Gonçalo da Silveira. Há anos, passando por Almeirim, disse-lhe que temos cá em Góis o pai deste, num lindo Monumento renascentista e que, por este motivo, gostaria de vê-lo cá na terra dos Silveiras.

 

Infelizmente, já não poderá suceder, porque o sr. Francisco Henriques foi vítima de doença grave, que bastante penalizou todos os seus amigos e acabou por falecer em 24 de Maio de 2002. Foi o seu filho que me deu a triste notícia, deixando-me saudosamente triste. Tinha uma letra perfeitíssima e espectacular, como não conheci em ninguém. Que Deus o tenha na sua glória, junto de sua esposa, a quem dedicou os mais sentidos e maravilhosos sonetos.

- Sim, deste esclarecimento não sabia e acho-o curioso.

 

Nascido nas abas da serra da Estrela, passo ao lado de penedos, matagais e muitas serras bonitas, mas nenhuma me fascina como Góis, que abraço com todo o meu coraçáo, tal como dizes nos poemas que me cantas! Quando eu murmuro, são também hinos de amor que dedico a Santo António,(que dali prega aos peixinhos da levada e abençoa as moças que vão pedir-lhe ao postigo um feliz matrimónio...) conjuntamente mágoas e segredos que levo a caminho do mar da Figueira da Foz... Foi aqui, neste preciso local, que a saudosa Gracita e a irmã Célia aprenderam a nadar, brincando comigo, quando eram crianças, recordas.te?

 

- É verdade! E quantos lamentos, quantas saudades e prantos meus, não levas também, contristado de penas?... Mas cessemos de tristezas:- quero falar-te de um assunto igualmente interessante:

Em 18 de Abril de 1999, um dia após, em que se realizou o 1º Sarau Nacional de Poesia do Concelho de Góis, estive aqui sentada neste mesmo banco, acompanhada de um casal amigo que mora em Bonsucesso, pertinho de Aveiro. Ela chama-se Emília, sendo distinta funcionária Pública na Sub-Região de Saúde de Aveiro, excelente cantora e também poetisa. Tem gravados já alguns trabalhos seus muito interessantes. Seu marido, que frequentou uma Escola de Música, é um grande admirador de sua esposa. São os dois cegos, mas com uma sensibilidade impressionante!

- Já estou, minha amiga, a recordar-me da cena, porque te ouvi perguntar-lhes: - Como sabem que isto é bonito? E eles responderam:

" - A nossa alma, Clarisse, fala pelos nossos olhos! E como é terno o murmúrio deste rio encantador e gracioso o chilreio dos passarinhos! Estamos a viver em Góis, horas felizes de vivo encantamento!"

-Mais tarde, Emília Fontes compôs um soneto, com o título "Saudades de Góis". no qual evidenciou o calor humano e a hospitalidade amiga que lhes foi dispensada aqui, e muito especialmente em Corterredor, cujo povo muito simples, é duma franqueza invulgar. Este belo soneto está inserido no seu livro: "Meu coração vai cantar".

Em 11 de Junho de 2000, dia em que visitámos os nossos amigos de Ouca, o distinto poeta Francisco dos Santos e a D. Adelaide no magnífico Lar de S. Martinho, havia festa em Bonsucesso e o casal Fontes e família recebeu-nos também com muita simpatia.

Hoje pesa-me o coração, saber que o meu querido amigo e distinto poeta Francisco dos Santos, não se encontra bem de saúde, assim como a sua dedicada esposa que o vai rodeando de cuidados e de muito carinho. Note-se que um dos últimos e lindos poemas que fez, foi a ti dedicado, contendo estes versos: "As águas que tens são puras e belas"/ És belo e refulges tal como as estrelas".

 

(Relativamente a Corterredor, vive ali Emília Baeta que não canta com a garganta... mas sim com o coração! uma amiga de longa data, a quem presto homenagem por ter o condão de saber receber bem, que visita a sua castiça aldeia.)

E voltando a referir-me a Emília Fontes, como vês, até as pessoas cegas admiram espiritualmente a tua pureza e sentem na alma os teus doces murmúrios!...

Também os cerca de 20 magníficos poetas que visitaram Góis nessa ocasião, vindos do Porto a Faro, foram fascinados contigo e cantaram o concelho de Góis, como poucos o haviam ainda cantado! A poetisa e amiga Florinda, do Porto, vendo a serra dourada... não resistiu de colher flor de carqueja para todos, como recordação.

 

- Pelo que sei, o importante Sarau foi promovido pela Academia Antero Nobre e patrocinado pela Câmara Municipal de Góis. Se não te importas, gostaria de ouvir um dos poemas que lá disseste. Quero cantá-lo... a caminho do Mondego!

 

- Não me recordo bem, mas trago comigo a Colectânea que encerra todos os trabalhos declamados ali. Com o meu soneto dedicado a Góis, vou encerrar o nosso diálogo, porque são horas do almoço e tenho ainda de passar pelos correios:

 

          CANTAR-TE MINHA TERRA, QUEM NÃO HÁ-DE?

 

               Cantar-te minha terra, quem não há-de,

               Se tens a dar-te enlevo o Rio Ceira?

               Berço dos meus avós e da Saudade...

               Terra do nobre Conde da Silveira!

 

               Cantar-te na certeza que te agrade

               Saber que acolhes hoje, aqui, na Beira,

               Poetas Lusos, grandes na verdade,

               A saudarem-te,Góis, desta maneira!

 

               Cantar-te, quem não há-de, se és bendita,

               E és, das terras da Beira, a mais bonita

               E aquela que Deus quis para meus cantos?!

 

               Já Luís da Silveira te cantou

               E Francisco Barata se inspirou...

               Para mostrar ao mundo os teus encantos!

 

- Deixa-me só dizer-te, que gostei de ouvir este poema dedicado a Góis. Os poetas Silveiras não se inspirariam melhor!

 

- Não sei. Naquele tempo a poesia tinha outra forma de escrita. Mas António Francisco Barata, mais tarde, cantou a nossa terra de maneira genial, e do modo que merece ser cantada. Como poetas Goienses, também nos honram os srs. Padre Horácio Nogueira e Dr. Paulo Ilharco, prezados amigos que muito admiro  

 

C.B.S.

 

                                    

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