4.12.09

 

 

 

CANTAR-TE MINHA TERRA, QUEM NÃO HÁ-DE?

 

 

  

              Não conheço, de verdade,Pássaro1t.gif (1622 bytes)
                          Terra mais linda que Góis.                                           

                                           Quem se vai, sente Saudade

                                                                Do cantar dos rouxinóis!

 

 

 

 

  

 

  

  

 

 

MURMÚRIOS DO CEIRA

 

DEZEMBRO 2002

                        CONTOS E NARRATIVAS

 

                        O Ceira e outros rios como este é que ajudam a formar a imensidade e a grandeza do mar

 tornando, ainda, as terras mais bonitas, como a nossa. C.B.S. 

 

 

Num dia primaveril e a manhã se iluminava de sol, sob um Céu de anil Celeste, peguei num livro, lapis e cadernos e abalei pela Avenida marginal abaixo, a caminho do Parque do Cerejal. Perto da Capela de Santo António, um barco voltado para o rio, que corria sereno, convidava-me a sentar ali. uma leve aragem fazia baloiçar as folhas das árvores e o Ceira murmurante, com aromas de flores silvestres a dançarem pelos ares, parecia querer dialogar comigo a querer dizer:

 

- Trazes um livro, lapis e cadernos, será que pretendes inspirar-te aqui, para uma história do teu novo livro de contos? Ah, se ouvisses os diálogos que tenho escutado à sombra destes arvoredos, logo iniciarias um enredo interessante...

 

- Quase adivinhaste... Mas não. Apenas um esboço que irá dar, sim, o nome ao meu novo livro de contos e narrativas que , apesar de modesto, irá conter alguns trabalhos premiados em Concursos literários. E vou revelar-te o título: "Múrmurios do Ceira"; isto em tua homenagem. Gostas?

 

- Mas que bonito! "Murmúrios do Ceira!"... Agradeço a tua lembrança. E diz-me Clarisse, como sabes que eu murmuro?

 

- Sei, porque ao passar por aqui, sento-me um bocadinho para descansar e ouvir os teus suaves murmúrios e maviosos cantos! Um brando sussuro que fazes no teu deslizar e que só tu sabes traduzir... Desde muito novinha que me habituei a contemplar-te enlevada na minha janela da Boavista! Os gaiatos a nadarem na Peneda, as raparigas cantando a lavarem a roupa e a estenderem-na na relva, tudo isto produzia um ambiente alegre e animador, que me divertia muito. Em casa andava sempre na busca de peças de roupa pequena e bocadinhos de sabão para ir, debaixo da ponte, lavá-la nas tuas águas correntes e estende-la ao sol. Deliciava-me com esta tarefa. Quando a minha mãe estava na loja, eu "fugia" para o rio com uma pequena bacia de roupa. Gostava muito de chapinhar na água... como agora a Ana Carolina e o simpático Joãozito.

Há dias passando em Coimbra, gostei de ver ainda as lavadeiras do Mondego!... Uma tradição que julgava perdida, mas não.

Conta o saudoso António R. Dias no seu livro "Recordações dos tempos idos", os rapazes de calção, mas a meninada banhava-se completamente despida; e que um dia há hora do meio dia lhe fizeram a partida de lhe surrupiaram a roupita, que até tinha escondido entre a ramagem de um amieiro, e sem ela teve de regressar a casa e, certamente, atravessar o largo do Pombal, a correr...

 

- Também já notei que, muitas vezes, em vez de ires e vires pelo Pé Salgado, que agora até parece uma cidade, onde vós tendes uma casa nova, atravessas a Avenida marginal para me veres e regalares os olhos nos meus encantos! Se soubesses as coisas lindas que tenho escutado aqui, de pessoas muito simpáticas, vindas de longe, pasmavas de enlevo como eu, ouvindo isto.

 

- "Quem nos dera ter na nossa terra um rio tão puro e tão bonito como este! Que panorama maravilhoso! Neste local paradisíaco, até os Anjos se curvam e dão graças a Deus, além na Capelinha do Castelo!"

De vez em quando, até os animais, que andam ali a pastar em frente, erguem a cabeça e param de relvar para ouvir as pessoas que andam em passeio. Acho-lhes muita graça...

 

Penso, comovidamente, também na história desta linda terra, no importante Palácio que existia aqui ao lado, com jardins e varandas envidraçadas, voltadas para mim... Este Paço foi mandado contruir por D. Luis da Silveira, do qual restam só algumas pedras e cantarias, por aí dispersas... Sou já velhinho, mas tenho uma memória privilegiada, pois não esqueci ainda as festas e saraus realizados neste Palácio, no qual, mais tarde, vinha passar férias a formosa D. Branca de Vilhena, casada com o tio, 3º Conde de Vila Nova. Ouvia dizer que se apaixonara pelo poeta e escritor D. Francisco Manuel de Melo, a quem (muito em segredo) tivera um filho, e que o rei D. João IV também gostava dela.

 

- É verdade o que dizes; conheço essa história descrita no livro "Um duelo nas Sombras" pelo brilhante escritor Goiense: António Fancisco Barata.

 

- Estou admirado das coisas que sabes, Clarisse! Mas eu sei mais, porque assisti a tudo. Ainda me lembro, e saudosamente, de ver por aqui D. Luis da Silveira, (poeta também) a pescar... No tempo em que o rio era então uma ribeira. Imagina!

 

- Poeta e não só... D. Luís da Silveira. - 1º Conde da Sortelha, foi guarda.mor de D. Manuel I e de D. João III, político eminente e guerreiro famoso. Faleceu em Góis em 1533.

 

- Tens razão, D. Luís da Silveira, perpetuado com um túmulo artístico na Capela-mor da Igreja Matriz, foi um grande senhor de Góis! Como disse, conheci-o perfeitamente e até sua esposa D. Brites de Noronha, bisneta de João Gonçalves Zarco que, com Tristão Vaz Teixeira, descobriu a Ilha da Madeira.

 

- Mas o que tu não sabes nem sonhas é que tive um bom Amigo e Distinto Poeta a viver na Rua D. Gonçalo da Silveira, em Almeirim. Francisco Henriques: o escelente Poeta que fez o favor de me oferecer o seu interessante livro de sonetos: "Cânticos à minha Terra", tendo nele dedicado alguns sonetos a D. Gonçalo da Silveira. Há anos, passando por Almeirim, disse-lhe que temos cá em Góis o pai deste, num lindo Monumento renascentista e que, por este motivo, gostaria de vê-lo cá na terra dos Silveiras.

 

Infelizmente, já não poderá suceder, porque o sr. Francisco Henriques foi vítima de doença grave, que bastante penalizou todos os seus amigos e acabou por falecer em 24 de Maio de 2002. Foi o seu filho que me deu a triste notícia, deixando-me saudosamente triste. Tinha uma letra perfeitíssima e espectacular, como não conheci em ninguém. Que Deus o tenha na sua glória, junto de sua esposa, a quem dedicou os mais sentidos e maravilhosos sonetos.

- Sim, deste esclarecimento não sabia e acho-o curioso.

 

Nascido nas abas da serra da Estrela, passo ao lado de penedos, matagais e muitas serras bonitas, mas nenhuma me fascina como Góis, que abraço com todo o meu coraçáo, tal como dizes nos poemas que me cantas! Quando eu murmuro, são também hinos de amor que dedico a Santo António,(que dali prega aos peixinhos da levada e abençoa as moças que vão pedir-lhe ao postigo um feliz matrimónio...) conjuntamente mágoas e segredos que levo a caminho do mar da Figueira da Foz... Foi aqui, neste preciso local, que a saudosa Gracita e a irmã Célia aprenderam a nadar, brincando comigo, quando eram crianças, recordas.te?

 

- É verdade! E quantos lamentos, quantas saudades e prantos meus, não levas também, contristado de penas?... Mas cessemos de tristezas:- quero falar-te de um assunto igualmente interessante:

Em 18 de Abril de 1999, um dia após, em que se realizou o 1º Sarau Nacional de Poesia do Concelho de Góis, estive aqui sentada neste mesmo banco, acompanhada de um casal amigo que mora em Bonsucesso, pertinho de Aveiro. Ela chama-se Emília, sendo distinta funcionária Pública na Sub-Região de Saúde de Aveiro, excelente cantora e também poetisa. Tem gravados já alguns trabalhos seus muito interessantes. Seu marido, que frequentou uma Escola de Música, é um grande admirador de sua esposa. São os dois cegos, mas com uma sensibilidade impressionante!

- Já estou, minha amiga, a recordar-me da cena, porque te ouvi perguntar-lhes: - Como sabem que isto é bonito? E eles responderam:

" - A nossa alma, Clarisse, fala pelos nossos olhos! E como é terno o murmúrio deste rio encantador e gracioso o chilreio dos passarinhos! Estamos a viver em Góis, horas felizes de vivo encantamento!"

-Mais tarde, Emília Fontes compôs um soneto, com o título "Saudades de Góis". no qual evidenciou o calor humano e a hospitalidade amiga que lhes foi dispensada aqui, e muito especialmente em Corterredor, cujo povo muito simples, é duma franqueza invulgar. Este belo soneto está inserido no seu livro: "Meu coração vai cantar".

Em 11 de Junho de 2000, dia em que visitámos os nossos amigos de Ouca, o distinto poeta Francisco dos Santos e a D. Adelaide no magnífico Lar de S. Martinho, havia festa em Bonsucesso e o casal Fontes e família recebeu-nos também com muita simpatia.

Hoje pesa-me o coração, saber que o meu querido amigo e distinto poeta Francisco dos Santos, não se encontra bem de saúde, assim como a sua dedicada esposa que o vai rodeando de cuidados e de muito carinho. Note-se que um dos últimos e lindos poemas que fez, foi a ti dedicado, contendo estes versos: "As águas que tens são puras e belas"/ És belo e refulges tal como as estrelas".

 

(Relativamente a Corterredor, vive ali Emília Baeta que não canta com a garganta... mas sim com o coração! uma amiga de longa data, a quem presto homenagem por ter o condão de saber receber bem, que visita a sua castiça aldeia.)

E voltando a referir-me a Emília Fontes, como vês, até as pessoas cegas admiram espiritualmente a tua pureza e sentem na alma os teus doces murmúrios!...

Também os cerca de 20 magníficos poetas que visitaram Góis nessa ocasião, vindos do Porto a Faro, foram fascinados contigo e cantaram o concelho de Góis, como poucos o haviam ainda cantado! A poetisa e amiga Florinda, do Porto, vendo a serra dourada... não resistiu de colher flor de carqueja para todos, como recordação.

 

- Pelo que sei, o importante Sarau foi promovido pela Academia Antero Nobre e patrocinado pela Câmara Municipal de Góis. Se não te importas, gostaria de ouvir um dos poemas que lá disseste. Quero cantá-lo... a caminho do Mondego!

 

- Não me recordo bem, mas trago comigo a Colectânea que encerra todos os trabalhos declamados ali. Com o meu soneto dedicado a Góis, vou encerrar o nosso diálogo, porque são horas do almoço e tenho ainda de passar pelos correios:

 

          CANTAR-TE MINHA TERRA, QUEM NÃO HÁ-DE?

 

               Cantar-te minha terra, quem não há-de,

               Se tens a dar-te enlevo o Rio Ceira?

               Berço dos meus avós e da Saudade...

               Terra do nobre Conde da Silveira!

 

               Cantar-te na certeza que te agrade

               Saber que acolhes hoje, aqui, na Beira,

               Poetas Lusos, grandes na verdade,

               A saudarem-te,Góis, desta maneira!

 

               Cantar-te, quem não há-de, se és bendita,

               E és, das terras da Beira, a mais bonita

               E aquela que Deus quis para meus cantos?!

 

               Já Luís da Silveira te cantou

               E Francisco Barata se inspirou...

               Para mostrar ao mundo os teus encantos!

 

- Deixa-me só dizer-te, que gostei de ouvir este poema dedicado a Góis. Os poetas Silveiras não se inspirariam melhor!

 

- Não sei. Naquele tempo a poesia tinha outra forma de escrita. Mas António Francisco Barata, mais tarde, cantou a nossa terra de maneira genial, e do modo que merece ser cantada. Como poetas Goienses, também nos honram os srs. Padre Horácio Nogueira e Dr. Paulo Ilharco, prezados amigos que muito admiro  

 

C.B.S.

 

                                    

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MURMÚRIOS DO CEIRA

 

II

 

UM NATAL DE ROSAS BRANCAS

                                        

                                              

   

                                          O perfume da rosa vem do jardim de Deus

 

Certa manhã de um Domingo Natalício, alguém seguia um rapazinho que aparentava uns nove anos de idade. Menino franzino e triste que, calcorreando as ruas duma cidade do centro do País-ainda adormecida- andava procurando algo difícil de encontrar... Quem a perseguia era um cavalheiro ainda novo e elegantemente vestido, mas com ar de muita preocupação.

 

Distanciado da criança, cerca de cem metros, paráva também quando ela ficava meditativa e absorta, olhando as vitrinas, os jardins públicos e as flores em frente das belas moradias, guardadas, quase sempre, por artísticos portões de ferro. O que andaria o menino a procurar? Era véspera de Natal e a cidade estava refulgente de luzes multicores, nesse amanhecer de rigoroso frio com a neve, em forma de farrapinhos brancos, a cair no solo.

Em dada altura, o sujeito abeirou-se daquela criança misteriosa e entabulou conversa com ela:

 

- O que fazes aqui, tão cedo, nesta manhã de Natal? Andas as ver as montras com os brinquedos para pôr no sapatinho?

 

- Sim, também gosto de ver as montras enfeitadas de coisas bonitas, mas o que mais busco nesta hora, não é isso, mas antes uma ou duas rosas brancas para oferecer a minha mãe, que nem sonha por onde ando neste momento. No maior silêncio, e pé ante pé, saí para a rua...

 

- A tua mãe gosta de rosas brancas?

 

- Se gosta! Anda sempre a suspirar por elas! A todo o instante que vejo uma rosa branca, logo a colho e parto a correr com ela para casa. Alguns jardineiros já têm ido atrás de mim... mas não conseguem agarrar-me... Também o roubo é tão insignificante! Uma rosa apenas! E que anda o senhor, por aqui, a fazer nesta hora?

- Antes de satisfazer a tua curiosidade, gostaria de saber o teu nome e quantos anos tens?!

 

- Chamo-me Pedro Daniel. Tenho nove anos e mais um bocadinho...

 

- Um nome muito bonito! Que engraçado! Tenho um filho com o mesmo nome, que é mais ou menos da tua idade. Nove anos e meio. Sabes, há pouco, quando conduzia o meu automóvel, com destino à Beira Alta, onde resido, a tua figura gira e simpática despertou-me a atenção. Deste modo, saí do carro e decidi seguir-te. Mas não te assustes, que não sou polícia, nem ladrão... Gostaria, até, de te ajudar, se fosse possível. Porém, quero ainda perguntar-te uma coisa: porque gosta a tua mãe, tanto assim, de rosas brancas?

 

- Senhor, vamo-nos sentar, acolá, naquele banco verde, da Praça, que vou contar-lhe a história das rosas brancas que é, por sinal, um bocadinho triste.

 

Já sentados no banco, - começou - o garoto:

 

- A minha mãe foi casada, e penso que ainda é, com um professor de ensino básico, tendo eles vivido seis anos anos muito felizes. Para que saiba, a minha mãe é uma boa modista, mas não ganha muito dinheiro por causa dos "Prontos-a-Vestir. Gostaria, um dia, de possuir uma casa destas. A minha mãe faria a roupa e eu vendia-a na loja. Outra profissão, que também me agrada muito, era ser jogador de futebol. Dizem que ganham ríos de dinheiro!...

- Ganham, sim, mas é preciso que chutem bem e sejam famosos... Tenta começar a treinar, desta massa é que eles se fazem.

 

- Pois, como ia dizendo, a minha mãe casou e, durante esses seis anos, eu nasci e ia-me criando num lar de paz e de muita estima.

Não sei por que motivo, mas o meu pai que ainda recordo com Saudade, um dia abalou de casa sem se despedir de nós. Disse que ia beber um café... e nunca mais apareceu! Já que o senhor me merece uma certa confiança, gostaria de dizer-lhe que a minha mãe era uma jovem linda e ainda é. Nota-se isso, muito bem, no retrato do casamento que os meus pais tiraram no Altar da Igreja de S. José e está exposto na sala, em ponto grande. A minha mãe, sempre que o fita, entristece-se muito e chora! Ela, mesmo, me disse há muito pouco tempo:

- Olha, filho, eu casei com o teu pai, por que lhe tinha muito amor"!

- Lembro-me, ainda, que o meu pai era assim alto e bonito como o senhor, só não usava barba nem bigode...

Parece que estou a vê-lo a brincar comigo no quintal!

 

- Então o teu pai foi-se embora e não mais deu notícias suas? Grande maroto! Poderá ser que volte...

 

- Sim, o meu pai não se portou bem, mas não gosto que o acusem da sua falta para connosco. Pode até acontecer que se arrependa e volte e regresse a casa. A minha mãe ainda não perdeu as esperanças de que, a qualquer momento, aconteça o milagre. Áh, vou contar-lhe, então, por que gosta a minha mãe de rosas brancas: o meu pai, quando vivia connosco, trazia, às vezes, rosas brancas que oferecia, com um beijo, à minha mãe. Pelos anos dela, pela Páscoa, pelo Natal e em todos os dias de festa, ele nunca se esquecia de aparecer com elas, simbolizando muito Amor e paz entre eles

Agora, passados cinco anos, como eu estou já um homenzinho e vou entrar brevemente no Ensino Secundário, sou eu que faço as vezes do meu pai. Sempre que posso, vou em busca de rosas brancas para a minha mãe. No Inverno custam a encontrar, mas quando apareço com elas, é um delírio! Ate chora de felicidade!

O cavalheiro, bastante emocionado e até admirado com a peripécia das rosas, disse:

- Como vejo, ainda não encontraste, hoje, nenhuma rosa branca para levares de prenda à tua mãe neste Natal?! Vem comigo, que vou levar-te a um sítio, onde as há muito bonitas!

 

E lá seguiram os dois a caminho de um Hipermercado, no qual havia as mais lindas rosas brancas! O sujeirto comprou dois ramos e entregou um deles à criança, dizendo: - Fico com este, que é para oferecer a minha mulher, que me espera com muita ansiedade...

Entretanto, vou buscar o carro e conduzo-te a casa. Está bem?

Pedro Miguel, entusiasmadíssimo, não desviava os seus olhos daquele senhor tão amável, para o qual sorria de encantamento, como a mostrar-se verdadeiramente agradecido!

Havia ali, já, uma mútua e evidente atracção...

 

- Amanhã é dia de Natal e a nossa mesa vai ficar linda com rosas tão perfumadas - murmura o menino, com muita alegria.

 

O senhor "desconhecido" chegou e fê-lo sentar a seu lado. Imediatamente o Pedro Miguel indicou que morava numa rua estreita, para os lados da Igreja de S. José.

Com uma certa imaginação, adequada a uma criança viva, que até facilitou a situação - aludiu ao chegarem à porta: - Não quer conhecer a minha mãe?

 

- Teria todo o prazer.

 

Pedro Miguel subiu a escada a toda a pressa, com as rosas na mão,e foi contar a sua mãe que arranjara na rua um grande Amigo, que o acompanhou a casa.

Apenas assomou ao cimo da escada, Marília, assim se chamava a mãe do Pedro, fixou o olhar no marido que saíra de casa, havia, já, cinco anos e não mais lhe tinha colocado a vista em cima...

Estupefacta, sorrindo, logo o mandou entrar, - explicando ao filho. -

É o teu pai. Não te recordas dele?

 

- Perdoa-me, Marília, - exclamou - o marido, um tanto atrapalhado; o acaso fez-me regressar ao lar como o filho pródigo: e desde já te prometo que não mais vão faltar rosas brancas cá em casa...

 

- Obrigada, Alfredo! Graças ao Senhor que permitiu o nosso reencontro, afim de tornarmos a ser uma família abençoada e feliz.

 

Com abraços e beijos e em redor da lareira bem acesa... a toalha bordada, irradiando um suave perfume das rosas brancas, foi posta na mesa para a consoada.

 

Pedro Miguel, rezando diante do seu Presépio de luzes, não se cansava de agradecer a Deus o presente mais rico e apetecido, que o Menino Jesus lhe oferecera neste Natal: com perfume de rosas, - o regresso do seu Querido Pai!

 

 

 

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23.11.09
 
 

                                          MURMÚRIOS DO CEIRA

 

                                                III

 

                            PRECIOSA DA VÁRZEA

 

                                  

   As grandes dificuldades do passado, vividas com honradez, são exemplos para o futuro, C.B.S.

 

 

A Preciosa, por ficar sem pai aos treze anos de idade, vivia com a mãe e dois irmãos mais velhos, na Várzea de Góis. Nascera mesmo ali junto ao Adro da Igreja, decorado de arvoredos.

 

Por herança do chefe da casa, já desaparecido, possuía esta família uma Padaria; e eram os seus irmãos, auxiliados também pela mãe, que coziam o pão que a Preciosa, ainda nova, tinha de ir vender, manhã cedo, mais a sua amiga Zulmira, do Linteiro. De cabaz à cabeça, descalça e a pé, corriam todos os lugares de Serpins, Ponte do Sótão, Cazelhos, Portela, etc. a fim de o distribuírem pelas mais variadas lojas e tabernas. Nos dias de mercado, também as moças costumavam ir a Góis fazer a venda.

 

Quando vendiam o pão todo e regressavam cedo a casa com o dinheiro num saquito de pano, a Preciosa – dizia, muito satisfeita, a sua mãe:

 

- Vê, mãe, já cá estamos e vendemos todo o pão. Mas venho cansada e já me doem os pés.

 

- Tem paciência, filha, – volvia a mãe temos de lutar pela vida para não morrermos de fome. Mesmo assim, temos ainda de dividir a sardinha… Se o vosso pai fosse vivo, tudo seria diferente, mas assim, temos de trabalhar mais para vivermos sem vergonha do mundo. Não vês o Alfredo, do Correio que todos os dias tem de ir a pé levar as cartas a Góis, num saco? E pelo que sei, não ganha muito, coitado. Para a semana que vem, tens de tirar uns dias para o Sr. Carlos Cortez. Quer que vás ceifar a erva na Quinta dos Amiais. E o Snr. Artur precisa do milho da Costeira sachado.

 

E o diálogo prosseguia:

 

- Também me disse ontem a vizinha Prazeres que tenho de ir lavar-lhe a casa. (Esta senhora foi depois a minha madrinha e o seu filho - Dr. Francisco Cortez- o meu padrinho) Tudo farei, minha mãe, mas tem de me comprar uma saia de fazenda para estrear na festa da Senhora da Candosa. Estou a pensar em ir lá montar um botequim, mais a Zulmira. Poderá ser que a venda de refrescos dê para comprar a saia nova e um lenço bonito de cachené…

 

Uma vida cansativa! Mas, coitada da Preciosa, tinha também de acarretar o estrume em cestas à cabeça para a Samoura, onde cultivavam terras do seu avô, que ali vivia. Sabia-lhe lá muito bem uma merendinha que o avô mandava preparar à sua governanta, dizendo sempre:

 

 - Não quero que os meus netos passem aqui, sem comerem alguma coisa.

 

 - Este Manuel Barata, de longas barbas, e andou muitos anos no Brasil, era um santo e honrado Homem! Contava a minha prima Maria Teresa que este seu avô também, chegou a emprestar dinheiro ao célebre João Brandão, (tido como malfeitor e ladrão) e ele lho restituiu….

 

Naqueles trajectos da Várzea para a Samoura e da Samoura para a Várzea, muitas vezes acompanhada de sua prima Elvira, que trazia um irmão, em Coimbra, a estudar para Padre, o que não correu ela uma vez, para entregar cem escudos que vira caídos no chão e eram do Machucho, que os acabara de receber em Góis e os deixara cair na estrada nova. Nem meio tostão lhe deu de gratificação… mas ela sentiu prazer em cumprir com a sua obrigação. Seu pai e meu avô também havia sido um Homem honestíssimo, porque poderia ter-se ausentado do Brasil, mas só veio após ter pago uma dívida enorme de um seu irmão desaparecido, por quem ficara de fiador. Essa mágoa, de chegar à Várzea com poucos rendimentos, fê-lo morrer cedo.

 

Os seus irmãos é que estavam encarregados de tocar os sinos da Igreja, mas quando saíam, era sempre a Preciosa que tinha de puxar pelas cordas dos dois sinos ao mesmo tempo – e com toda a sua ligeireza, – a fim de fazê-los estrondear, ora de tristeza, ora de alegria pela Várzea inteira e casais à volta.

 

Quando completou dezoito anos, muitos dos rapazes da Várzea e arredores, ao vê-la tão desembaraçada e airosa, começaram a sorrir-lhe e a piscar-lhe o olho… Mas a Preciosa moça sossegada e de tino, não lhes dava confiança. Gostava de saudá-los com a sua alegre simpatia e certamente alguma estima. Só isso.

 

Num certo dia, em que ela tocava o sino da Igreja, viu ao longe um rapaz, de alcunha o “Tafona”, a serrar lenha numa eira com os olhos fixos na Torre. Tão distraído e enlevado estava a olhar para ela, que a “burra” virou-se e ele caiu ao chão, dando uma cambalhota… A Preciosa riu-se muito com esta peripécia engraçada, dizendo-lhe depois, quando o encontrou:

 

- Tanto olhaste, que até caíste da “burra”, meu parvo!...

 

Uma tia deste “Tafona”, insistindo muito para que ela casasse com o sobrinho, certa vez chamou-a a sua casa para lhe mostrar uma mala de enxoval, que tinha preparada para ele, e disse-lhe:

 

- Vê Preciosa o que tenho aqui guardado para o meu sobrinho. Só lençóis de linho, com bordados, são doze. Toalhas, também de linho com renda, são dez. Também já comprei duas panelas, um tacho e até uma peneira… Porque não aceitas o namoro?

 

- Ainda sou muito nova, senhora Maria. Também me falou o primo “Zé” do Cabeço que veio há pouco tempo do Brasil, todo aperaltado e vestido de branco… e eu não aceitei. Contudo, eu agradeço-lhe a sua atenção.

 

Como andavam muitos pretendentes a quererem entabular conversa com ela, a mãe vigiava-a muito, não autorizando que ela frequentasse bailes nem se demorasse na fonte. Muito austera, fechava-lhe à noite as janelas todas da casa, para que não espreitasse quando às vezes no Adro os rapazes lhe faziam serenatas à luz do luar. Era já uma rapariguinha feita, - a Preciosa – e ainda levava com uma chinela, cá fora na varanda… Então dizia – à sua mãe:

 

- Aqui não, minha mãe! Vamos ali para dentro, que tenho vergonha. Ao Luís Garcia, a quem chamavam o “Manquité”, ainda lhe ouvi dizer algumas vezes, caçoando com ela: “aqui não, minha mãe, vamos ali para dentro”…

 

Os seus irmãos eram ambos executantes da Banda Filarmónica, tocando trompa, um e cornetim o outro. O mais alegre e divertido era o Juvelino que cantava e encantava quem o ouvia. Este rapaz que morreu no Brasil em 1940 e lá teve descendência, deixou fama na Várzea pela sua jovialidade, sentido de humor e graça. Um seu neto de nome António Bressan, tem hoje no Brasil uma clínica de oftalmologia. Aqui deixo um abraço para o primo Tony e família.

 

Contava a minha mãe, que este seu irmão – Juvelino, algumas vezes foi para a beira do Rio com um guarda-chuva aberto e a fazer-se mais baixo… a fim de assustar os que andavam por lá à pesca sem licença que, pensando tratar-se do Senhor António, guarda-rios, fugiam a correr com o receio da multa.

 

Quando chegou aos vinte e dois anos, por consentimento de sua mãe, a Preciosa aceitou namoro com um seu parente de Góis. Um namoro sempre a três… até ao dia do casamento!...

 

Alguns jovens mais ousados chegaram a fazer zaragatas para conseguirem ser os escolhidos do seu coração. Esteve até combinado com o “Zé da Gaia”, que também a pretendia, mais outros, prepararem uma emboscada no Barroco do Nogueira, e darem uma “malha” no eleito, correndo com ele para Góis…

 

Nada conseguindo, os moços ficaram tristes. Entre eles havia um estudante de engenharia, que nem queria acreditar, apesar de ser ele a trazer as amostras do tecido, de Coimbra, para o vestido de noiva e ter-lhe ouvido algumas vezes dizer que não era sapato para o seu pé…

 

O dia vinte de Maio de risonha Primavera aproximava-se. Para o desiludir e já próxima a boda, a mãe disse, um dia à filha, na sua presença:

 

- Preciosa, vai dar as amêndoas, do teu casamento, ao Antoninho.

 

Será que alguém ainda se lembra do Antoninho da Várzea? Penso que sim, pois Vila Nova do Ceira, como se diz hoje, tem lá uma rua a recordar o saudoso Engenheiro António Barata Garcia.

 

O “Zé da Gaia, de seu nome próprio – José Olivença, também eu o conheci muito bem. Um homem alto e forte que muitas vezes me disse na loja de comércio: “Venho sempre a Góis no “carro” das minhas pernas…

 

 

(História verídica contada por minha mãe, na qual ela foi a protagonista) C.B.S.

 

 

 

                                          

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17.11.09

 

 

                                     MURMÚRIOS DO CEIRA

 

                                                     IV

 

                                  UMA FLOR E UM BEIJO

 

                              A ternura de uma criança tem sabor a mel. no coração do velhinho. C.B.S.

 

          

 

 

Eis o teor de uma carta que considero deveras interessante, que recebi há dias da Maria Celina e que ouso dar a conhecer aos amáveis leitores:

 

Boa Amiga

 

Como sabes não sou artista, mas seduziram-me sempre as cores, e, por isso, há dias, apeteceu-me pintar um quadro de amor.

 

Quando era mais nova cheguei a pintar a Natureza em festa, vasos de flores, fotografias, crianças e até passarinhos voando no Espaço. Não tive mestres; servia-me das paisagens campestres e dos livros e revistas coloridas que encontrava. Simples aguarelas que tenho escondidas e guardadas no meu sótão… Só a minha mãe tem apreciado os meus trabalhos, mas, agora, com a falta de vista, chora por não distinguir bem os meus rabiscos…

 

Numa tarde de Estio resolvi levar os meus pincéis na intenção de fazer uma aguarela bonita, a fim de a oferecer a minha mãe no dia dos seus anos, que vinham ainda longe.

 

Chegando ao Mártir e descansando um pouco sob a copa dos pântanos que ali estão a sombrear o local, subi a escadaria que dá acesso ao Castelo, onde agora funciona o moderno e aprazível Parque de Campismo e sentei-me num banco que está à entrada, recordando muitas pessoas da terra, apenas vivas na nossa saudade, que também ali estiveram e agora repousam em paz, mesmo em frente à sombra dos velhos ciprestes!...

 

Fiquei-me um instante a admirar a linda vila de Góis, a Musa dos meus sonhos! O casario branquinho, o Céu muito azul, e, envolta de arvoredos, a Igreja Matriz que abriga um artístico túmulo de D. Luís da Silveira, a serra do Rabadão e ao longe a capelinha da Senhora da Guia! Tudo isto me enfeitiçada, acredita!

 

Lá em baixo sob a velha Ponte de três arcos, o rio Ceira corria de mansinho, alegre e deslumbrado. As margens de um tom verde-loureiro, as esplanadas, a praia fluvial da Peneda que àquela hora do banho se coloria e movimentava, atraiam o vistoso bairro da Boavista que, ao fundo, presenciava a animação que se estendia ainda até ao Cerejal. Sempre que contemplo este bairro, sinto-me voltar à infância pois, como sabes, morei lá, quase, desde que nasci, até aos meus doze anos de idade.

 

Após um tempo de contemplação, subi a escada da Ermida de Nossa Senhora de Fátima para uns minutos de meditação religiosa e voltei a descer pelo lado poente, avistando a mata do Carvalhal, graças a Deus ainda pujante de verdura, englobando o bairro de S. Paulo, com o progresso industrial ali à volta. Com o espírito em divagação, quase me perdi… Amiga. Mas não! Em pleno Parque, sentei-me num banco rodeado de arbustos, onde àquela hora nem uma folha bulia nos caminhos floridos que exalavam suave perfume. Um casal de namorados deliciava-se em sonhos de amor, à sombra das tiliáceas em flor, a irradiarem igualmente um cheirinho aprazível. Lá ao fundo, entre a ramaria, vi um senhor de meia-idade, sentado também num banco, tendo a seu lado um menino que deveria ter uns cinco ou seis anos de idade.

 

Dialogavam, pelo que me escondi por detrás de um alecrinzeiro que ali havia, para que não notassem que alguém os observava.

 

O menino, naquele momento, entregava uma flor ao senhor – dizendo:

 

-Tome, avô. É um amor-perfeito!

 

- Não devias tocar na flor que pertence ao jardim público. Na Escola sempre recomendei isso aos meus alunos. Mas fico contente por ser lilás, da cor da Saudade! Também gosto das violetas, flores muito pequeninas, roxas e brancas que se escondem na verdura dos canteiros e derramam um perfume delicado.

 

- Já sei quais são. Mas agora não há e tenho pena de não achar uma para lhe dar. Queria ver o avô mais contente e feliz!...

 

- Feliz, João Carlos, já não serei mais! Sabes o avô perdeu a forças de repente; e agora, já velhote e doente, se não fosse a minha bengala que me ajuda, já não poderia vir contigo para este local, tão bonito!

 

- Então o avô esteve no Hospital e não lhe fizeram nada?! Os Doutores não souberam cura-lo? Quando eu for grande, quero ser médico para tratar do avô, que precisa de caminhar na rua, como as outras pessoas.

 

- Os médicos não puderam tratar-me, João Pedro, e por isso tu és a minha única alegria e fazes com que os meus dias não sejam tão tristes. Sinto saudades do meu tempo passado, de quando era professor e dava aulas na vila, mas tenho-te a ti, para me distraíres e consolar as mágoas que já são muitas. Se não fosses tu, apetecia-me fugir do mundo…

 

- Não digas isso, avô. Tome lá dois beijinhos, que quero vê-lo contente.

 

- És o meu melhor amigo, João!

 

- E não se engana, avô! Mas agora vamos os dois comer a merenda. – Um pãozinho para si e outro para mim.

 

Que linda imagem de ternura tive a ocasião de presenciar naquele momento, Amiga! Logo pus mãos à obra e comecei a pintar a cena: um senhor de idade, doente e triste, sentado à sombra do arvoredo e uma encantadora criança a dar-lhe uma flor e um beijo!         

Depois de executada a pintura com passarinhos e tudo… fixei-a contente, comigo própria. E que expressiva ficou! Dava até a impressão de estar perante um quadro de Natureza viva. Radiante de felicidade, conduzi, então, o trabalho para casa às escondidas da minha mãe. Ficou magnifico! Que maravilhosa surpresa arranjei para o dia do aniversário dela. Prenda melhor não conseguiria para esse dia memorável de 13 de Março: uma Flor e um beijo!

  

                                  

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5.11.09

 

 

                                                                                                                                                   

                                    MURMÚRIOS DO CEIRA

 

                                                                    V

 

                                    TRADIÇÕES DA BEIRA

 

          A Terceira Idade é um livro de ensinamentos que a mocidade deveria ler, cuidar e ter de perto. C.B.S.

 

                                   

 

 

O Sr. José Augusto, apenas ficara viúvo em terras da Beira – região de Coimbra – teve de ir viver para casa de sua filha que residia em Aljezur, onde havia casado com um comerciante daquela localidade do Algarve, Custou-lhe bastante ter de deixar a sua casa, as suas terras, os seus amigos. Mas teve de ser. A idade assim o permitia, A sua filha e genro tinham só um filho, ainda garoto, mas muito bondoso e extraordinariamente inteligente.

A casa situava-se nos arredores da vila e possuía um quintal airoso, no qual o Sr. José Augusto passava as tardes à sombra das árvores de fruto. Aquele ambiente pitoresco e soalheiro ajudava-o a mitigar as saudades que sentia do campo. Paulo Jorge, de regresso da Escola, vinha sempre para junto do avô fazer os deveres. Com a natural curiosidade de todas as crianças, pedia muitas vezes ao avô para que lhe contasse histórias e factos passados na sua terra, em tempos mais antigos.

Aproximava-se o Natal e o menino queria saber os costumes da quadra na terra do seu avô e certo dia perguntou-lhe:

- Avô, fale-me do Natal e como se festejava ele na Beira ou melhor, na sua casa?

 

- Sim, posso satisfazer a tua curiosidade. Nós tínhamos várias propriedades que agora estão por lá cheias de silvas a provocar incêndios. Possuíamos alguns animais para consumo da casa e fazerem estrume para as terras. Chegámos a ter uma égua para puxar a água do engenho. Cabras, ovelhas, coelhos, porcos e galinhas. Uma pequena empresa agrícola e pastoril, como agora se diz. Um criado e criada, que tratávamos como família, ajudavam-nos nestas lides. Ah, como sinto pena das fazendas que trazia cultivadas como jardins!

Lá em casa matavam-se sempre dois porcos, por ano, que se guardavam numa salgadeira, e dali se iam comendo moderadamente.

- O que é uma salgadeira, avô?

- A salgadeira era uma arca de madeira, na qual se colocavam as peças de carne com bastante sal para se conservarem. Hoje, com mais vantagem, usam-se as arcas frigoríficas. Como ia dizendo, era habitual matar-se um porco na véspera do Natal que, previamente se engordava para esse fim. O dia da matança era o dia de festa.

- Coitadinho do porco!

 

- Dizes bem, mas também nós temos de morrer.

De madrugada, chegava o matador, que nesse tempo era o “Ti Ilídio” que Deus lá tem à nossa espera. Eu e mais dois vizinhos ajudávamos à tarefa. A tua avó trazia um alguidar para se aproveitar o sangue para as morcelas e, nessa altura, tínhamos de ser fortes.

Quero ainda dizer-te que o “TI” Ilídio era moleiro da terra e por vezes engraçado. Quando passava com o seu burro carregado de saquinhos de farinha, costumava parar junto das pessoas amigas e dizia para o burro: cumprimenta estes senhores e ele baixava a cabeça…Tenho este caso verdadeiro na memória.

A tua mãe e o teu tio que está na América do Norte, não gostava de ouvir o triste grunhir do porco e refugiavam-se num comportamento da casa a taparem os ouvidos com os dedos da mão…

Depois de morto, chamuscava-se no pátio com giestas secas. Hoje faz-se esse trabalho através de maçaricos a gás. Após queimados os pelos, escovava-se com água, até ficar a pele muito bem lavada. Seguidamente levava-se o “defunto” para uma loja e pendurava-se lá numa trave com a ajuda duma peça de madeira forte, que tinha o nome de chambaril.

Estás a rir, por ouvires dizer: “defunto”?

- Escuta, então: Em casa do meu avô, da Samoura, assisti muitas vezes a este acto, em que quatro homens o conduziam seguro pelas patas e o meu avô os seguia com certo ar de humor, dizendo a cantar:

-Ora, atrás dele!... Ora, atrás dele!

O porco era, então, aberto para se retirarem as banhas, o fígado e as tripas. Estas vinham imediatamente para uma gamela e a tua bisavó encarregava-se de separá-las: ou seja, extrair-lhes o entretinho e o lenço, que é uma parte rendada que envolve os intestinos.

Também nós possuímos estes mesmos órgãos, mas com outros nomes.

As tripas no fim de estremadas, iam ser muito bem lavadas com sal e limão na Ribeira do S. Paulo para depois, com aquelas gorduras se fazerem as morcelas. Das tripas que restassem, e com outras que havia à venda, se fazia o enchido.

- As banhas também se comem, avô?

Lá em casa costumavam-se derreter assim: colocavam-se em pedaços grandes num tacho de ir ao lume e ia-se retirando a gordura para uma panela de barro vidrada. A esta gordura dava-se o nome de pingue e utilizava-se nos guisados, fritos e até na sopa de vagens. Depois de extraída gordura das banhas, ficavam no tacho uns torresmos a que dávamos o nome de picanarizes. A tua mãe gostava muito deles bem fritos e eu também. Esqueci-me de dizer que era habitual fazer-se um golpe nas costas do animal, do cimo ao fundo para todos verem e admirarem e espessura do toucinho – exclamando:

Está bom! Vejam como estava gordo!

Cheguei a matar porcos com catorze arrobas!

Realizada a primeira tarefa, íamos todos para a mesa almoçar caldo de arroz e cebola que a tua avó preparava com requinte. Entretanto, a tua bisavó começava os preparativos para confeccionar as morcelas doces, muito deliciosas, só semelhantes às afamadas Arouca.

No dia seguinte, à noite, o porco saía do chambaril para ser cortado em pedaços. De algumas peças se faziam pedacinhos pequenos que eram postos numa grande gamela, temperados com azeite, vinho, alhos, colorau e erva doce etc. Oito dias ficavam a marinar, para depois se juntar farinha e realizar-se o enchido que se colocava debaixo duma grande fogueira, a secar no fumeiro. Chegámos a fazer cem peças de chouriços e chouriças.

Os chouriços eram direitos e as chouriças curvas. Havia ainda uma peça maior chamada palaio e destinada a tempero regular da sopa.

Os presuntos, as pás, a cabeça, os pés, etc. colocavam-se na salgadeira, como já te disse. Após terminada a tarefa, seguia-se a lauta ceia, que já metia os tradicionais torresmos feitos numa caçarola na fogueira, regados com o bom vinho da nossa adega. Nessa noite não podia faltar o bacalhau graúdo e branquinho, que nesse tempo havia, com batatas, cabeça de nabo e couve tronchuda do quintal. Era uma maravilha! A mesa estava repleta de tudo, não faltando as filhós e as rabanadas.

- E diga-me avô, o Menino Jesus não vinha lá de noite pôr coisas lindas na chaminé?

- Pouca coisa, Paulo Jorge. Mas, claro que vinha. O teu tio, em vez de colocar a bota dele na chaminé, ia sempre colocar a minha que era bastante maior…

- Boa ideia, avô, para eu seguir o exemplo.

- Dia de Natal reunia-se em nossa casa a família toda. Vinham os meus pais, os meus sogros, irmãos, cunhados e sobrinhos, alargando-se a mesa para todos caberem bem. Após a chegafa da missa, que alegre confraternização se fazia! Ah, como sinto saudades!

Quero ainda contar-te que, nessa altura da matança, havia o costume de se obsequiar a vizinhança que não estava de porco morto, com um pratinho de carne fresca para torresmos. Era uma tradição bonita e amigável! Por vezes eram tantos os pratos a preparar, que quase nenhum lombo restava para assar no forno, destinado a conserva. O porco contém ainda dois órgãos de carne muito tenra, que se chamam lombinhos. Nunca me lembro de os comermos lá em casa. Eram sempre para oferecer. Um para o Presidente da Câmara e o outro para o nosso médico.

- E porque os davam sempre?

- Olha, porque lhe devíamos favores. O Dr. Bernardo nunca nos levava dinheiro pelas consultas e era médico muito interessado pelos doentes. A qualquer hora do dia ou da noite acorria sempre e de bom grado, a socorrer quem dele necessitasse. Até vinha a nossa casa dar injecções, se preciso fosse. Centenas de vezes calcorreou a serra de noite, montado no seu cavalo, porque um doente mísero ou remediado o esperava com ansiedade. Foi ele quem salvou o teu tio duma grave doença em que esteve prestes a morrer numa noite de Natal. Que Deus o tenha na sua glória, pelo Bem que fez à humanidade do meu concelho.

Hoje o nível de vida das pessoas é muito melhor, mas é pena que os serviços de saúde, nas vilas e aldeias, não acompanhem, o progresso. Pelo menos nas aldeias serranas, onde quase já só vivem idosos e poucos, sofre-se ali muito. Vale ainda a vizinhança amiga, que se protege uns aos outros.

Na Aldeia de Vale -Torto, lá para os meus sítios, de Góis, imagina! Só lá vive agora uma senhora, sem ter um vizinho sequer, que lhe sirva numa aflição. No Verão, a terra movimenta-se um pouco mais. Coitada da senhora! Vale-lhe o ar puro da serra do Penedo, que tem por companhia.

Os modernos Centros de Dia e Lares estão também a suavizar um bocadinho o desconforto, Mas as Escolas fecham-se por falta de crianças e não há nada que faça dar vida nova àquelas terras.

 

-Retrocedendo um pouco, daí a um mês, pouco mais ou menos, fazia-se nova reunião de família para a festa do “ bucho, como se dizia.

- Mas o que é o bucho, meu avô?

- O “bucho” chamávamos nós ao estômago do suíno. Depois de muito bem lavado com sal e limão, enchia-se com pedacinhos de carne, chouriço e arroz. Muito bem temperado, atava-se com uma guita e cozia-se, então, numa panela. Havendo o cuidado de o não deixar rebentar, a fim de vir inteirinho e apetecível para a mesa. A sopa deste dia era muito gostosa, contendo carne fresca, chouriço, cabeça de nabo e a boa couve tronchuda. A tua avó fazia, neste dia, um arroz doce, que era de comer e chorar por mais…

- Nesse tempo, avozinho, as famílias eram muito mais amigas!

- Dizes bem. Paulo Jorge. Nesse tempo existia uma interligação familiar muito forte.

Hoje não é assim. As pessoas correm todas de um lado para o outro, quase sem tempo algum de se estimarem e conviverem. Os meus pais e sogros viveram sempre felizes até à idade de oitenta e tal anos, pois os filhos e netos os rodearam de amor e carinho até ao fim da sua vida.

Presentemente existem os Lares que resolvem alguma situação, mas não chega, porque são casas de “estima emprestada”… e de menos carinho. E, agora, até já são muito caros e com poucas vagas.

- O avô é que não precisa de ir para nenhum Lar!

- Graças a Deus!

- Sabe, meu avô, gostaria também de ter nascido nessa época e nessa sua terra para viver assim o Natal, com muita alegria e bastante família à volta da mesa. Deveria ser animador!

- Era, sim, Paulo Jorge. Contei-te costumes do Natal. Outro dia ficarás a saber também as tradições da Páscoa na minha Beira.

- Gostei muito da história, que é verídica, meu avô. Só é um bocadinho triste por termos de sacrificar um animal para sustento e regalo das pessoas. Contudo, talvez dê para fazer uma composição.

Há dias fiz uma sobre a tortura e morte dos touros em Barrancos e não só. A senhora Professora apreciou tanto que até me deu os parabéns e pôs no trabalho: um bom com distinção.

 

 

 

- Também não gosto de touradas, Paulo Jorge. E agora muito menos, com uma lei bárbara de massacra-los até à morte. És um neto maravilhoso e orgulho-me muito de ti, por teres também um generoso coração!

 

                                  

 

 

 

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3.11.09

 

 

                                      MURMÚRIOS DO CEIRA

 

                                                     VI

 

                          O MEU PRIMEIRO DIA DE AULAS

 

                                    O bom professor também precisa do bom aluno. C.B.S.

 

             

 

                                                

 

 

Já lá vão algumas décadas que numa manhã radiosa de sol, em que o calendário indicava 7 de Outubro, preparava-me para dar entrada na Escola Primária. Acompanhou-me a nossa serviçal Alzira que Deus lá tem; uma jovem de 21 anos que me viu chorar desde que saí de casa, até à porta da Escola. Lembro-me que lhe disse:

Fica comigo… Mas ela tinha de regressar a casa para os trabalhos domésticos e do campo, que a minha mãe, antes de ir para a loja, já lhe havia destinado. (Eu sou a mais pequena que está de escuro na pontinha do lado direito.)

Coitada, por ter de ir servir cedo, não teve acesso às letras e não chegou a aprender a ler. Não atingiu esse grau mínimo de instrução, porque, entretanto, casou e eu não tive tempo de lhe curar a “doença” do analfabetismo…

A senhora Professora, como nós a tratávamos, era nesse tempo a D. Anália Tomé, que me recebeu assim:

-Dá cá um beijo e senta-te ali na carteira, ao lado da “Lila” Candeias. Mas porque estás triste, Clarisse?

- Porque não gosto daqui, senhora professora – respondi.

A Escola, onde funciona agora a Junta de Freguesia, era dividida em duas partes, independentes. Numa sala estavam as meninas e na outra os rapazes que tinham por mestre o Sr. Professor Serafim Marques Gomes de Araújo. Penso que alguém ainda se lembrará deles, pois enquanto brincávamos no intervalo, eles passeavam à volta do Edifício Escolar, em amena conversa.

Havia na Escola umas “orelhas de burro” cor-de-rosa, para castigo das menos atentas às aulas. Parece que estou a ver as meninas com elas enfiadas na cabeça em cima de um estrado, com modos tristes de enfado…

Muitas vezes a senhora obrigava-as a irem colocarem-se com elas à porta da sala dos rapazes para eles se rirem… Nunca me lembro de tê-las na minha cabeça, com certeza, por ser bem comportadinha de fazer por estudar muito, de madrugada para que ficassem os estudos melhor gravados na memória. Gostava muito de História e aritmética. Foi por isso que, no dia do meu exame, brilhei no quadro a fazer os quebrados e complexos.

Existia ainda a palmatória de “cinco olhos” que um dia desapareceu….

Porem, também não me recordo de alguma vez, a sentir na minha mão e custou-me um dia, já na 4ª classe, a mando da senhora Professora ter de dar algumas leves… reguadas a todas as meninas por não saberem a tabuada que eu tinha toda encaixada na cabeça. ´

E que a nossa mestra era muito briosa e arreliava-se bastante se as suas alunas não correspondiam ao seu esforço de ensinar, chegando a dar-nos aulas particulares.

Em casa, tinha a minha mãe, que sabia ajudar nas lições, e ai de mim e do meu irmão que não aprendêssemos também as regras da boa educação. Era já um rapazinho adolescente, o meu irmão, e o nosso pai prendi-o com uma linha fina, por detrás do balcão da nossa loja de comércio, na qual se vendia de tudo, desde os carros de linhas aos bicos de arado… Para , de manhã, o acordar, um copinho de água pelas costas abaixo… Era este o despertador que o nosso pai usava… À noite, não havia autorização de rua para ninguém.

Mas volto a referir-me aos estudos. Hoje, com o desregramento dos costumes entre a nova juventude, quer creiam quer não, os comportamentos alteraram-se e o respeito devido deixou de funcionar. A promiscuidade e a confusão indistinta que se verifica hoje nas Escolas e recreios, também contribuem para a desordenação do sistema.

Ouço dizer e leio nos jornais, que cada vez há mais insucesso escolar e os professores não conseguem pôr os alunos a estudar com atenção, e são por vezes desrespeitados e até agredidos por eles. Por outro lado, há também professores novos que não se mostram muito exigentes na missão de leccionar. Há meses num concurso de dinheiro, apreciei uma concorrente atrapalhada, porque frequentava um curso superior e não conhecia o cognome do nosso rei D. Sebastião. Outro, que até acertava bem em cultura geral, mas não sabia qual a última das três pessoas da Santíssima Trindade… nem nunca ouvira falar no Espírito Santo. Que atraso de cultura religiosa!

Em casa não há tempo e, raramente, ambiente adequado para explicações de toda a ordem e troca de um diálogo são, mas era ali, obviamente, que se deveria começar a formar a mente das crianças e dos adolescentes que precisam de afectos, mas não podem mimar-se em demasia, concedendo-lhes liberdade ilimitada e dinheiro a mais nos bolsos. Há zonas tão vulneráveis e susceptíveis a críticas, que o professor é um herói a conseguir o objectivo de dominar os seus alunos que trazem da rua novos fenómenos que têm de enfrentar e saber combater com rigor e afecto. Todos os professores deveriam saber algo de psicologia. A fim de simultaneamente analisarem também problemas psicológicos do estado de saúde mental dos seus discípulos e, por fim, tratarem das suas faculdades morais e intelectuais, como sejam a ciência da alma, que é pura de essência e, tantas vezes, uma luz brilhante a extinguir-se num corpo por acabar de se formar…

A insegurança nas Escolas e, até, a criminalidade avança a olhos vistos. Por este andar, quem quererá ser professor ou professora amanhã? Estou a lembrar-me do caso impressionante ocorrido na Alemanha no mês de Abril de 2002 em que um estudante expulso matou cruelmente catorze professores, dois alunos, um polícia e por fim suicidou-se!

Duma família sã, cuidadosa e modelar, fazendo elo inquebrantável com a Escola, (pais e professores) é que surgirão pessoas íntegras e cultas no futuro. O Lar é a primeira Escola da Vida que deve ser regida e exemplificada, desde a meninice até à juventude.

A inteligência, a bondade e a nobreza da alma poderão cedo começar a cultivar-se, e porque não, aulas de Educação Social a novos pais? Se podem tirar horas de serão para se verem telenovelas, quanto mais útil não seria aproveitar-se esse tempo para uma hora de estudo e reflexão do espírito?!

Não nascemos para génios, mas poderemos transcender dos limites do quotidiano, afim de estarmos aptos a auscultar a tendência dos infantes e a firma-los em alicerces de bases sólidas para um melhor futuro deles e de toda a Humanidade. Uns vão… e tantos cá ficam sem saberem o caminho recto que hão-de trilhar…

Eis um caso interessante: ouvi dizer que em certo lar, a televisão fecha-se todos os dias um bocadinho para diálogo de família e falar de Deus. Que bonito!

 

Não gostei de entrar na Escola Primária, e depois vim a gostar muito. Tanto que fiquei mais um ano a ajudar a senhora Professora, mas sem ganhar nada… O meu pai queria que eu não esquecesse o que tinha aprendido. É verdade, que tinha em Coimbra o meu padrinho a dar aulas num Colégio de família, mas era só de rapazes e nesse tempo era muito difícil voar alto…

Já agora, gostaria de deixar aqui gravado, no meu modesto livro, a história e o nome de um Homem que admiro muito, pela sua tenacidade, forte vocação para as letras e se chama: JOÃO ALVES SIMÕES:

 

Nascido em Ponte do Sótão, freguesia de Góis, em 15 de Junho de 1940, saiu da terra aos onze anos de idade, levando por bagagem, a sua distinta quarta classe, para ir empregar-se como aprendiz numa retrosaria, em Lisboa. Logo as saudades o fazem voltar à aldeia, até com a ideia de ser carpinteiro. Passados alguns meses, regressa a Lisboa para ir trabalhar num armazém de Produtos Químicos e Farmacêuticos, Daqui, surge um conhecimento com a Cª Nacional de Navegação e solicita um emprego como “grou”, mandarete e faz a sua primeira viagem ao Brasil no paquete Vera Cruz, Depois é moço ajudante de copa e empregado de mesa na messe dos oficiais. Em 1961 é já tripulante, ascendendo gradualmente na Classe das Câmaras, percorrendo muitos países de quatro Continentes.

Torna à terra em 1962 e inicia aqui em Góis e Arganil os seus estudos liceais. Em 1963 regressa ao mar, embarcando no navio tanque “Fogo”.

Em Janeiro de 1964 volta ao Colégio de Arganil e chamam-no de Lisboa para cumprir o serviço militar. Colocado em Elvas, vai, daqui, fazer o exame do 5º (Secção de letras) na Figueira da Foz. Como Sargento M. esteve também em Mafra, Tavira e por fim Lamego, de onde saiu para ir servir o Ultramar. Entretanto, vai estudando, Promovido a furriel Miliciano em 1965 desembarca em S. Tomé e Príncipe, e em 1966 completa o 5º ano (ciências) em S. Tomé.

 

Em 1967 regressa à Metrópole, passa à disponibilidade e é nomeado Ajudante Oficial na Alfândega do Porto, onde reside e permanece nesta actividade até 1983.

 

Em 1971 casou em Coimbra com Maria Regina Aguiar e em 1973, após ter concluído o exame do 7º ano, é admitido na Faculdade de Letras do Porto, que frequenta até 1978, como aluno voluntário/trabalhador, a Licenciatura em História, que termina em 1978, com boa classificação, permitindo-lhe continuar na Universidade, os estudos de Pós – Graduação e Mestrado. Desde essa data até 1995 é professor provisório e efectivo em várias Escolas Secundárias do Norte, e não só, apresentando valiosos trabalhos e estudos de investigação.

De 1994 a 1996 – faz o curso de Pós-Graduação em Musecologia, na Faculdade de Letras da U. do Porto. Depois até 2000 é admitido, frequenta e faz o “Mestrado”, em História Contemporânea, com a dissertação: “Os expostos da Roda de Góis” 1784. 1841” na Faculdade de Letras da U. do Porto, no dia 13/03/2000, com a classificação de BOM COM DISTINÇÃO.

Continuando a sua carreira de Professor efectivo, foi-lhe concedido, em 19 de Março de 2002, o direito à aposentação e passa à situação de Professor Jubilado.

Em 12 de Julho de 2002, o seu trabalho de tese, -“Os Expostos da Roda de Góis (1784 – 1841” ) livro interessantíssimo, de grande formato, com cerca de 200 páginas, trabalhoso, bem concebido e, até, curioso, foi apresentado( no novo e bonito Auditório da “Casa do Artista”) em Góis, na presença de distintos professores da Universidade do Porto que muito o elogiaram, pelas Autoridades Camarárias de Góis, muitos amigos e duma população Goiense, orgulhosa por ter o Senhor Doutor e Mestre João Alves Simões valorizado a nossa cultura, que pensa, com a sua energia, continuar; pois tem cerca de 20 trabalhos de carácter científico, sobre a região de Góis e outras, que sonha publicar.

 

Tive neste dia, o gosto de felicitar sua mãe, que certamente chorou de alegria e comoção, vendo o seu filho, que lutou sozinho, nos píncaros da lua!...

 

Jovens da nossa terra, – e não só – coloquem aqui os vossos olhos… inspirem-se e trilhem por estes caminhos árduos, é verdade, mas muito gratos e dignificantes. Isto é, apenas, um resumo… de uma carreira brilhante, de um GRANDE EXEMPLO a seguir.

Também eu gostaria de ter seguido os meus estudos, como já disse, mas faltaram-me as “asas”… e aos meus pais os meios necessários para voar…

 

                                                 

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23.10.09

 

 

 

                                                    MURMÚRIOS DO CEIRA

 

                                                  VII

 

                                   AMOR SEM FRONTEIRAS

                                         

     Olhos vendados para o mundo, abrir-se-ão no Céu, diante de um sol diamantino, feito por Deus. C.B.S.

                                        

                             

 

 

 
Maria Clara estudava em Aveiro, estando hospedada em casa de um casal amigo de seus pais, abastados agricultores, a viverem numa aldeia do concelho de Águeda. Percebendo a mãe, a D. Carolina, que ela tinha uma certa inclinação para os estudos, um dia comentou – com o marido:
- A pequena é inteligente e, como já notei, tem vocação para os estudos. O irmão, que está seguindo a carreira de Advogado no Porto, não vai querer ser agricultor, e não será ela, provavelmente, que irá administrar as nossas terras, que são diversas.
A senhora Albertina, de 48 anos, irmã do senhor Américo dos Santos (esposo da D. Carolina), que vivia com eles, – atalhou – um pouco aborrecida:
- Então, quem vai cuidar das propriedades que os nossos pais nos deixaram? – Respondam-me, por favor!
A D. Carolina – opinou:
- Enquanto pudermos cuidaremos nós das quintas e das casas. Depois, quando o Henrique tiver o seu curso de Direito, encarregar-se-á ele da sua administração. Nota-se que é enérgico, e já tem umas luzes da actividade agrícola, pelo que não estou muito preocupada com isso. A Maria Clara ainda não decidiu o seu futuro, apesar de sempre me dizer que gostaria de ser Enfermeira. Não sei… O futuro a Deus pertence…
- Uma Enfermeira na família, até dá jeito, Carolina – atalhou o marido – aplaudindo a ideia com todo o entusiasmo. Mais tarde, na velhice, custa menos estar doente, com uma dedicada enfermeira ao nosso lado, não acham? 
Pensavam eles no melhor para os seus filhos, mas a senhora Albertina preocupava-se muito com a conservação das quintas e bens que tinha herdado dos seus antepassados, e – tornava a dizer:
- Pois é. Mas eu é que me não convenço muito. Parte das nossas fazendas já estão de pousio com silvas, e por este andar seguem as restantes. Tudo custou muito aos nossos avós… Mas pronto! Temos de acompanhar o desenrolar dos tempos, no entanto, vermos tudo ao Deus dará, é bastante desagradável.
Como já se referiu, a Maria Clara estava em Aveiro, vindo só a casa no tempo das férias. Ali tomou conhecimento e amizade com uma colega que, como ela, frequentava o Secundário. Chamava-se Alexandra e tencionava formar-se em medicina. Entre ambas reinava, desde há tempos, uma certa estima, mas eis que chegou o momento e a curiosidade de saberem quem eram as famílias, de parte a parte, como e com quem viviam.
Alexandra, depois de estar inteirada da vida familiar da Maria Clara, numa certa tarde em que foram as duas passear até ao Parque, começou a desfiar o “novelo”… e falou assim:
- A minha vida familiar é um tanto complicada e triste, Maria Clara! Meus pais faleceram num desastre de viação, tinha eu 3 anos e o meu irmão 5. Por acaso, não viajávamos nesse dia com eles, mas esta fatalidade marcou-nos para sempre. Quem conduzia o carro dos meus pais, nesse dia fatídico, era um tio nosso, ainda solteiro, que residia no Canadá e estava cá de férias. Também ele perdeu a vida, após dois meses em coma no Hospital, em Coimbra. Constou-se que foi uma avaria nos travões que não obedeceram ao afrouxamento do carro despistado. A minha avó paterna, doente cardíaca, perante tão grande desgosto, pouco tempo sobreviveu aos filhos.
Foi uma pena! Os meus pais tinham um relacionamento afectivo, espectacular! Casados, havia apenas seis anos, viviam ainda uma autêntica lua-de-mel e os filhos eram, naquele momento, o motivo principal da sua felicidade.
É verdade que o Castelo dos seus sonhos começou a ruir, apenas se soube que o meu irmão nascera cego! E foi terrível, Alexandra!
Os meus pais consultaram então, os melhores especialistas de Espanha e Inglaterra; foram aos Estados Unidos com ele, e não conseguiram uma luzinha de esperança.
- Estou deveras impressionada com a tua história, minha amiga! O teu irmão deve sentir-se muito triste e desencorajado.
- Não muito, Maria Clara. Aprendeu Braille com uma facilidade espantosa! Vocacionado para as letras e para a música, escreveu já um romance para cegos, que agradou imenso e tirou o curso do Conservatório, Toca piano maravilhosamente, gosta de poesia, compõe músicas e até canta muitíssimo bem! Tem imensos poemas na gaveta para o livro que pensa publicar, e este não é para cegos.
- Então, como?
-- Ainda bem que estamos na era dos Computadores, aos quais o meu irmão está a adaptar-se de maneira excelente, tencionando ainda tirar um curso superior. Eu tento ajudá-lo, mas se visses como ele maneja aquela máquina?! Tem uma memória incrível! Depois, tudo lhe sai perfeito.
- Gostaria de conhecer o teu irmão. Quando é que podes apresentar-mo?
- Muito breve, se quiseres. Vais ficar admiradíssima!
- Mas ainda não me contaste, Alexandra, quem vos acabou de criar e com quem vivem?...
- Após aquela tragédia, ficámos com a minha avó materna, a minha tia Idalina, irmã de minha mãe, que é a minha madrinha, e a nossa empregada – Rosa.
Há cerca de cinco anos, a minha avó, com muita pena nossa, não resistindo a uma doença incurável, faleceu. Ficámos então com a minha madrinha e a Rosa que nunca quiseram mudar de situação, por nos terem muita amizade. Ambas diziam:
- Casarmos, para quê, se temos aqui em casa a quem nos dediquemos e tanto precisam de nós? Além do mais, só se vêem pessoas descasadas e maltratadas…
E é com estas duas almas, muito queridas, que nós vivemos em paz e, graças a Deus, sem dificuldades económicas, pois os meus avós maternos viveram sempre de maneira desafogada e tinham, apenas, duas filhas: a minha mãe e a minha madrinha Idalina. Do lado do meu pai, que eraEngenheiro Civil, também herdámos já, de minha avó, uma boa moradia que temos arrendada e ainda uma pequena quinta em S. Pedro do Sul. Meu avô paterno, dali natural, era Tesoureiro da Fazenda Pública. Agora, aposentado e viúvo, vive com uma antiga empregada. Homem muito estudioso, não se cansa de comprar todo o género de livros. Tem uma biblioteca incomensurável!
 
Vivemos um pouco distanciados, mas temos com o nosso avô um relacionamento muito amigo! Costuma vir cá passar pelo Natal e pela Páscoa, e nós deslocamo-nos lá, sempre que nos é possível. Se visses a alegria dele… quando vê os netos em sua casa! É espectacular o nosso avô! Nós também fazemos por cumprir o dever de sermos amigos dele. Nunca lá vamos sem que lhe levemos um bolinho para ele adoçar a boca…
- Ainda não deixei de pensar no teu irmão. Como se chama ele?
- Augusto Manuel, ou seja: tem os nomes dos nossos dois avós.
- Os dotes do teu irmão, fazem-me lembrar um pouco a norte Americana: Helena Keler, escritora e doutrinadora, nascida em 1880 que, ficando cega e surda aos dezanove meses de idade, se licenciou, com 24 anos, em Filosofia. Uma grande mulher de coragem e de amor ao próximo, que deixou diversas obras traduzidas em muitas línguas! São bastantes conhecidas estas frases suas: “A vista e o ouvido não são os únicos meios pelos quais as nossas sensações se despertam. Por mim, sinto-me impregnada de ambiências… Por toda a parte se encontram maravilhas, mesmo nas trevas e no silêncio.”
- Também já li referências dessa mulher notável que sabia ler nos lábios das pessoas com quem falava. Que extraordinário instinto e saber! Se não estou em erro, Helena Keler este em Lisboa em 1956, presidindo a uma Conferência.
- O sol está a pôr-se, Maria Clara; temos de separar-nos. Lá em casa podem estar em cuidado e o meu irmão precisar de mim. Sou como a sua bengala…
- Fazes bem, Alexandra. Como sabes, eu resido aqui perto e, se não te importas, um dia destes bato-te ao ferrolho…
E não demorou muito a concretizar o seu desejo, Num Domingo, depois do almoço, lá estava ela a tocar a campainha da porta… Apareceu a Rosa que sabendo-a amiga da menina Alexandra, logo a mandou entrar para a sala.
Imediatamente a Maria Clara surgiu para cumprimentarem-se num caloroso abraço e referiu:
- Sentamo-nos; mas que bom ter-te aqui! Tens sabido dos teus pais? Como estão eles?
- Graças a Deus, bem. O meu pai esteve cá ontem. Trouxe-me um bolo que trago para repartir convosco e saudades da minha mãe. Também não tardam as férias da Páscoa para ir lá comer as amêndoas… É interessante! Tal como sabes, nestas terras ainda se mantém a alegre tradição de vir o Snr. Prior a casa lembrar a Santa Ressurreição de Cristo, com palavras de Boas-festas e Aleluias, que as famílias retribuem com agradecimentos e um pequeno “folar” colocado sobre a mesa. Os acompanhantes apresentam a Cruz, que todos beijam respeitosamente, e espargem água benta pela casa; tudo isto ao som das campainhas.
- Eu sei, Maria Clara! E é pena que este convívio interessante esteja a ficar em desuso. Aliás, por aqui e em muitas terras do norte ainda se pratica a tradição da Páscoa, em que muitas pessoas, desejando receber o senhor, juncam as frentes da porta das casas com flores e rosmaninho. Crianças, jovens e adultos, percorrem neste dia as vivendas de parentes e Amigos para estarem presentes na chegada ali da visita Pascal e confraternizarem um pouco.
- Vou ter saudades tuas, mas quinze dias passam depressa. O meu irmão está no escritório. Vamos ter com ele, que quero apresentar-to.
O escritório era um enorme compartimento da casa, com largas janelas envidraçadas que davam para o quintal, estantes com livros até ao tecto, poltronas, duas secretárias e algumas plantas. De volta com o Computador, levantou-se apenas ouviu a irmã dizer:
- Dás licença, Augusto Manuel, que te apresente a minha amiga, Maria Clara?
- Com muito gosto! Ora viva, Maria Clara! A minha irmã já me havia falado em si, com muita admiração!
- Olá, Augusto! – Muito prazer em conhece-lo também. Mas que bonito rapaz! Sabe?! Imaginava-o baixinho e gordo, e deparo-o alto e bastante elegante, – volveu Maria Clara – num tom de graça, sorrindo…
- O destino assim o quis. Deu-me certos atributos e negou-me outros mais preciosos. Infelizmente não posso vê-la, mas a minha irmã já me apresentou o seu encantador retrato!... Da voz, já fiz juízo, É deveras cativante!,,,
- Muito obrigada. Em troca do elogia, vamos ser muito amigos.
Após o primeiro contacto, Maria Clara, fixando o seu olhar terno naquele rapaz moreno, esbelto, de óculos escuros, logo se sentiu atraída por algo que não sabia explicar e muito a impressionou…
Alexandra aproveitou para lhe mostrar alguns trabalhos interessantes do irmão, que a deixaram pasmada; isto, enquanto a Rosa e a madrinha preparavam, na cozinha, um lanche para todos.
- Estou encantada com tudo e convosco, mas tenho de ir – disse Maria Clara. Ah, mas hei-de voltar mais vezes. O Augusto Manuel ainda há-de ensinar-me a trabalhar com o Computador.
- Volte sempre que deseje, que nos dará muita alegria, – volveu o Augusto Manuel.
E assim aconteceu. As visitas àquela casa tornaram-se assíduas e o Augusto Manuel sentia-se feliz por, em vez de uma, ter agora duas secretárias. Curiosamente, a Maria Clara ainda se mostrava mais solícita e atenta ao que ele escrevia; naturalmente, num veemente desejo de lhe agradar e aprender a manejar o Computador para o auxiliar naquilo que pudesse.
 
Chegou o tempo da férias da Páscoa e com elas o dia da despedida. Maria Clara, com as malas preparadas, deu um salto a casa dos amigos, afim de lhes dizer Adeus.
Chamou à porta e quem veio atender foi o Augusto Manuel que, nessa hora, se encontrava só em casa. Alexandra e a madrinha haviam ido ao dentista e a Rosa fora também fazer umas pequenas compras.
- Venho despedir-me, Augusto! Daqui a duas horas o combóio parte para Águeda. Quando regressar acabaremos de pôr os poemas em ordem.
- Mas entre, Maria Clara, e espere um bocadinho, que elas não devem demorar.
- Só disponho de meia hora para a despedida.
A jovem entrou para o escritório e ainda lhe ditou um soneto para o livro publicar muito brevemente; e foi ela, mesmo, que escolheu o título: “Ensaios Poéticos”.
- Quando chegar a casa – dizia a Maria Clara – vou ouvir os “sinos de Mafra”. As notas não são especiais, e, então, terei de contar à minha mãe os sonhos meus, que me trazem a mente em devaneio….
- Em devaneio? Não entendo!
- Depois lhe conto quando regressar de férias – se é que ainda não descobriu o que me vai na alma…
Augusto Manuel disfarçou bem a sua comoção de alegria e nada disse, porque de maneira nenhuma queria dar-lhe a conhecer os seus sentimentos, que via agora a cruzarem-se nos dela…
- Tenho pena, mas vou-me embora. Apresente a todas as minhas despedidas. Talvez logo à noite ligue cá para casa.
- Bem-haja por tudo, Maria Clara, e recomende-nos também a seus pais e tia.
Um beijo sentido e respeitoso selou a despedida daquelas duas almas gémeas que iniciavam uma estrada paralela e quem sabe com alguns precipícios pelo caminho…
 
Já na sua linda aldeia, onde era muito querida, Maria Clara foi saudada por muitos conterrâneos, tendo a sua família ficado radiante e a completar-se a felicidade, quando chegasse do Poro o Henrique que estava prestes a ter o seu curso de Direito, na mão.
Com as férias quase a terminarem, Maria Clara não queria partir sem contar a sua mãe certa efervescência de afecto que trazia dentro de si. Aproveitando uma ausência do pai e do irmão, teve de desvendar algo do mistério…
- Sabe, mãe, a minha amiga tem um irmão, com 22 anos, que é uma sumidade de inteligência, também simpática e bondoso. Um rapaz muito gentil!
- Vê o que andas a fazer… Tu, não te prendas com ninguém, Maria Clara, sem completares o teu curso. Bem sabes que o teu pai não é de modas…
- O meu curso vai razoavelmente bem e penso terminá-lo daqui a dois anos. Até lá decidi não dar-vos motivo algum que mereça o vosso reparo, mas com certeza, terão de aliar-se também à minha tendência de aspirar a um futuro risonho e à de quem precisa igualmente de felicidade…
Sua mãe, não percebendo o que ela queria dizer com isto, – apenas disse:
- Tem juízo minha filha, e porta-te sempre bem.
Maria Clara perante os sérios avisos de sua mãe, já não teve coragem de adiantar mais nada. O tempo ajudaria a desbravar o “terreno”… esperando que Deus que manda dar a mão a todos apoiasse a sua causa.
Conforme havia prometido a sua mãe, iria ser mais aplicada nos estudos, fazer por sossegar melhor a cabeça, para dali a dois anos conseguir terminar o seu curso com boa classificação, dar essa grande alegria aos seus pais e contar-lhes o resto da historia…
Em Aveiro, as visitas ao Augusto Manuel e à Alexandra, eram agora menos frequentes, até porque ela estudava em Coimbra; também eles tinham de estudar, Mas, mas nas tardes de Domingo, lá estava ela para trocarem impressões e sentarem-se num banco do jardim e à sombra de um caramanchão que ali havia no bonito quintal. Quase sempre o Augusto ordenava à irmã para lhe colher das mais lindas rosas para ela levar, cujo perfume, – dizia vir do jardim de Deus!
Com efeito, a Amizade entre eles cada vez mais se consolidava. A Alexandra, que andava um pouco desconfiada, um dia avisou o irmão, deste modo:
- Vê, como te portas com a Maria Clara!... Repara, que é a minha melhor amiga.
- E a minha também – volveu ele – um bocadinho triste.
- Está bem – mas os pais dela podem não receber a notícia do vosso relacionamento afectivo com agrado.
- Olha, Alexandra. Conheço, infelizmente, as minhas limitações e, como já lhe disse a ela, não poderemos ser mais que grandes amigos. Tenho pena, mas vou ver se consigo persuadi-la a deixar de vir a nossa casa, pelo menos, por algum tempo.
E assim, num dia em que a Alexandra foi preparar o lanche, Augusto Manuel aproveitou aqueles momentos para dizer à sua amiga:
- Tenho receio que os seus pais se desgostem muito, apenas saibam o grau de Amizade gerada entre nós, e que possa também prejudicar os seus estudos. Não acharia bem que interrompêssemos, por um tempo ou até ao final do curso, os nossos contactos? Que lhe parece?
- Os meus estudos vão bem, graças a Deus, – respondeu ela – de maneira sentida e inquieta – mas vou aceitar o seu alvitre, não com receio dos meus pais, mas por si, que não deve sentir a mesma estima por mim.
- Não queria magoá-la, mas…
Entretanto, chegou a Alexandra e suspenderam o diálogo. Após o lanche, Maria Clara despediu-se triste dos amigos com um “até qualquer dia”, que a Alexandra achou um bocadinho estranho e seco…
A partir daqui, os relacionamentos, entre eles, alteraram-se consideravelmente. Apenas os cumprimentos de cortesia por escrito nos dias diferençados. Sempre que se encontravam na rua, as duas amigas falavam com entusiasmo, quase sempre sobre os estudos e sem que a Maria Clara se esquecesse de perguntar pelo Augusto Manuel, que trazia ainda no coração. Também ele não se esqueceu de lhe mandar o seu novo livro de poemas, com uma cativante dedicatória que muito a sensibilizou. E, como já disse, fora ela mesmo que escolhera o título.
 
São agora decorridos dois anos; e a Maria Clara terminou o seu curso de Enfermeira com elevada classificação. Por este motivo, os seus pais fizeram questão de querer organizar um jantar de amigos, com o fim de comemorarem o feliz acontecimento.
Maria Clara, que nunca olvidara os bons Amigos Augusto Manuel e Alexandra, disse a sua mãe que não apoiaria esta iniciativa e nem se realizaria festa alguma, se os seus pais não autorizassem que mandasse um convite para o jantar ao Augusto Manuel e à Alexandra, que foram sempre os seus melhores amigos.
Sua mãe tratou de convencer o marido que respondeu assim:
- Se bem me lembro – disseste-me uma vez que esse rapaz era cego de nascença. Não sei como a rapariga inclinou para aquele conhecimento, mas autorizo que venham todos, desde que daí não surja nenhum inconveniente.
Maria Clara, logo que teve luz verde do pai, não mandou convite nenhum; meteu-se no comboio e foi ela mesmo, pessoalmente a Aveiro convidar aqueles bons amigos, sem, o que não se faria a festa.
Recebida, como sempre, com muito carinho e muita alegria naquela casa e após ter explicado a razão que ali a levou, – disse-lhe a Alexandra, sorridente:
- Foste mais esperta do que nós, que ainda não concluímos os nossos cursos, mas também falta pouco. Desejamos-te muitas felicidades e desculpa, Maria Clara, mas não vamos à tua terra.
- E eu não saio daqui, sem que me dêem uma resposta afirmativa, a não ser que me ponham na rua … Como dizia o saudoso jornalista Fernando Pessa: E esta, hein? Vá, sério, digam: posso contar convosco? Relativamente ao meio de se deslocarem até lá, eu mobilizo o meu irmão para vir buscar-vos, mais a tia Idalina e a Rosa.
Embora os irmãos não estivessem nada entusiasmados a saírem de Aveiro, mas à vista de tanta insistência, deliberaram fazer-lhes a vontade. Contudo, a tia e a Rosa ficariam a guardar a casa.
Chegando o dia aprazado, o Henrique e a irmã apareceram cedo para os conduzir a S. Miguel, local onde seria realizado o convívio. Maria Clara fez as apresentações e determinou sentar os amigos à mesa junto dela e ao lado da sua família.
Um famoso conjunto musical abrilhantou a festa, que decorreu bastante animada, tendo a Alexandra dançado o tempo todo com o Henrique, irmão da Maria Clara. Esta, que não quis dançar, aproveitou para ter uma conversa amena com o Augusto Manuel para saber dos seus progressos literários e o curso de Informática que havia decidido tirar. Informou-a ele, também, de um livro de pensamentos, de sua autoria, que andava com desejo de publicar. Maria Clara, que tinha uma certa predilecção por provérbios, – logo atalhou:
- Tem graça! Também gosto de pensamentos e já fiz alguns. Veja se lhe agradam estes dois: “Para que possa produzir efeito, a Amizade cultiva-se como uma for” – “A Poesia é o reflexo do Céu a tocar nas coisas belas da terra”!
- Gosto muito. São lindíssimos! Parabéns pela profundidade de conceito que encerram - respondeu ele.
Maria Clara tinha prevenido os pais para que não tivessem nenhuma conversa indiscreta com o Augusto Manuel, sobre a sua cegueira. Os deficientes não gostam, naturalmente, que lhe avivem os seus complexos, – esclareceu ela.
Perto da meia-noite e feitas as despedidas, voltou o Henrique e a irmã trazê-los a Aveiro, que agradeceram muito a hospitalidade e as atenções, de que se viram rodeados.
O Henrique que parecia ter ficado encantado com a amável e distinta presença de Alexandra, de regresso encetou assim um diálogo com a sua irmã:
- Alexandra é uma rapariga muito simpática. Gostei dela e da sua maneira de ser. Penso até em escrever-lhe, que dizes?
- Sim uma vez que não estás ainda comprometido com ninguém, acho óptimo que te antecipes a outros que possam surgir, Tanto ela como o irmão são pessoas da minha estima particular que eu considero muito. A Alexandra, muitas vezes, dizia-me que não se casaria, preferindo ficar solteira e acompanhar o irmão, mas talvez já mudasse de opinião. Pareceu-me entusiasmada quando dançava contigo. Não lhe falaste em nada?
- Apenas lhe perguntei se lhe poderia escrever e pedi-lhe o seu endereço, que me deu de muito boa vontade. O irmão pareceu-me também uma pessoa interessante e culta. Que infelicidade ter nascido sem o sentido da visão!
- A nós faz-nos mais impressão, mas ele que se mentalizou do seu estado, sente-se realizado com uma vida multifacetada que criou e vive relativamente feliz. Quem sabe se ainda não virá a casar?!
- Casar! Com quem?
- E se fosse comigo… Condenarias?
- Ai mana, aí já anda algo que me sobreleva… Tu és maior e vacinada para saberes o que melhor te convém. Notei, efectivamente, que ele é uma pessoa de princípios e atraente, mas pensa na mágoa que isso causaria aos nossos pais, ao terem conhecimento que te ligavas a um cego! Poderá ser que, com o tempo, eles se conformem, e eu mesmo. Também não quero entristecer-te muito.
- Ainda terás de me ajudar a esta demanda… Henrique! Quem sabe? O tempo decretará o destino. Por enquanto, são apenas confidências de irmã para irmão… Ainda bem que chegamos. Já está a vir-me o sono, e tu tens de levantar-te cedo para saíres para o Porto.
No dia seguinte a vida voltou ao ritmo normal. O Henrique abalou e a Maria Clara ficou a aguardar uma resposta do Sub-Região de Saúde de Aveiro, onde esperava a vir prestar serviços.
 
E assim aconteceu. Passados dois meses já a Maria Clara exercia as suas funções com muito zelo e competência no Hospital daquela cidade e reataram-se os contactos, não constantes, mas normais com os amigos. Maria Clara pensava comprar casa própria, mas enquanto isso não se concretizava, continuaria na casa dos amigos de seus pais. E dava jeito, porque havia lá uma senhora doente e idosa que precisava de cuidados de enfermagem e a quem a Maria Clara dedicava estremo carinho. Uma Enfermeira amorosa a inspirar muita simpatia e admiração em todos que a conheciam de perto!...
- Num Domingo, em que foram almoçar fora, comendo perfeitamente à mesa, ninguém diria que o Augusto Manuel era cego. Alexandra, distanciando-se um pouco dele, confidenciou à amiga:
- O teu irmão escreveu-me…
- Ai, sim? Fico contente com a notícia. Não é por ser meu irmão, mas ele é muito bom rapaz e tem um futuro promissor. Agora meteu-se também na política. Há-de ir longe com a sua tendência para fazer discursos. E se arranjássemos tudo… entre amigos, seria o ideal, não achas?
- Não sei. Mas vou responder-lhe num destes dias. Será que os teus pais me verão e ao meu irmão, com bons olhos?
- Os meus pais gostaram de vós e terão de aceitar as preferências dos filhos. Eles respeitam muito o meu irmão, por ser mais velho, homem e já Advogado, ditando leis… Estou confiante que há-de conseguir mentalizá-los, no sentido de se associarem à nossa felicidade e ao nosso destino, marcado por Deus.
Deixa lá, Alexandra, que o meu irmão encarregar-se – à de encaminhar as coisas. Os meus pais são pessoas simples da aldeia, compreensivos e pouco ambiciosos. Considero isto uma fronteira que temos de ultrapassar ou, antes, uma pequena aresta fácil de limar. E se necessário falo com o meu padrinho que é muito lá de casa e bastante meu amigo. Anda, vamos para a mesa, que o Augusto Manuel há-de pensar que o abandonámos.
Sem novidade de maior, as coisas iam correndo normalmente, até que Alexandra, após ter terminado o seu curso em psicologia clínica em Coimbra, aceitou a proposta de Henrique para irem trocando ideias, mas dizendo-lhe sempre que não gostaria de sair de Aveiro, terra muito bonita e a quem chamam: Veneza de Portugal.
No ano seguinte e pela Páscoa, o Henrique que veio passar uns dias na terra e lá se juntou com a irmã, decidiu ter uma conversa séria com os pais, sobre o futuro da irmã e também do seu.
E foi numa hora em que a mãe estando só e tratava de confeccionar o jantar, que ele iniciou o diálogo com ele:
Então, mãe, os pais já se conformaram com a previsão do casamento da Maria Clara, com o Augusto Manuel?
- Ai, filho, eu já não me importa, porque vejo a tua irmã sempre triste e sem gosto nenhum pela vida. Mas o teu pai é que está muito renitente, Tenho-lhe feito ver certas coisas e ele não aceita os meus conselhos. Diz-me sempre que eu sou parva e não quero o bem da filha. Tens de ser tu a ver se consegues demovê-lo a admitir, e à boa monte, que ela realize o seu sonho. O rapaz até parece digno, porque afirma não querer casar com ela, sem que nós abençoemos a união.
- O Pai, sabendo que ela tem já 24 anos, um curso que tirou com distinção, e, até hoje, um comportamento irrepreensível, deverá pensar também que ela merece ser feliz. Tal como já vos disse, penso casar com a irmã dele, caso ela não se enfade com as vossas esquisitices… Ando com muito receio.
- Eu volto a falar ao teu pai, mas tens de dar uma ajuda, sei que ele te respeita muito.
Vendo o caso neste pé, e desejando alegrar a irmã, o Henrique no dia seguinte convidou o pai para um pequeno passeio de automóvel, com o fim de persuadi-lo a condescender aos anseios da filha, - exclamando no fim do “sermão”…
- Amanhã vou a Aveiro levar a Maria Clara, e o pai vai connosco para combinar-se o enlace. Estou ansioso para ver lá em casa mais alegria e os netos, correndo atrás de si, a chamarem-lhe avô…
- Dizes bem, Henrique! Esta vida é dois dias. Temos que sabê-los viver. Amanhã vamos a Aveiro.
Ainda nessa noite o Sr. Américo contou à D. Carolina a conversação havida entre eles. Como o Henrique tinha de ir lá levar a Maria Clara, o pai aproveitaria e para ir também e passariam todos pela casa do Augusto Manuel e da Alexandra.
- Se quiseres podes ir connosco – disse-lhe o marido.
- Não, homem, deslinda tu as coisas, que eu tenho cá que fazer… Além disso, sinto-me um bocadinho comprometida, também.
Tal como haviam, projectado, no outro dia de manhã seguiram todos três com destino à cidade de Aveiro. A Maria Clara não sabia de nada e ficou surpreendida ao ver o carro parar em frente da casa dos seus amigos.
Neste preciso momento ia a sair a Alexandra, que ficou também admirada de ver ali àquela hora o Henrique, a irmã e o pai, tendo aquele explicado, após os cumprimentos:
- Viemos trazer a minha irmã, aproveitando para te ver e despedir-me de ti, sendo que tenho de partir amanhã para o Porto.
- Entrem para conversarmos um pouco. Eu ia a sair, mas vou mais logo. A Maria Clara vai estar caladinha… para fazermos uma surpresa ao meu irmão. Está bem?
Conduzidos ao escritório, onde o Augusto Manuel já trabalhava, a Alexandra referiu:
- Temos aqui visitas! Pára com isso, que é o Henrique e o pai. Imediatamente o Augusto Manuel se voltou para os cumprimentar, com um sorriso nos lábios, sem se esquecer de perguntar por D. Carolina, D. Albertina e Maria Clara.
- Estão todas bem, obrigado. Mas não tem falado com a minha filha? – Interrogou o Sr. Américo.
- Não muito – respondeu o Augusto – um pouco a medo…
- Ah, mas vão começar a falar mais, É por isso que estou aqui hoje. E cumprimentem-se, quea Maria Clara está presente, desejando dar-lhe um carinhoso abraço. E pode ela, quando quiser, marcar a data do casamento. Como está munida de carta de condução, a sua prenda será um automóvel.
- Bem-haja, Sr. Américo, pela feliz comunicação que nos deu – disse o Augusto Manuel, abraçando com muito entusiasmo o futuro sobre e a sua amada.
- Não tem nada que agradecer. Que Deus vos faça felizes.
Depois de irem ver o quintal, e com todos à porta, o Henrique convidou a Alexandra e o irmão para irem ao Café, que havia em frente, tomar uma bebida à saúde dos futuros noivos: Maria Clara e Augusto Manuel.
Maria Clara, muito satisfeita e reconhecida ao pai, disse que ficava ali mais uns instantes. Depois iria a pé, já directa para o Hospital. Ao despedir-se de Alexandra e do Augusto Manuel, – volveu sorrindo:
- Vêem como tudo terminou em bem? O que é preciso é esperar-se com calma. O meu pai, no fundo, é bom. Temos é que andar-lhe ao jeito. No Domingo, de tarde, apareço por aqui. Há agora muito que falar…
Alexandra lembrou já:
- A nossa casa é enorme. De princípio ficam a morar connosco.
Américo dos Santos saiu dali com a consciência em paz e boas impressões daquela família. Com que ia, muito em breve, entrelaçar-se.
Afinal, a deficiência do rapaz até pouco se notava. Lá em casa e em conversa com a D. Carolina, explicava:
- Aquilo é gente fina, mulher e com boa formação Católica. Reparei nisso… A casa é um assombro, fazendo parte um grande quintal cheio de árvores de fruto e jardim. Sempre muito amáveis, fizeram questão de me mostrar tudo. O Augusto Manuel caminhava à minha frente como um “sargento”… Se visses, tem lá um escritório que manda ventarolas, com poltronas e tudo! Sentado ali, até parecia um Ministro! Olha, se eu não levo a roupa do Domingo?!
- O que me interessa agora, é que eles se compreendam bem – atalhou a D. Carolina, também satisfeita com o que acabava de ouvir, mas receosa porque as uniões actuais não são firmes como dantes.
Mas vivia nela uma certa esperança, porque a sua filha iria fazer um casamento alicerçado por um grande Amor, entre duas famílias de princípios cristãos. Virtudes imprescindíveis para que Deus abençoasse o matrimónio, tornando-o feliz e para sempre.
Daí a três meses já se falava nos preparativos do matrimónio, que a Maria Clara marcou para o dia dos anos do seu noivo.
Entre eles sempre existiram maneiras de delicadeza, pelo que estava a ser difícil o tratamento menos cerimonioso. Mas tinham que mudar, e foi o Augusto Manuel que tomou essa iniciativa, expressando-se com um terno sorriso, numa tarde em que estavam os dois sentados num banco do jardim:
- Mas porque não marcaste o dia mais feliz da nossa vida, para a data do teu aniversário, Maria Clara?
Porque gosto mais que seja no dia dos teus anos – 12 de Maio. É a um Domingo e tempo em que o nosso quintal estará mais florido e perfumado, meu amor! Depois, sempre que surja esse dia, em nossa casa há festa redobrada, percebes?
- Bem hajas, minha querida, por esta gentilíssima homenagem que quiseste prestar-me. Com tanta felicidade, até me esqueço que te não vejo, Ah, mas sinto-te dentro de mim e fixo-te bem com os olhos da alma…
- Deixa-me ver as tuas mãos, Augusto Manuel. Com elas modela o meu rosto e passa os dedos pelos meus cabelos…
- É oval o teu rosto lindo, não é Maria Clara? E os cabelos são longos e ondulados! Não são?
- Acertaste! Mas agora tens que adivinhar a cor deles?!...
- Talvez castanho claro, como os de Nossa Senhora!
- És bruxo ou a Alexandra te contou?
- Sou bruxo para te encantar!...
- Ora escuta: não ouves os passarinhos a cantar, Augusto Manuel?
- Ouço, sim, Maria Clara. Estão em alegre chilreio, como que a querem ouvir também um beijinho nosso…
Maria Clara, tomando a iniciativa de beijá-lo na testa, os passarinhos chilrearam muito mais!
- Vês, como era isso que eles queriam? – Volveu – muito contente, o Augusto Manuel.
E era verdade. Naquele local de sonho, cheio de árvores, até os passarinhos se associavam à doce alegria, saltando e cantando na ramada, perante aquele par enamorado de felicidade.
Aproximando-se o dia do matrimónio, a Maria Clara lembrou para que fosse realizado na Capelinha de Santo António da sua aldeia e o mais simples possível, convidando apenas a família mais próxima, os padrinhos e alguns amigos íntimos. Não receberia muitas prendas, mas eles comprariam o que fosse necessário. Por enquanto ficariam a viver ali e até que a Maria Clara possuísse a nova moradia, que pensava em adquirir.
 
No dia do casamento, o Henrique ficando na mesa ao lado de Alexandra, deu è namorada algumas boas notícias:
- No próximo ano, Alexandra, conforme solicitei, vou ser transferido para os Serviços Notariais de Aveiro. Ficas contente?
- Claro, que fico. Sempre te disse que não gostaria de sair da minha terra Natal, onde tenho casa, a família também e a minha carreira iniciada.
- Quis dar-te a boa nova em primeira-mão, pois os meus pais ainda não sabem. Quando eu lhe disser, vão ficar muito satisfeitos, por terem os filhos aqui perto. Ando também a pensar em comprar uma moradia nova para vivermos. Já escolhi um sítio bonito, mas, por enquanto, é segredo… A minha irmã traz igualmente vontade de adquirir uma, mas acho que devem ficar depois com a vossa, que é muito boa e está bem situada. O teu irmão está ali habituado e poderá custar-lhe mudar de ambiente.
- Com tantas e tão boas notícias, recebidas hoje, é que não esperava, Henrique…
- Mas falta ainda o melhor, que irá surgir logo após estar em Aveiro e termos a casa nova!
- Já sei o que é… - A nossa feliz união – abençoada por Deus!
- Adivinhaste, Alexandra!
Passados dez meses nascia de Maria Clara, um lindo e robusto rapaz que veio completar a alegria do lar e da família toda. Os avós, Carolina e Américo deliraram de satisfação e logo disseram que queriam mais netos. A criança era sã e deveras encantadora! Alexandra foi quem escolheu o nome. Iria chamar-se Pe3dro Manuel. Maria Clara e o Augusto Manuel escolheram os padrinhos que seriam, naturalmente, a Alexandra e o Henrique, que ficam loucos de contentamento e começaram a dar-lhe prendinhas de ouro.
Lá em casa, incluindo a Rosa e a tia Idalina, todos queriam andar com ele ao colo! Parecia o menino nas mãos das bruxas… Até o pai, que ambicionava muito que o primeiro filho fosse um rapaz, não se cansava de pedir:
- Maria Clara deixa-me pegar-lhe um bocadinho!
- Vá toma-o lá, mas senta-te – dizia-lhe ela.
- Assim, ele chora; vês, Maria Clara?
- Mas não se pode habituar a que andemos sempre com ele de um lado para o outro. Ele é muito fino… só quer que o balancem…
- É esperto como o pai, porque segundo me disse a Rosa, também eu, quando era assim pequenino, exigia o colinho. E se não me faziam a vontade, rabujava muito
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14.10.09

 

 

MURMÚRIOS DO CEIRA

 

VIII

 

ENLEVOS DE AMOR

 

 

Um bom livro educa e civiliza qualquer pessoa. C.B.S.

 

 

 

 

Nos subúrbios duma pequena vila beiroa, habitava na bonita vivenda “Margarida”o senhor José Martins Gouveia, de 75 anos de idade, acompanhado apenas da sua antiga empregada Elvira que, por ser muito dedicada ao seu amo, nunca o quis deixar só.

Quando, há cerca de 15 anos, a D. Margarida Gouveia faleceu, esta, pressentindo o seu fim, pediu à Elvira, (que nunca se quis casar) que tomasse conta do seu marido que ficava quase só no mundo, pois o único filho do casal havia falecido muito jovem, num desastre de viação.

Logo após a perda da esposa, o senhor Gouveia, que fora um conceituado lavrador, resolveu vender todas as propriedades e ficar apenas com a casa e quintal à volta. A Elvira, que tinha menos 15 anos do que ele, também aprovou a ideia – dizendo:

- O quintal chega para nós. Olhe senhor Gouveia, em morrendo o “tio Zé Carlos”, não há ninguém quem cuide do quintal e do jardim.

- Dizes bem, Elvira, foi a melhor coisa que fiz. Trabalhei tanto para juntar alguns haveres e não

Tenho a quem os deixe, ou melhor, quem os mereça.

- Tem os seus sobrinhos, que não vão deixar de aceitar a herança…

Sim, logo aparecem para tratar do funeral e habilitarem-se como herdeiros… Eu sei. Mas olha, Elvira, a família não existe só para sucessão de bens, mas mormente também para apoio, arrimo solidário na doença e convívio fraterno etc. etc. Infelizmente nada disso acontece comigo; bem sabes.

- É verdade, senhor Gouveia. Mas é assim a vida moderna. Hoje nem os próprios filhos pensam em acompanhar devidamente os pais na sua velhice. Arrumam com eles para os Lares e que lá se amanhem…

Quando vou à vila gosto de visitar a minha prima Noémia que está no Lar e bem vejo a lamúria e tristeza de muitos, que é de fazer chorar as pedras!

Estas duas pessoas vivivam e estimavam-se como irmãos. Ele sempre a respeitou, até porque sabia que a Elvira era uma mulher honesta e crente. Viviam como Deus com os Anjos. Um amparo mútuo, Amigo e sério, de fazer inveja aos verdadeiros santos. Anos antes o senhor Gouveia ainda pensou em casar com ela, por causa das línguas do mundo e até para deixar parte da sua pensão de reforma. Só que ela logo lhe disse e de maneira muito expedita e desinteressada:

- Pense melhor, senhor Gouveia. Qualquer de nós já não está em idade de bodas… nem proclamas de banhos na Igreja. Distraia-se com os versos, que eu cuido da casa e deixe falar quem fala. A reforma também não é lá grande coisa… O mais importante é que cumpramos com os nossos deveres de Cristãos autênticos.

O leitor ainda não sabe, mas O Senhor Gouveia era poeta. Nunca quis manifestar bem a sua inclinação, mas é evidente que, desde novo, ocupou os seus tempos livres a fazer versos. Fez mesmo algumas letras para marchas e ranchos folclóricos da vila e tinha até um certo dedo para a música. Lia muita prosa, mas gostava mais de poesia. Sempre que ia á vila nunca se esquecia de trazer um bom livro clássico para ler, e a Elvira, com vontade de se ilustrar, lia também.

Tinha ele uma gaveta cheia de produções suas, algumas que havia dedicado à sua finada esposa e ao filho João, que Deus lá tinha.

Ainda hoje a poesia é o seu passatempo favorito, gostando de transmitir para o papel os estados sentimentais da sua alma. A Elvira sabe pouco de poesia, mas gosta de o ouvir declamar os poemas que ele faz com muito gosto e inspiração.

Há dias saiu-se a Elvira, com esta:

- Por que é que o senhor Gouveia não reúne todos os seus versos num livro? Tem poemas tão bonitos que as pessoas gostavam de ver. Aquele soneto. “O CANTAR DA ÀRVORE”, que escreveu há dias, ficou um espanto! Chamam-lhe, às vezes, “poeta popular” porque mal conhecem os seus escritos, apenas sabendo de alguns que faz de improviso. Não publica nada.

- Escuta, Elvira: Eu até gosto que me chamem “poeta popular”. Significa que canto para o povo e de maneira que o povo me entenda, percebes? Não vou importar-me com isso, até por que já vi rotular de “poetas populares” grandes e muitos distintos poetas portugueses, nomeadamente António Aleixo a quem alguns dos famosos não lhes chegam às barbas…

- Santa ignorância chama-se isso, porque “poetas populares”, ou lá o que é, atribuem-se às vezes, de forma humilhante e hostil àqueles que fazem uns versos poucos inspirados, sem métrica nem nada, o que não é o caso do senhor Gouveia, Bagagem de conhecimentos tem muita, mas falta-lhe nome, o que é, por vezes, bem difícil de conseguir, Mas repare, senhor Gouveia, há quem arranje um nome bem sonante, fazendo poesias que ninguém compreende. Por exemplo: eu não entendo aonde se encontra a arte e o interesse destes versos que, como diz o autor, estão fora do seu ritmo:

Há mais de meia hora

Que estou sentado à secretária

Com o único intuito

De olhar para ela.

(Estes versos estão fora do meu ritmo.

Eu também estou fora dó meu ritmo).

Tinteiro grande à frente.

Canetas com aparos novos à frente.

Mais para cá papel muito limpo.

Ao lado esquerdo um volume da “Enciclopédia Britânica”.

Ao lado direito –

Ah, ao lado direito!

A faca de papel com que ontem

Não tive paciência para abrir completamente

O livro que me interessava e não lerei.

Quem pudesse sintonizar isto!

- Não entendes, mas entende quem os escreveu, talvez só para si… Tens razão ninguém ousaria chamar “poeta popular” a Fernando Pessoa, autor do referido texto, que não tem nada de especial e nem de poético. Aqui, que ele não nos ouve, também não me agrada este género de poemas. Sim, mas ele tem coisas um bocadinho melhores. A “Mensagem” é uma obra muito conhecida e, até, há quem julgue Fernando Pessoa, o melhor poeta de todos os tempos.

- Talvez, senhor Gouveia, mas eu gosto mais dos seus poemas, que são transparentes como a +agua cristalina dos ribeiros. Lembram mesmo as poesias que dantes vinham nos livros de leitura, feitas por grandes mestres.

-, Grato, Elvira, pelo teu amável elogio, Daqui a pouco percebes mais do que eu. Estou admirado, já falas em métrica e tudo…

- Sim, já sei que as quadras populares têm de ter sete sílabas, senão ficam coxas e não soam bem ao ouvido.

A vida ia decorrendo calma, até que algum tempo depois, Deus chamou o senhor Gouveia à sua presença, comparecendo imediatamente na casa os três sobrinhos. Ao abrirem o cofre encontraram uma linda caixa prateada, que abriram logo, pensando talvez, tratar-se de alguma colecção de jóias. Mas não. Eram preciosamente versos que ele mais gostava e havia guardado ali, com muito carinho.

Um dos sobrinhos, decepcionado, quando viu do que se tratava, passou a caixa para a mão da Elvira, dizendo de modo aborrecido:

- São as cantilenas do meu tio. Atire com elas para o lixo…

A Elvira, em vez de jogar fora a caixinha, foi guardá-la na sua mala, como saudosa relíquia do seu amo e até chorou de comoção, por ver a falta de apreço que tinham por coisas que o tio estimava tanto.

Dias depois, e já com calma, a Elvira tornou a abrir a caixa dos versos e deu lá com um envelope lacrado, que4 continha no exterior o seu nome. Surpreendida, abri-o e logo encontrou duas folhas de papel escritas, sendo uma em verso e outra em prosa. Primeiramente leu a folha em prosa, que dizia:

Elvira

Fiz testamento Notarial em Abril. Cópia do documento fica no cofre. A casa e recheio são para ti enquanto viveres, e ainda algum dinheiro. Contemplei algumas Instituições Sociais. A Biblioteca fica para a Câmara Municipal, mas após a tua morte. Os meus sobrinhos herdarão um dia a casa quando a deixares, Isto como saudoso preito a minha irmã, de quem fui sempre muito amigo.

Grato por tudo

José Martins Gouveia

Seguidamente e comovidíssima a Elvira leu a folha em verso, reparando que era um soneto ao qual ele pôs o título:

ENLEVOS DE AMOR

Quando eu morrer, Elvira, o que escrevi

E guardei nesta caixa de segredos,

Versos arrumadinhos, por meus dedos,

Não tendo a quem os dar… São para ti.

São memórias dos anos que vivi,

Meus Enlevos de Amor, dos dias ledos,

Tantos que fiz à sombra de arvoredos.

Lembrando a esposa e filho que perdi.

Guarda-os, Elvira, bem no teu poder;

Não tenho mais a quem os oferecer,

Nem que deite, por eles, um olhar!...

Um dia seguirás este caminho.

Mas antes, minha “irmã”, põe de mansinho

Todos os meus poemas a voar!

Muito sensibilizada, a Elvira, com as lágrimas nos olhos, decidiu não revelar a ninguém o que a caixa continha de misterioso… Foi depois ao cofre, mas não encontrou a cópia do testamento. Deduziu que os sobrinhos a sacaram com o fim de se habilitarem como herdeiros universais… Sim, eles ainda pensaram nisso, mas de nada valeu, porque outra cópia autenticada estava nas mãos de um Advogado, que logo legitimou o assunto nos serviços Notariais e Finanças.

A Elvira, ao ler toda a poesia do seu amo, decidiu tornar público o importante espólio poético do senhor Gouveia. Em sua saudosa memória, mandou editar um livro de poemas, quase todos sonetos, ao qual pôs o título “ENLEVOS DE AMOR”, exactamente o nome que ele dera ao soneto que lhe dedicou.

O nome de JOSÉ MARTINS GOUVEIA iria ficar na História das Letras Portuguesas, graças à Elvira, que foi muito louvada por este honroso gesto. E o livro agradou de tal maneira ao público que a obra de mil exemplares, em três meses, se esgotou. Uma considerada Editora tratou depois de uma 2ª Edição.

Eis uma simples história, que poderá talvez, ter algo de realidade.

 

 

 

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12.10.09

 

 

MURMÚRIOS DO CEIRA

 

IX

 

O ZÉ PEQUENO

 

Ninguém será pequeno no mundo, se desejar ser grande. C.B.S.

 

 

 

Chamavam-lhe o Zé Pequeno, mas o seu verdadeiro nome era José Francisco da Silva Fernandes

E morava na aldeia de Folgoselha, pertencente a um concelho da Beira Alta.

Sendo o mais novo de três irmãos e de estatura baixa, viveu sempre numa terra pouco povoada, com difíceis meios de comunicação rodoviária e sem uma Escola de Instrução Primária. Os seus irmãos, cedo abalaram para Lisboa e lá aprenderam o que a sua terra Natal não lhes pôde oferecer: - Instrução!

Os pais eram modestos agricultores, porquanto o filho mais novo ficou para ampará-los e ajudá-los na lida do campo. Mas o pequeno era fraco.

Tinham muitos animais, de que o Zé gostava imenso. Destes fazia parte um rebanho de cabras e ovelhas que todos os dias o Zé Pequeno levava a pastar para o monte. Era um zagal muito alegre e divertido, e ainda com uma certa habilidade para fazer flautas e assobios. Muitas das vezes quando tocava e cantava, o gado, junto dele, até pulava, como que a fazer ensaios de dança!...

Chegado aos vinte anos o Zé Pequeno foi às sortes, mas ficou livre do serviço militar por ser um pouco raquítico, baixo e um nada corcunda. No entanto. Ninguém diria que era um rapaz muito inteligente e com vontade de saber e fazer tudo.

Chegou a namorar, com muito entusiasmo, uma moça sua vizinha, que um dia saiu da aldeia e foi servir para o Porto e por lá ficou, casando e esquecendo o pastor apaixonado, que morria de amores por ela.

Durante muitos anos, ninguém mais o ouviu cantar e tocar na sua flauta, pelo que até o rebanho estranhou a tristeza do pastor e os garotos lhe perguntavam:

- Zé Pequeno, porque não toca na sua flauta?

- Porque não me apetece, – dizia-lhes com voz magoada e triste.

Mais tarde, e após a morte dos seus pais, ficou sem ninguém. Uma tia materna veio ainda viver algum tempo com êle, mas também chegou o dia de partir para a Eternidade, de maneira que o Zé Pequeno teve de ficar só e desamparado, apenas com os animais que tratava e estimava como irmãos. Tinha também um cãozinho que o acompanhava sempre. Alguns familiares, que viviam lá por Lisboa, nem dele se lembravam já… Pobre Zé Pequeno!

Aos cinquenta e cinco anos continuava a pastorear no campo e por lá ficava a tarde toda, levando uma merenda que, muitas vezes, repartia com as mansas ovelhas e cabras. Em dada altura, e porque os cabritinhos a saltar o faziam sorrir, começou novamente a ser uma pessoa alegre e bem disposta. Entretinha-se a fazer flautas e assobios para os miúdos da aldeia, que não o deixavam em paz.

Entre o rapazio da terra, havia um chamado Armando, de quem o Zé Pequeno muito gostava e atraí-o para que lhe fizesse companhia, O Armandito, de nove anos, frequentava a Escola Primária que nesse tempo já havia com professora da cidade. Hoje manifesta-se um contraste flagrante: as velhas Escolas das aldeias vão encerrando por falta de alunos… Por isso, a Natureza, vestida de verde-escuro, chora com pena e os passarinhos entoam elegias, voando de ramo em ramo!

Todas as tardes o Armando, que já frequentava a 3ª classe, pedia aos pais e ia estudar para junto do Zé Pequeno, guiando o rebanho agora para o cimo da encosta, porque as terras do vale estavam lavradas.

O pequeno Armando sentava-se numa lousa e com outra a servir de mesa, ali fazia os seus deveres, olhando de vez em quando para os cabritinhos aos saltos e para o seu amigo, entretido a arranjar flautas com um canivete. Este, dizia-lhe assim:

- Tenho muita pena de não saber ler para te dar umas lições e ajudar-te a fazer os trabalhos. Olha, empresta-me o teu livro de leitura. Pelo menos vou vendo as figuras, enquanto o canivete e as mãos descansam um pouco.

Num certo dia, e passado algum tempo, o Armando vira-se para ele e diz-lhe com ar muito sério:

- Quer que eu o ensine a ler, Sr. José Fernandes?

- Ai, se tu fosses capaz disso, dava-te aquela borreguinha preta que anda acolá em baixo a brincar… – respondeu o bom homem – todo entusiasmado.

- Vamos a isso, então! Amanhã trago-lhe o meu livro de leitura da primeira classe, que está ainda em muito bom estado, uma lousa pequena que lá tenho em casa, e ainda papel e um lápis para começar a aprender a lição… Mas isto tem de ser muito em segredo, está bem?

- Sim, Armando… Todos os dias os dois companheiros se escondiam, cada vez mais, por detrás das moitas e pinheiros, para que não fossem vistos por alguém do povoado e nem sonhassem o que se estava a passar lá no monte.

O Armando andava satisfeito com o seu aluno, que já conhecia as letras todas do alfabeto. Ao iniciar a tarefa de juntá-las, foi um sucesso enorme! No espaço de dois meses, pôs o Zé Pequeno a ler e a escrever regularmente.

Daí a um tempo – disse-lhe o Armando:

- Agora vou ensiná-lo a fazer algarismos e a contar até mil.

- A contar não me ensinas tu, Armando. Sei contar até um milhão e fazer contas de cabeça…

- Óptimo! Assim custa menos a aprender e vossemecê, com tanta força de vontade, em breve saberá resolver uma conta e problemas com um lápis.

E assim foi, realmente. O pior é que os pais do Armando começaram a notar que ele se demorava agora mais a fazer os deveres… Mas, como a senhora Professora lhes disse que ele ia muito bem nos estudos, não lhe ralharam muito..

Numa tarde, o Armando falou assim ao Zé Pequeno:

- Já sabe o bastante para andar como eu na terceira classe. Se quiser pode depois continuar os estudos para fazer a 4ª classe no Curso de Adultos, que é muito mais fácil.

- Que bom! Nesse dia faremos uma patuscada e levas a ovelhinha preta, que te prometi.

O Zé Pequeno tinha já cinquenta e seis anos e vivia agora muito mais feliz, lendo o jornal da vila e andando a par de todos os acontecimentos, graças ao Armando que fez dele um discípulo muito querido e aplicado.

No ano seguinte, prestes a chegar o tempo das férias, o Armando, que andava também radiante com o progresso do seu aluno – disse na Escola à senhora Professora:

- O senhor José Fernandes quer fazer o exame no Curso dos Adultos.

Muito admirada, a professora – perguntou:

- Mas olha, lá. O Sr. José Fernandes não é analfabeto?

- Era, mas já não é, minha senhora! Sabe? Ele é muito inteligente, e como tinha grande força de vontade em aprender, do pouco que eu sabia, fui-lhe e3nsinando, e agora penso que já sabe o suficiente para a prova do exame.

- Bravo, Armando! Amanhã traz-me cá o teu amigo, que eu quero examiná-lo, afim de inteirar-me dos seus conhecimentos.

Ao outro dia, o Zé Pequeno “fez-se grande”, vestiu a sua melhor roupa e foi com o Armando às Escola, na parte da tarde.

Primeiro fez um ditado, que foi magnífico e sem erros, maravilhando a senhora Professora. Depois, perante o seu desembaraço na quadro a fazer as contas e problemas, a senhora Dona Graça Maria surpreendeu-se com o que ele já sabia de toda a matéria e explicou, então, que ia propô-lo sem medo para muito em breve efectuar a prova da 4ª classe. Naquele momento, ela não se conteve e beijou com muito carinho o Armando, que foi também elogiado, naturalmente, por todos os que o conheciam.

Até o Sr. Inspector veio propositadamente assistir ao brilhante exame, trazendo para o Armando uma lembrança e uma linda medalha de prata, por ter sido capaz de fazer com que o Sr. José Fernandes não fosse mais analfabeto e vivesse na sua terra, com maior satisfação.

Os pais do Armando eram relativamente pobres, mas o Sr. Inspector prometeu ajudá-los para que o filho pudesse continuar os estudos e, quem sabe, vir a ser um bom Professor do Ensino Básico ou até Secundário.

O Sr. João Antunes e a senhora Maria do Rosário não cabiam em si de contentes, por verem o filho tão enaltecido e transformado em herói na sua terra… e exclamavam:

- Louvado seja Deus pela graça e imensa alegria que nos deu, por vermos o Zé Pequeno munido da carta de exame e o nosso Armando condecorado com uma linda medalha de prata!

Daí a alguns dias, houve quem visse o Armando, radiante de felicidade, levando a sua borreguinha preta, nas costas, que o Zé Pequeno lhe tinha oferecido de recompensa e cantarolava assim:

Borreguinha preta

vem pró meu curral,

que o “ti” Zé Pequeno

já lê o jornal!

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8.10.09

MURMÚRIOS DO CEIRA

 

X

 

A ÚLTIMA CARTA DA MÃE

 

Cuidar dos seus pais, é estar já a cuidar de si. C.B.S.

 

 

 

 

Há muitos anos que a “tia” Rita Manuela não recebia notícias do Canadá. No entanto, escrevia várias vezes por ano ao seu único filho que ali vivia sem se lembrar da mãe que o dera à luz e o havia criado até aos dezoito anos, à custa de muitas canseiras e sacrifícios.

A “tia” Rita Manuela era solteira e tivera aquele filho de um mariola qualquer que a seduziu e faltou à promessa de casamento, Todavia, nunca mais deu que falar na sua terra, trabalhando com muita honestidade, ao dia fora, para se sustentar e sustentar o seu filhinho, que era todo o seu enlevo!

Um menino belo e, por acaso, muito parecido com o pai que casou depois em Lisboa e não teve filho algum da mulher que escolheu para sua esposa. Desgostoso, ainda tentou, por “portas travessas”, obter permissão da Rita para que lhe desse a criança, o que ela recusou terminantemente…

O Carlos Manuel fez na vila o exame da 4ª classe com distinção; tinha até uma letra muito perfeita.

Durante uns dez anos ainda escreveu regularmente. Depois casou, vieram os filhos e o rapaz começou a esquecer-se da sua terra e nunca mais escreveu à desolada mãe…

Constava na aldeia do Carvalhal que a fortuna lhe sorrira e que ainda era vivo naquelas paragens. Estas informações eram também confirmadas pelas cartas que seguiam com remetente e não voltavam devolvidas.

A “tia” Rita Manuela, que tinha agora 72 anos, tornou-se muito doente, valendo-lhe a prestimosa caridade dos vizinhos e a pequena pensão de reforma que recebia da Segurança Social; muito lúcida e inteligente, mandava ainda cartas interessantes ao seu filho, escritas por sua mão. Já um bocadinho trémula…

É uma destas cartas, a última infelizmente, que transcrevemos aqui, com muita ternura e sentimento.

“Meu querido e saudoso filho

Não sei se te recordas de mim! Eu sou a tua mãe, a “tia” Rita Manuela que há mais de vinte anos te escreve várias cartas por ano, sem que tenha a alegria de receber uma simples letra tua.

Como deves saber, é sempre pelo Natal, pelo Ano Novo, pela Páscoa e pelo dia dos teus anos que te mando missivas, todas elas recheadas de Saudades. Tenho já 72 anos, feitos no dia de S. Brás e penso não completar mais nenhum. Tu, se Deus quiser, irás fazer cinquenta no dia de S. Miguel Arcanjo.

Guardo bem na lembrança esse dia memorável do teu nascimento. Os meus pais tinham-me posto fora de casa e recolheu-me a avó Alzira, que era uma santa criatura e nos dedicava um grande afecto.

Criei-te sem vergonha do mundo, mas com muitas dificuldades. Fominha não passaste, graças a Deus e às boas almas que nos ajudaram. Se chorei lágrimas de dor para que medrasses como os outros meninos, ainda hoje não me importaria de passar pelos mesmos trabalhos para ter a felicidade de estar junto de ti, outros dezoito anos. Tu és pai também! Pelo amor que dedicas aos teus filhos, poderás medir o sentimento de afecto que te consagro, não obstante estar separado de ti há trinta e dois anos! Deus queira que jamais notes a falta da estima deles. Seria muito penoso para ti.

Vou recordar uma cantiga que ouvia muito na minha mocidade e merece a reflexão do espírito:

Pode um filho estar ausente/ Que a mãe, na sua afeição/ A toda a hora o pressente/ Dentro do seu coração.

Vivo modestamente, mas consola-me saber que não passas as mesmas privações. Ainda ontem fui ao médico e vi-me atrapalhada, porque o dinheiro não chegava para comprar os remédios na farmácia. Os medicamentos em Portugal sobem todos os dias e ninguém se compadece… Mas não te comovas! Eu fico alegre em saber que vives numa terra progressiva do Canadá e não numa aldeia deserta de Portugal, onde até as pedras choram a desgraça dos velhotes como eu!...

O Zé da Filomena, que veio daí o ano passado, disse-me que estás gordo e bonito! Todos os dias te responso ao Santo Antoninho para que te proteja. Como gostava de te ver, Carlos Manuel! Que Saudades, meu Deus, que Saudades! E os meus netinhos como vão? Ouvi dizer que o mais velho já casou e tem uma menina encantadora! Como deves estar contente, vendo a família a multiplicar-se.

Apesar da lonjura que nos separa, sinto uma enorme alegria também quando comunico contigo por este meio que possuo para te manifestar o meu grande amor de mãe!

Esta, será de todas, a carta mais triste e sentimental que te escrevo, porque pressinto seja a última, meu filho! Noto agora muita falta de forças e o médico engelhou bastante o nariz ontem na consulta, E que ando eu cá a fazer neste vale de lágrimas? Perdoa, se te entristeço, mas o mundo já me não dá uma réstia de esperança!

Sabes? O tio Jorge faleceu o mês passado com uma doença terrível! Que Deus o tenha a seu lado. Foi sempre muito nosso amigo. Ainda tenho aquele banco que ele te ensinou a fazer com muita paciência. Lembras-te?

Ao despedir-me, quem sabe se para sempre, envio mil beijinhos ternos para os meus netos, um abraço à tua esposa que não cheguei a conhecer. Para ti, meu rico filho, vai um especial chi-coração, igual aos que me deste e eu te dei na tua infância querida. Que Deus te cubra de bênçãos.

Adeus, meu Amor! Tua mãe, muito amiga

Rita Manuela”

No dia de Páscoa, muitas foram as pessoas que viram estacionar um bonito e luxuoso automóvel, verde-escuro, junto à casa da “tia” Rita Manuela e um senhor de meia idade a bater à porta…

Um moço que passava – perguntou: -O Senhor queria alguma coisa? A “tia” Rita Manuela enterrou-se ontem. Sobre a sua campa estão ainda as rosas frescas. Toda a gente do Carvalhal teve muita pena dela. Era uma santa!

O cavalheiro, depois de agradecer a informação, retirou-se tristemente e as pessoas na rua se4guiram-no com olhar curioso, reparando que ele se dirigia para o cemitério do povoado.

Era ele, o Carlos Manuel que saíra da aldeia há mais de trinta anos. Já não conhecia ninguém, e também, naquele momento de desânimo, não quis dar-se a conhecer…

Pelas flores, ainda lindas, logo descobriu a sepultura de sua mãe! O Carlos Manuel vinha para a abraçar neste Domingo de Páscoa, mas já não chegou a tempo…

Alguém encostado ao portão do cemitério, ouviu pronunciar-lhe estas frases, num tom bastante magoado:

- Perdoa-me, minha mãe! Perdoa-me, minha mãe!

……………………….

Tu, que és filho ou filha, aproveita, como Deus manda, todas as horas da vida, para honrar, acarinhar e amparar na velhice os teus progenitores. Antes que seja tarde demais, manifesta-lhes sempre a devida gratidão, reflectindo nestas palavras da Bíblia:

“Honra os teus pais de todo o teu coração. Não esqueças os gemidos da tua mãe. Lembra-te que não terias nascido sem eles. E como lhes pagarás o que por ti fizeram? Ecle.7 – 27.28.”

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